Tiago Leal
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Tiago Leal

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Fernando Ulrich, Jorge Jesus e os sem-abrigo

Haja alguém que explique a este Fernando Ulrich que se o Benfica for à falência, o Estado não vai canalizar o dinheiro dos contribuintes para o Estádio da Luz para o salvar, se faz favor

Eu não queria. Não queria mesmo ter de escrever sobre Fernando Ulrich e sobre as suas declarações porque tenho sobre elas a mesma opinião que o primeiro-ministro tem sobre a mini-remodelação governamental que fez, na qual trocou seis secretários de Estado e adicionou mais um - “… é um assunto sem dignidade para ocupar grande espaço político no debate interno."

Mas a verdade é que o homem não se cala e não há volta a dar. É como uma árvore que cai na estrada ou uma pedra no sapato – temos mesmo de a tirar para prosseguir a nossa viagem.

Fernando Ulrich gosta de ser notícia. Mal ou bem, o que parece é que o senhor tem gosto que se fale dele. E se a sociedade deixa de falar dele para passar a falar de coisas realmente importantes, o senhor volta em força com um novo “sound bite”, ou como se diz em português, bitaite. Primeiro foi o “aguenta aguenta”. Depois veio a comparação com os sem-abrigo, dizendo que se eles aguentam, ninguém mais tem o direito de dizer que não aguenta. Depois foi chamado ao Parlamento para prestar esclarecimentos sobre os apoios do Estado aos Bancos na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, e não só reafirmou o que já tinha dito como disse que não recebia lições de sensibilidade de ninguém porque já a tem toda.

Caramba, se não é insensível é invejoso, porque insiste em não mostrar uma coisa que diz que tem. O senhor Fernando apenas sentiu necessidade de clarificar que acha que é preferível aguentar uma enorme carga de impostos do que ser sem-abrigo, ou desempregado. Eu concordo totalmente e até acrescentaria que é preferível aguentar, também, uma enorme carga de pancada do que ser sem-abrigo. O problema é que a carga de pancada dificilmente tornará alguém num sem-abrigo (desdentado, talvez) mas já a carga de impostos tem uma certa probabilidade de o conseguir.

Na lógica deste senhor, ninguém está livre de vir a viver na rua, nem mesmo ele, pelo que enquanto conseguirmos aguentar a austeridade, significa que estamos bem e não nos devemos queixar. E é aqui que deixo de concordar com ele. Um reformado pode deixar de conseguir suportar as suas contas e ir parar à rua. Um empregado pode perder o seu emprego, os seus rendimentos e ir parar à rua. Um empresário pode ver a sua empresa ir à falência por falta de escoamento dos seus produtos, não conseguir que alguém lhe dê emprego e ir parar à rua. Mas um empresário de uma empresa cujo primeiro nome seja “banco” pode gerir mal a empresa, ter prejuízo à farta que o Estado há-de por sempre a mão por baixo, fazendo tudo por tudo para que a empresa não vá à falência, sobrecarregado os contribuintes para que a “tragédia” não aconteça.

Agora, o que eu gostava era que o senhor Fernando explicasse como é que ele acha que um dia pode vir a ser sem-abrigo, quando dirige um barco que, simplesmente, não se afunda. É verdade que ele pode perder o emprego, mas estou certo de que outro banco lhe abriria as portas. Pessoas como ele vivem num mundo acima do comum dos mortais e o risco de virem a sofrer na pele aquilo que dizem que os outros aguentam é quase zero. E como esse risco é quase nulo, o que se lhe pedia era que não falasse de um sofrimento que ele desconhece e que, provavelmente, nunca irá conhecer.

Talvez sentindo a razão escapar-lhe por entre os dedos em plena Comissão Parlamentar, o senhor Fernando resolveu sacar do ás de trunfo e atirar contra o treinador do Benfica, pedindo aos deputados que se indignassem com o que ele ganha, porque é muito mais do que o seu próprio ordenado. Às vezes, é nestas coisas que se vê o medíocre grau de argumentação que estes senhores que mandam no país têm. Primeiro diz que ninguém se deve queixar de passar a receber menos ao fim do mês mas depois pede que os deputados se indignem com o salário de alguém só porque ganha mais que ele. Se ainda fosse por não saber falar português ou por mascar pastilha de boca aberta, eu até compreendia.

Agora, haja alguém que explique a este senhor que se o Benfica for à falência, o Estado não vai canalizar o dinheiro dos contribuintes para o Estádio da Luz para o salvar, se faz favor. Ah, e que o Joge Jasus ainda vai alegrando seis milhões de portugueses, ao contrário do senhor Fernando. Pelo menos, por enquanto. Quando chegar a altura de decidir o campeonato, logo se vê.

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