As freiras e o Estado pecavam nas lavandarias de Maria Madalena

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Memorial em honra das 30 mil mulheres que passaram pelas lavandarias das Irmãs de Maria Madalena, em Dublin. CATHAL MCNAUGHTON/reuters

É mais uma das histórias de terror que se passaram nas instituições de asilo irlandesas, onde as crianças e os mais pobres deviam ser protegidos. O Estado pediu esta semana perdão, a Igreja não

O Governo da Irlanda pediu desculpa na terça-feira pelos crimes nas lavandarias Irmãs de Maria Madalena. A Igreja Católica não. Desta vez, não negou o trabalho escravo, os abusos sexuais, a violência física e psicológica sobre as adolescentes e jovens mulheres que por lá passaram - 30 mil em mais de 70 anos. Mas ficou em silêncio, enquanto o primeiro-ministro, Enda Kenny, pediu perdão.

"Das que ali residiram, 26% foram enviadas pelo Estado. Lamento, peço desculpa por terem vivido naquele ambiente", disse, citado pelo The Telegraph. Perdão pelo abandono a que o Estado votou estas mulheres, pelo fechar de olhos quando os crimes eram evidentes, quando já todos sabiam e não fizeram nada.

Terá sido sentido, o perdão oficial do Estado. Mas foi tardio. E teve que acontecer - foi uma resposta ao relatório/investigação feito por uma equipa dirigida por Martin MacAleese que concluiu que grande número das raparigas foi mandado pelo Estado para as lavandarias onde as freiras ganhavam dinheiro com elas.

A última vez que a Igreja Católica falara das Maggies, como eram conhecidas, fora em 2002. Peter Mullen ganhava a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes (França) com As Irmãs de Maria Madalena e a agência Reuters arrancava uma reacção do Vaticano, através do cardeal Ersilio Tonini: é tudo mentira. O prémio, disse, "descredibiliza o festival".

Raparigas promíscuas

Não era mentira, afinal. Já se sabia. Soube-se nos anos 1920, quando a escravatura começou; soube-se na década de 60, quando houve denúncias; soube-se nos anos 90, quando houve notícias. As últimas lavandarias fecharam em 1996, há 17 anos apenas.

Mas, se eram loucas, as Maggies, por que razão alguém lhes deveria dar ouvidos?

Estamos mesmo no final do século XVIII e a Irlanda católica ainda não é independente (1922) quando as lavandarias começaram a abrir. Um inferno de boas intenções, para usar um ditado popular - abriram para reeducar as raparigas promíscuas quando alguém se lembrou (o Estado) que a sexualidade tinha que ser posta no seu lugar, que era no seio do casamento abençoado por Deus (o católico ou o anglicano).

A reeducação de prostitutas para se reintegrarem na sociedade acabou depressa como programa das Irmãs de Maria Madalena. Nos anos 1920, raparigas violadas eram mandadas para lá, muitas pelos pais. E as extrovertidas (namoradeiras, portanto). E as órfãs, sem abrigo apanhadas pela polícia e sentenciadas pelos tribunais à reabilitação, as prostitutas, as que tinham filhos fora do casamento. Algumas, porque a mãe, o pai ou alguém (um padre, por exemplo) não gostava delas. Outras porque eram bonitas e apetecíveis - violadas ou não, eram mandadas para longe pelos que caíam em tentação, um pai ou um padre.

Na Irlanda do Norte, houve uma lavandaria, Donegall Pass, fundada em 1839 para ajudar mulheres pobres e órfãs. Na que seria a República da Irlanda houve dez, exploradas por quatro ordens religiosas femininas. As Irmãs da Nossa Senhora da Caridade tomavam conta de lavandarias em Dublin, as Irmãs da Misericórdia das lavandarias em Galway e Dun Laoghaire, as Irmãs da Caridade das de Donnybrook, Dublin e Cork e as Irmãs do Deus Pastor de Limerick, Cork, Waterford e New Ross.

O tratamento das internas, quando o propósito da reabilitação acabou e a punição passou a ser o objectivo, era igual em todas. A abertura do filme de Peter Mullen resume-o e justifica o nome que deram às lavandarias: "Maria Madalena era uma pecadora da pior espécie (...). Só alcançou a salvação quando renegou todos os prazeres da carne, incluindo o comer e o dormir, e trabalhou para além da força humana."

O relatório MacAleese só conseguiu identificar 100 "sobreviventes". O filme fala de quatro (são histórias verdadeiras): Bernardette, a extrovertida; Rose, a mãe solteira que conseguiu conhecer o filho passados 33 anos; Crispina, outra mãe solteira; Margaret, violada por um primo.

Penitência e sofrimento

Steven O"Riordan, para o documentário The Forgotten Maggies, falou com algumas. Maureen O"Sullivan: "A minha mãe teve a ideia de me mandar para lá porque achava que eu era uma rapariga triste em casa. Ela tinha casado outra vez... Levei os meus livros da escola e tudo, tinha 12 anos. Nunca mais vi os livros da escola. Achei estranho que me tivessem feito uma visita guiada à lavandaria e me tivessem mandado subir para cima de uma caixa, para verem quanto eu media. No dia seguinte, levaram-me para a lavandaria. Eu não lavava, era muito nova, pendurava os lençóis, que saíam a ferver e queimavamos os dedos. Mas não podíamos queixar-nos, tínhamos que aguentar a dor nas mãos e nos braços, que estavam sempre para cima, a estender, dez horas por dia". Maureen saiu da lavandaria quando começaram a fechar, nos anos 1990.

Maureen tinha 12 anos, era muito nova para ter "pecado" e precisar de "penitência" através do "sofrimento". "Um dia, estava a esfregar um chão e uma das raparigas mais velhas veio dizer-me que não percebiam a razão de eu estar ali. Eu era muito jovem, elas estavam ali porque tinham tido bebés."

Regras da casa: as raparigas, mais ou menos jovens, eram tratadas pelo nome que as freiras escolhiam. Maureen, por exemplo, passou a Frances. Harriet passou a Crispina. Rose passou a Patricia. "Era proibido falar, era proibido comunicar. Só tínhamos autorização para trabalhar, trabalhar, trabalhar. E rezar".

Muitas morreram, muitas entraram nas lavandarias aos 15 ou 16 anos e morreram lá, muitas décadas depois. Aprisionadas contra vontade, trabalhando em escravatura, proibidas de falar, sem acesso a educação, sem contacto com a família - "não podes sair", diziam as freiras, "és muito burra para o mundo lá fora"; "não podes sair, a tua família não te quer" -, espancadas quando falhavam, humilhadas todos os dias, sexualmente abusadas quando a algum padre lhe apetecia.

Mary Currington, que contou a sua história à Reuters, disse que foi mandada para uma lavandaria porque era órfã e estava a estudar numa escola industrial (também estas investigadas em 2009 e consideradas lugares sinistros, onde o medo e o abandono eram as premissas, não a educação, além de o abuso sexual de crianças e adolescentes ser "endémico"). A mãe de Currington não era casada e a criança foi-lhe retirada.

Ingénua e cansada de pancada e sevícias, Mary foi à igreja pedir ajuda para sair da escola industrial. "Mandaram-me para as lavandarias. Prenderam-me durante seis anos. Perdi a juventude."

O cemitério secreto

Em 1993, houve notícias sobre as Maggies, porque as freiras de uma das lavandarias venderam parte de um terreno e, mal os novos donos começaram obras, encontraram ossadas humanas. As que morriam eram enterradas num campo ao lado da lavandaria. Não era um cemitério, uma terra sagrada, contaram as sobreviventes. Não havia uma cruz, um nome. Era um terreno, verdinho por cima, cheio de mortas por baixo.

As mulheres caídas em desgraça lavavam roupa de hotéis, de padres que viviam nas paróquias próximas, de quartéis; muitos contratos foram dados às freiras pelo Estado. Lavavam a roupa à mão, em água a ferver - Maureen recordou os dedos feridos dos lençóis quentes que dobrava.

Em Junho de 2011, Mary Raftery escreveu no jornal Irish Times que, no início dos anos 1940, algumas instituições, como o Exército, trocaram as lavandarias "comerciais" pelas "das instituições" (conventos) e houve um debate público devido ao aumento do desemprego no sector. A discussão foi encerrada com a explicação de que os cofres do Estado poupavam, como disse o então ministro da Defesa, Oscar Traynor: o contrato com as freiras tem uma cláusula salarial "muito razoável"; as Maggies não eram pagas.

O relatório diz que muitas das mulheres foram encarceradas contra a sua vontade nestes asilos onde cumpriam penas de prisão perpétua. Algumas tentaram fugir, outras foram resgatadas por familiares.

Em busca de cura para a dor

Finalmente, as lavandarias foram fechando e as mulheres saíram, tentando viver. Algumas conseguiram fazer amigos, encontrar trabalhos, apaixonar-se, ter filhos. Outras ficaram feridas para sempre, incapazes de confiar.

O relatório MacAleese foi feito depois de uma queixa da comissão de denúncia de torturas das Nações Unidas, que, após o filme de Mullen, do documentário de O"Sullivan, do trabalho do Channel 4 Sex in a Cold Climate (de 1997) e de uma canção de Joni Mitchell, exigiu saber, em 2011, os motivos desta crueldade e violação dos direitos humanos durante tantas décadas.

"A maior parte das mulheres que falaram com a comissão de inquérito expuseram a sua dor devido à falta de liberdade. Não eram informadas sobre o motivo de estarem ali. Não sabiam se poderiam sair, não tinham autorização para contactar o exterior", diz o documento.

Há um grupo, chamado Justiça para as Madalenas, que luta há anos nos tribunais por indemnizações. O argumento de que a maior parte deu entrada voluntariamente - ou assim está nos registos - tem sido a base para os processos não avançarem. O primeiro-ministro disse que isso poderá mudar agora.

"Não podemos imaginar a confusão e o medo destas jovens raparigas, muitas delas pouco mais do que crianças, ao entrarem nas lavandarias - não saber onde estamos, sentindo-nos abandonados", disse o primeiro-ministro.

A Igreja Católica, de reputação manchada devido aos abusos sexuais e crimes de pedofilia dos seus padres em todo o mundo, e na Irlanda também, não se pronunciou.

"Peço perdão. Peço perdão pelo que elas viveram", disse Enda Kenny no Parlamento. Os asilos das Maggies, que foram bem tolerados até bastante tarde pela sociedade católica e conservadora irlandesa - já a segunda metade do século XX ia bem avançada, diz o relatório -, só começaram a fechar por razões práticas. Tornaram-se inúteis quando todos puderam comprar uma coisa mais prática. No final do filme de Peter Mullen, uma das Maggies, já livre, passa por uma montra e vê uma máquina de lavar-roupa. O sorriso que esboça como que diz: é agora, acabou-se.