Santa Casa paga 500 mil euros para editar todo o Padre António Vieira

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Padre António Vieira entre os índios do Brasil numa litografia de C. Legran, 1641 Museu de São Roque, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Primeiros três volumes da obra completa do pregador jesuíta saem em Abril. Investigação permitiu encontrar textos inéditos

Pela primeira vez vai ser reunida a obra completa do Padre António Vieira, com cartas, sermões, profecias, política, teatro, incluindo textos inéditos - a edição dos 30 volumes pelo Círculo de Leitores tem o custo de 500 mil euros e a Santa Casa da Misericórdia (SCML) é o mecenas principal, associando-se à Universidade de Lisboa (UL).

O protocolo que torna possível esta publicação (que inclui também um dicionário) será assinado hoje - no 405.º aniversário do nascimento do Padre António Vieira - entre a SCML e a UL às 15h30 no Instituto S. Pedro de Alcântara, em Lisboa, numa cerimónia com a presença do provedor da SCML, Pedro Santana Lopes, e do reitor da UL, António Sampaio da Nóvoa.

Os três primeiros volumes serão lançados já a 4 de Abril na Aula Magna da Reitoria da UL. O projecto prevê ainda a selecção de textos para uma edição de 300 páginas que será traduzida em oito línguas.

Há cinco anos que uma vasta equipa luso-brasileira começou a trabalhar na reunião e análise dos escritos do pregador jesuíta, projecto no qual estão envolvidos 30 especialistas na obra de António Vieira e na cultura portuguesa do século XVII, para além de 15 jovens bolseiros, mestres e doutores.

"Desde meados do século XIX que várias vezes se tentou reunir toda a obra do Padre António Vieira, mas nunca foi possível levar esse projecto até ao fim", conta ao PÚBLICO, Pedro Calafate, historiador, professor da UL e coordenador do projecto juntamente com José Eduardo Franco, historiador, ensaísta e poeta.

O problema é que estamos perante uma obra "muito vasta e nalguns aspectos relativamente fragmentada", porque Vieira "não era um académico fechado numa cela, era um homem virado para o mundo, para a acção". Alguns dos seus escritos fundamentais foram feitos "sob pressão do Tribunal do Santo Ofício, que o obrigava a explicar-se, a expor as suas teses", explica o historiador. É o caso da Defesa Perante o Santo Ofício, escrito no âmbito do processo que lhe foi movido pela Inquisição, e também do Livro Anteprimeiro da História do Futuro.

Não se partiu do zero

O trabalho inicial deste projecto foi o de localizar tudo o que se conhecia escrito por Vieira. "Não partimos do zero", sublinha Pedro Calafate. "Há uma parte substancial da obra que foi editada e objecto de crítica". Apesar disso, foi preciso "ir a Roma, a Paris, e sobretudo, regressar à Torre do Tombo", em Lisboa, um trabalho que permitiu, por exemplo, identificar cerca de 60 cartas inéditas, e acrescentar textos à História do Futuro.

Outra dificuldade: o original da A Chave dos Profetas, a obra à qual Vieira "atribuía maior importância", desapareceu e foi necessário cotejar as várias cópias para escolher aquela sobre a qual trabalhar. Além disso, muitos textos são manuscritos, nomeadamente as cartas, pelo que todo o trabalho implica "persistência e continuidade".

Num comunicado no qual explica a sua ligação a este projecto, a Santa Casa da Misericórdia lembra que tem a sua história ligada à Companhia de Jesus, e que desde 1768 tem a sede nas instalações da antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, onde se situam a Igreja e o Museu de São Roque.

É na Capela dos Jesuítas de São Roque que, em 1642, Vieira, já como pregador régio, "prega o célebre Sermão de São Roque, ilustrativo das relevantes missões políticas que lhe viriam a ser confiadas, do qual resultou a criação de duas Companhias de Comércio, uma destinada ao comércio das Índias e outra ao comércio do Brasil".