Um dos comboios que descarrilaram na Linha de Cascais tinha avaria nos rodados

Maquinista tinha sido avisado de que um dos rodados estava a deitar fumo. Marcha lenta evitou o pior.

Circulação foi interrompida entre Oeiras e Algés Daniel Rocha

O segundo comboio que na manhã desta sexta-feira descarrilou na Linha de Cascais, junto à estação de Algés, tinha um dos motores gripados, o que provocava o bloqueio do boggie (conjunto de rodados sobre os quais assenta a carruagem). Nestas circunstâncias, aquela parte da composição é – literalmente – arrastada ao longo dos carris porque as rodas não rodam sobre os mesmos, como, aliás, se pode constatar no local, em que a linha está desgastada.

Já em Paço de Arcos este comboio parara alguns minutos porque o maquinista fora avisado de que um dos rodados vinha a deitar fumo. Mas mesmo depois de esse boggie ter sido “desapertado”, continuou a deitar fumo, o que indicia que, mecanicamente, as rodas continuaram presas.

Como a partir daí o comboio circulou em “regime de marcha à vista” (a velocidade não terá ultrapassado os 20 km/hora), o descarrilamento em Algés não teve consequências de maior.

Já o comboio que descarrilou em Caxias e que vinha atrás deste não tinha, aparentemente, quaisquer problemas técnicos, mas poderá ter sido “vítima” do mau estado em que ficou uma agulha pela passagem da composição avariada que o precedia.

O que ali aconteceu é uma ocorrência estranhíssima e tecnicamente impossível no sistema ferroviário – o comboio está a passar por uma agulha que, de repente, muda de posição e uma parte da composição muda para a linha do lado.

Mais uma vez, as consequências foram mínimas porque, como esta composição vinha a cantonar (significa que, sendo um comboio de marcha mais rápida, vinha a subordinar a sua marcha à do outro, que tinha paragem em todas as estações), a sua velocidade na altura do descarrilamento seria entre 10 e 20 km/hora.

A mudança de uma agulha à passagem de um comboio não pode ocorrer por um erro humano, porque, tecnicamente, o sistema bloqueia esta operação enquanto o comboio não tiver passado em toda a sua extensão. Por isso, uma causa possível seria a lança da agulha estar entreaberta, eventualmente devido à passagem do comboio anterior, que tinha um conjunto de rodados bloqueados e que poderiam ter forçado a agulha.

Estas são explicações que terão de ser dadas pela comissão de inquérito que, inevitavelmente, vai ser criada. O GISAF (Gabinete de Investigação de Segurança e de Acidentes Ferroviários), entidade independente que tem por missão descobrir as causas dos acidentes, só existe no papel, pelo que terão de ser a Refer e a CP a elaborarem um relatório conjunto.

Ao que tudo indica, as responsabilidades pelos descarrilamentos serão partilhadas por ambas, dado que os dois descarrilamentos são resultado de uma infra-estrutura que necessita há muitos anos de modernização e de comboios que, tendo sido reabilitados nos anos 1990, são estruturalmente velhos, de várias décadas.