Há mais uma criança morta pela mãe. Será que os media estão a ajudar?

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Três crianças foram mortas pelas mães num espaço de 16 dias DANIEL ROCHA

Atirou o filho, de 12 anos, da janela do quarto andar de um hotel em Bragança e a seguir lançou-se também para a morte

Martim, de 12 anos, foi ontem morto em Bragança pela mãe, que se suicidou de seguida. É a terceira criança a quem tal acontece num espaço de apenas 16 dias. À semelhança do que aconteceu com David e Rúben, no passado dia 25, em Oeiras, e com outras seis no ano passado, também Martim foi vítima de uma mãe com um quadro depressivo. Mas será que a cobertura mediática destes casos estará a contribuir para a sua multiplicação? "Pode funcionar como um factor precipitante", admite o psiquiatra Nuno Gil, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.

Ontem, por volta das 13 horas, Manuela Paçó, uma professora de 47 anos, casada com o presidente da Assembleia Municipal de Vinhais, alojou-se com o filho no Hotel Ibis de Bragança. Uma hora depois, estavam ambos mortos: Manuela atirou o filho pela janela e saltou de seguida, contou uma testemunha. Martim sofria de autismo.

No quarto do hotel foram encontradas algumas pizzas, refrigerantes e restos de embalagens de antidepressivos. Também foram encontradas duas cartas. A Polícia Judiciária de Vila Real está a investigar o caso.

Segundo alguns dos amigos e ex-colegas de Manuela (que era dirigente de uma associação de pais e amigos de crianças com necessidades especiais, que conheceu quando procurou apoio para o filho), esta estaria há já algum tempo com uma depressão. Amigos do casal indicaram que o marido de Manuela, que é também vice-director do agrupamento de escolas de Vinhais, não conseguia ontem encontrar motivos que a levassem a fazer o que fez. Ao PÚBLICO garantiram que não eram conhecidos problemas conjugais entre os dois. "Era uma relação normal, como tantas outras", disse um deles.

Eliana Sanches, também professora, que envenenou os filhos no dia 25 de Janeiro, suicidando-se depois, estava separada do pai de David e Rúben, de 13 e 12 anos. O crime ocorreu dois dias depois de o tribunal ter ordenado a entrega das crianças ao pai e a limitação das visitas da mãe, que só poderiam realizar-se na presença de outros familiares. Nos últimos tempos, Eliana tinha sido uma mãe violenta. "São pessoas que estão gravemente doentes, com um quadro psicótico", diz o psiquiatra Nuno Gil sobre os pais que matam os filhos e se suicidam depois. Por ser este o pano de fundo para um crime tão extremo, "não se pode nunca isolar apenas um factor que leve a este acto", alerta.

Também por isso, e ao contrário do que pode acontecer com o suicídio adolescente, a sucessão no último ano de casos como estes não pode ser atribuída a um simples fenómeno de "repetição". Nuno Gil admite, no entanto, que as notícias sobre estes crimes possam suscitar "um fenómeno de disponibilidade do modelo".

Algo que poderá funcionar assim: "Estou numa situação difícil, leio uma notícia no jornal e identifico-me com o sofrimento de quem praticou aquele acto, no qual porventura já teria pensado, e posso ganhar coragem para o levar por diante". É nesse sentido que a mediatização destes casos pode "funcionar como um factor precipitante".

Nuno Gil adverte que, em regra, quem chega até aqui já "deixou antes pistas". Daí a importância dos familiares próximos e dos amigos na prevenção destes casos. Também os cuidados de saúde primários devem estar mais atentos, defende, frisando que se sabe que 60% das pessoas que cometeram suicídio recorreram ao médico de família no mês anterior. "Essa é uma das razões pelas quais o Programa Nacional de Prevenção do Suicídio defende uma maior formação ao nível dos cuidados de saúde primários". Este programa deverá ser apresentado em Março. "Se estes clínicos estiverem mais alertas e se souberem fazer as perguntas certas, poderão funcionar como uma barragem e conseguir assim agarrar algumas destas pessoas", defende Gil.

Em regra, um pai ou uma mãe que mata os filhos e se suicida depois apresenta "uma percepção distorcida da realidade", explica. São pessoas que acreditam que já "não há futuro para elas", mas que decidem levar outros consigo para lhes evitar "sofrimento". Pensam que assim "estão a poupá-los a um destino pior". Quando acompanhadas clinicamente, "é menos provável que cheguem a desfechos" como estes. "Mas não é uma garantia. Situações como estas são os nossos enfartes de miocárdio. O facto de uma pessoa estar a ser seguida não impede que aconteça", diz.