Oposição da Tunísia convoca greve geral para amanhã

Milhares de tunisinos exigiram uma "segunda revolução", num protesto pelo assassínio de Chokri Belaid, dirigente de partido laico e um dos mais acérrimos opositores do Governo.

Foto
Apoiantes de Chokri Belaid rodeiam a ambulância que transporta o seu corpo Zoubeir Souissi/Reuters

 

Os representantes da coligação Frente Popular, que congrega os partidos da oposição ao Ennhada, o partido islamista no poder, marcaram o novo protesto para amanhã, quinta-feira.

A Frente Popular também anunciou o seu abandono dos trabalhos de redacção da nova Constituição da Tunísia, na Assembleia Constituinte.

Belaid, um conhecido advogado e activista dos direitos humanos, e líder do partido dos Patriotas Democráticos de oposição ao Presidente, foi morto com tiros no pescoço e cabeça, naquele que é o primeiro assassínio político desde a revolução de 2011 que deu origem à chamada Primavera Árabe.

Tendo em conta a dimensão do protesto de hoje, estima-se que a adesão à greve de amanhã seja grande. A BBC antecipa que as escolas, universidades e uma parte significativa do comércio permaneçam encerrados.

O Presidente tunisino Moncef Marzouki reagiu aos protestos ainda em França, onde estava para participar numa sessão do parlamento Europeu em Estrasburgo. Referindo-se a Chokri Belaid como “um amigo de longa data” e lamentando o seu “odioso assassínio”, o Presidente fez um apelo à calma mas também deixou um alerta. “Há muitos inimigos da nossa revolução pacífica, que estão determinados no seu falhanço”, observou.

A revolta foi imediata: assim que a rádio noticiou o assassinato de Chokri Belaid, milhares de pessoas saíram à rua exigindo uma “segunda revolução”. 

Pouco antes do meio-dia, uma pequena multidão juntava-se já frente ao Ministério do Interior, situado na avenida Habib Bourguiba, o principal eixo da capital tunisina e o grande palco da contestação que, em Janeiro de 2011, forçou o então Presidente Ben Ali a renunciar a fugir para a Arábia Saudita. A polícia acabou por recorrer a gás lacrimogéneo para dispersar a concentração de manifestantes nas imediações do ministério.

A AFP noticiou ataques contra duas sedes do Ennahda nas cidades de Mezzouna e Gafsa, na região central. Pelo menos um dos edifícios foi incendiado. A população também protestou em Sidi Bouzid, a cidade onde a revolução começou – foi ali que o vendedor ambulante Mohamed Bouazizi se imolou, em protesto contra os abusos das autoridades – e ainda em Kasserine (Centro), Béja e Bizerte (Norte). Em comum, a revolta contra o Governo, dominado pelos islamistas e alvo de uma contestação crescente, um ano e meio depois de ter chegado ao poder.

Chokri Belaid era uma das vozes mais audíveis na frente de partidos da oposição ao Governo e, nesta quarta-feira, o seu irmão não teve dúvidas em apontar o dedo: “Estou-me a lixar para o Ennahda e acuso o [líder] Rached Ghannouchi de ter mandado assassinar o meu irmão”, disse à AFP Abdelmajid Belaid.

Segundo a mulher do opositor, que falou à rádio tunisina Mosaique, Belaid acabava de sair de casa quando foi atingido por dois tiros. A estação France 24 adianta que os disparos terão sido efectuados por “três homens a partir de um carro negro” e que Belaid foi declarado morto pouco depois no hospital.

A BBC recorda que ainda no sábado Belaid acusou “mercenários” ao serviço do Ennahda de serem os responsáveis por um ataque a uma reunião do seu partido. Foi mais um episódio da recente vaga de ataques contra dirigentes da oposição e dos sindicatos tunisinos, atribuídos ao partido no poder.

Reagindo ao ataque, Ghannouchi descartou qualquer envolvimento no assassinato de Belaid, afirmando que os autores da acção “querem provocar um banho de sangue” na Tunísia. No mesmo sentido, o primeiro-ministro Hamadi Jebali disse que a morte do político “é um acto de terrorismo, não apenas contra Belaid, mas contra toda a Tunísia”.

O Presidente Moncef Marzouki, surpreendido pela notícia durante uma visita ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, falou num “assassinato odioso” de um dirigente do país, admitindo que a sua morte “é uma ameaça” a todo o país. O antigo opositor do regime de Bem Ali e activista dos direitos humanos cancelou uma deslocação ao Egipto e anunciou que regressará de imediato a Tunes.