Daqui Partimos, Aqui Chegamos

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De Santa Apolónia parte-se para o Norte; mas a gare serve também o Lusitânia Comboio Hotel, que permite fazer a ligação com Madrid, e o Sud Expresso, até França

O local onde hoje está a estação de Santa Apolónia chamou-se Praia dos Algarves e esteve para se chamar Cais da América. De Lisboa para mais além. Texto de Alexandra Prado Coelho e Ilustração de João Catarino

Está pacata a estação de Santa Apolónia às três da tarde de uma quarta-feira. Um café anuncia preços low cost, a loja de livros publicita saldos, duas velhotas estão sentadas num banco agarradas a uns sacos de plástico. Nos carris alguns comboios regionais aguardam o sinal da partida. Uma rapariga fala de um desgosto de amor e de como teimou em não ver os sinais até "ouvir da boca dele".

Na sala de espera o ambiente é desolador. Vários homens dormem dobrados sobre si mesmos nos bancos metálicos. Dois negros olham desinteressados para a máquina amarela onde nos podemos pesar se pusermos uma moeda.

Um homem tenta entrar nas casas de banho ignorando o papel que informa que tem de pagar 50 cêntimos e até a solícita máquina de trocos, mas há uma funcionária atenta: "Tem que pagar, patrão." O homem recua dois passos. "O quê? 50 cêntimos? Então mijo lá fora." A acreditar no cheiro que exala do passeio no exterior da estação muitos são os que seguem o exemplo, como muitos são os que ali dormem e muitos os que esperam a distribuição de comida quente.

Olho para os painéis de informação de viagens. Uma voz feminina anuncia pelo altifalante as estações e apeadeiros dos comboios regionais que saem em direcção ao Norte. Mas daqui parte-se também até Madrid no Lusitânia Comboio Hotel, ou até à Europa no Sud Expresso, comboio que teve a sua viagem inaugural em 1887 e que deveria ligar São Petersburgo e Lisboa, e depois, já de barco, à América ou a África. O projecto acabou por ser menos ambicioso, ligando apenas Paris e Lisboa, tendo as companhias britânicas de navegação Royal Mail e The Union criado um serviço de paquetes que ligava depois Lisboa ao Rio da Prata, no Brasil, e à Costa Oriental de África.

Salta-me à vista o nome Irún, na fronteira entre Espanha e França, e lembro-me de uma velha piada que o meu avô gostava de contar: ""Dê-me dois bilhetes para Irún." "Mas para que é que o senhor quer dois bilhetes se é só para ir um?""

Neste momento não há nenhum comboio para Irún ou sequer para Madrid, e até a bilheteira internacional está temporariamente encerrada. Há uma placa que recorda Humberto Delgado que num dia de Maio de 1958 aqui chegou, vindo do Porto, para cair nos braços de uma multidão eufórica que não tardou a ser esmagada pela violenta carga policial.

Houve mortos e feridos em frente da estação - as fotos do dia mostram o cais a abarrotar de gente que esperava que a chegada à capital do General Sem Medo fosse o princípio do fim do regime, e depois Humberto Delgado a ser levado em ombros e a acenar, e por fim, numa imagem simbólica, um GNR a cavalo a impedir a passagem do carro do homem que representava a esperança de toda aquela gente.

Sente-se por toda a gare uma espécie de ronronar de um animal gigante, mas os comboios ainda não arrancaram. Quando esta gare começou a ser pensada, em meados do século XIX, a ideia era não só ligar Lisboa a Espanha mas também permitir que os passageiros que chegassem a Lisboa vindos de toda a Europa aqui apanhassem os cruzeiros com destino à América. Por isso pensaram chamar-lhe Cais da América ou Cais da Europa.

Ficou Santa Apolónia, por causa do convento que ali existia um pouco mais acima, perto do local onde é hoje o Clube Ferroviário. Antes da estação, esta zona era conhecida como Praia dos Algarves explica Maria João Janeiro em Lisboa Histórias e Memórias: "Altera-se a fisionomia ribeirinha com a construção do caminho-de-ferro, desaparecendo os cais e as praias." O nome Praia dos Algarves devia-se ao facto de ser aí que "desembarcavam as mercadorias vindas do Sul do país".

Inicialmente - e isso vê-se bem nas fotos do livro Lisboa à beira-Tejo [1860-2010], organizado por José Sarmento de Matos - as águas do Tejo chegavam mesmo aos muros de Santa Apolónia, a Estação Principal dos Caminhos de Ferro do Norte como é chamada num antigo postal amarelecido.

Sarmento de Matos conta que "esta zona foi das primeiras a ser dotada de cais construídos em pedra, consolidando a margem do rio, sendo os conhecidos por Cais do Tojo e Cais da Madeira datáveis de finais do século XVI, ou ainda o chamado Cais de Santarém, servindo o Terreiro do Trigo, principal ponto de atracagem das embarcações de transporte dos cereais indispensáveis à subsistência da cidade".

Este foi, portanto, sempre um local de chegadas e de partidas - barcos, comboios, navios de carga, fragatas (numa das fotos, o "navio a vapor Ambaca, da Empresa Nacional de Navegação, que fazia a rota da África portuguesa"). O caminho-de-ferro, diz Sarmento de Matos, veio fazer um "rasgão profundo", separando o rio dos conventos e palácios que ficavam à sua beira. Os caminhos multiplicaram-se - o comboio puxando para norte, o rio para oeste. E, mais tarde, os aviões para muito longe.

Olho mais uma vez para os homens adormecidos na sala de espera, refugiados no interior do espaço quente dos casacos, a cabeça caída para a frente. Não me parece que tenham bilhete para lado algum. Na parede por detrás deles está, inconsciente da ironia que representa, um cartaz onde se lê: "Viajar é um direito de todos."

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