Seguro e Costa dizem hoje se enterram o machado de guerra

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Acordo deve ser acompanhado por uma normalização da composição da direcção do PS ADRIANO MIRANDA

Os socialistas reúnem-se em Coimbra com o futuro em aberto.

1.º cenário Há acordo e só Seguro é candidato

Apesar do secretismo que envolveu as conversas entre António José Seguro e António Costa, a hipótese de haver acordo era dada ontem como viável de se concretizar e como a solução que mais agradaria à maioria dos militantes do PS. Este acordo, obtido em torno de um texto estratégico e programático sobre o futuro do PS, que hoje será apresentado aos dirigentes socialistas na reunião do Conselho Nacional em Coimbra, era defendido pela maioria dos dirigentes e personalidades contactadas pelo PÚBLICO. Destaca-se entre estes Francisco Assis, derrotado por Seguro há dois anos, que defendeu um acordo logo na Comissão Política de 29 de Janeiro, mas também Álvaro Beleza, da actual direcção.

A existência de um acordo deve ser acompanhada de uma normalização da composição da direcção no próximo congresso - cuja data será hoje marcada, bem como a data da eleição do secretário-geral -, terminando assim o tipo de direcção de António José Seguro, que se caracteriza por ser constituída por membros do núcleo duro dos seus apoiantes. O acordo que hoje poderá ser anunciado deverá pressupor o início de uma fase em que no secretariado se voltem a sentar representantes de outras sensibilidades e tendências internas. Ainda que haja no PS quem considere que esta decisão de abrir o partido, depois de o ter fechado tanto em seu redor, poderá ser uma derrota de Seguro e, a prazo, prejudicial ao actual secretário-geral, porque irá descaracterizar a sua liderança.

Outra alteração de fundo que este acordo comporta é o facto de o PS e a direcção de Seguro estarem disponíveis para digerir o que é a herança dos governos do anterior líder, José Sócrates. Este é mesmo um dos pontos de honra que António Costa colocou em cima da mesa e assim poderá o PS fazer a autocrítica e o balanço sobre o que foram os erros da sua governação, mas também elogiar e rentabilizar a seu proveito as reformas que introduziu no país e que muitos dos dirigentes socialistas consideram ser de defender e prosseguir. Também esta cedência a António Costa é vista como uma potencial abertura de caminho à descaracterização da estratégia de Seguro.

Apesar de aparentemente ser visto como um momento de vitória de Seguro, o anúncio de um pacto de tréguas entre Costa e Seguro para este congresso é olhado como uma dificuldade acrescida para o actual secretário-geral por um outro motivo: o PS vai ter de conduzir a oposição num ano em que dificilmente poderá contar com eleições antecipadas. A consciência desta dificuldade está presente entre alguns dirigentes do núcleo duro de Seguro, que, em conversa com o PÚBLICO, admitiram que o anunciado regresso aos mercados do Estado português, ensaiado já numa primeira experiência de sucesso, deverá inverter o ciclo de baixa popularidade do Governo de Passos Coelho. Ora, se a imagem do Governo do PSD-CDS começa a recuperar, mais difícil se torna a tarefa de quem for líder do PS.

2.º cenário

António Costa

é candidato

A candidatura de António Costa esteve para ser anunciada logo na noite de 29 de Janeiro, em plena comissão política, e é hoje claro que Costa então recuou perante a resistência que encontrou dentro da reunião onde se sentavam os principais representantes do que é o aparelhismo do PS. E a razão que esteve na origem da resistência do aparelho socialista a uma candidatura de António Costa é a razão pela qual o mesmo aparelho do partido tem insistido para que Costa não se candidate: a realização de eleições autárquicas este ano.

Há mesmo quem alegue que se ele agora avançar para a liderança contra Seguro, irá perder as eleições internas porque o aparelho partidário está concentrado em torno de Seguro para assegurar vitórias autárquicas. E que, além de perder o partido, poderá mesmo perder a Câmara de Lisboa, a que preside há seis anos, para o candidato do PSD, Fernando Seara, dando assim uma vitória eleitoral nas autárquicas a Passos Coelho. E que uma divisão das estruturas do partido entre duas candidaturas poderia prejudicar, em cada concelho, a campanha eleitoral e o congregar de esforços do partido para a conquista de câmaras municipais e de juntas de freguesia.

Os argumentos contra a candidatura de Costa têm sido assim todos de carácter local e nunca nacional. Mas é a dimensão nacional que a sua candidatura adquire que está a empurrar António Costa para a frente e que não permite ainda dar como fechado que Costa já desistiu. É que há consciência, mesmo entre as figuras do aparelho do partido e entre os dirigentes socialistas, que António Costa tem uma credibilidade e um impacto na opinião pública que Seguro não tem.

Essa mesma noção foi ontem confirmada pela sondagem do Expresso em que o nome de Costa rondava os 50% das preferências dos inquiridos quer para líder do PS quer para primeiro-ministro, contra um resultado que deixava Seguro na casa dos trinta por cento. E é esta divisão entre o que é o interesse do aparelho do partido em fase de pré-campanha autárquica e o que é a opinião pública, reflectida na sondagem do Expresso,que está no centro da indecisão de Costa sobre o que fazer.

3.º cenário

Outro candidato

Durante a passagem dos dias que decorreram entre a reunião da comissão política do PS, a 29 de Janeiro, e a reunião do conselho nacional de hoje, e perante o impasse sobre se António Costa avançava ou não avançava para a liderança do PS, chegou a ser aventada uma terceira hipótese: a de que uma outra personalidade socialista emergisse como candidata à liderança do partido, apenas para assegurar que a eleição para secretário-geral seria disputada entre dois dirigentes e que António José Seguro não estivesse na situação de ver perante si estendida uma passadeira vermelha inerente a uma condição de candidato único.

Esta possibilidade nunca foi falada em termos reais e de construção de uma candidatura viável, apenas como uma possibilidade de que o terreno da oposição a Seguro ficasse marcado e assinalasse a sua existência na votação dos militantes para secretário-geral. Mas não houve quem se chegasse à frente para cumprir tal missão.

Houve, contudo, dois nomes que foram falados como eventuais protagonistas desta missão. Um desses nomes foi o de Pedro Silva Pereira, próximo de António Costa e hoje em dia visto como o mais proeminente membro do que é a sensibilidade interna no PS que representa a herança de José Sócrates, de quem foi ministro da Presidência e número dois no Governo.

O segundo nome que foi falado foi o de Pedro Nuno Santos, que lidera a Federação do PS em Aveiro e que é um dos dirigentes do PS com posições mais à esquerda neste partido no plano político-ideológico. Pedro Nuno Santos, que se evidenciou pelo discurso que fez no último congresso, precisamente pelo teor ideológico da sua intervenção, é visto, aliás, como um futuro protagonista da liderança do PS e como o mais consistente, do ponto de vista político, do núcleo de ex-líderes da JS. António José Seguro e António Costa revelam hoje ao país se este vai finalmente assistir ao combate entre ambos pela liderança do PS ou se conseguiram estabelecer um pacto de tréguas dentro do partido, concretizado num texto programático e estratégico que norteará a organização do próximo congresso, intitulado Base Comum de Orientação Estratégica.

A oficialização de um acordo ou, pelo contrário, a assunção por ambos de que são candidatos à liderança do PS acontecerá hoje, numa reunião do conselho nacional, convocada para Coimbra, cujo início está previsto para as dez e meia da manhã e que se prevê que se prolongue por todo o dia. Nesta reunião, deverá também ser marcada a data das eleições para secretário-geral, que poderão decorrer durante o mês de Março, e o posterior congresso de consagração do futuro líder e da eleição da futura direcção, que poderá realizar-se até final de Maio.

Ontem, em visita no concelho de Vinhais, António José Seguro nada disse sobre como estavam a decorrer as conversas com António Costa, limitando-se a desempenhar as funções de secretário-geral e, nesse sentido, criticando as decisões do Conselho de Ministros extraordinário de ontem (página 15).

Igualmente António Costa manteve o silêncio sobre a sua decisão final, depois de, numa entrevista na sexta-feira à noite, à TVI, ter assumido a defesa de propostas a nível nacional e avisado que, na sua opinião, "não há drama nenhum se não houver" acordo e que se tal acontecer o "partido saberá resolver as divergências". E reservou para hoje a revelação da sua decisão sobre a sua eventual candidatura à liderança do PS.