Vespa asiática chegou a Portugal e não deixa as abelhas sair das colmeias

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As abelhas (em cima) encontram-se em declínio mundial nos últimos 50 anos; agora em Portugal e Espanha têm também de enfrentar a chegada da vespa asiática (ao centro, numa fotografia de Miguel Maia). Em baixo, um dos ninhos construídos por esta vespa pedro cunha/Arquivo

Depois dos fungos, dos pesticidas, das alterações climáticas, da destruição dos habitats, eis que as abelhas, em declínio mundial, têm agora de lidar com outra ameaça: as vespas asiáticas. Em Portugal, a região entre o Minho e o Lima é a mais afectada por estas vespas, que constroem os ninhos no alto das árvores, muitas vezes escondidos debaixo das folhas. Têm sido destruídos com fogo

O que aconteceria se a sua casa estivesse a ser atacada e não pudesse sair para obter alimentos? A resposta é simples: morreria de fome (e também não iria trabalhar). É precisamente isto o que está a acontecer às abelhas. Morrem por falta de alimento e não produzem mel e as culpadas são as vespas asiáticas, vindas de Espanha e França. Em Portugal, está a apostar-se na destruição dos ninhos com fogo e armadilhas artesanais para minimizar o impacto na economia e na biodiversidade que este insecto predador pode causar.

O método de ataque da vespa asiática ou velutina (vespa velutina nigotorax) é simples e eficaz: esperam junto das colmeias que as abelhas cheguem carregadas de pólen, capturam-nas, cortam-lhes a cabeça, as patas e o ferrão e transportam-nas para os seus próprios ninhos que constroem no topo das árvores. Aí, comem-nas.

Em Portugal, os primeiros ataques terão ocorrido em 2011, quando foi capturado um exemplar desta espécie num apiário em Viana do Castelo. Segundo Miguel Maia, técnico da Associação Apícola Entre Minho e Lima (Apimil), foram detectados cerca de 40 ninhos na região do Alto Minho, 22 dos quais no concelho de Viana do Castelo. O técnico diz ainda que foram igualmente encontrados exemplares destas vespas em Ponte de Lima, Ponte da Barca, Caminha, Vila Nova de Cerveira, Barcelos e Vila Verde.

Os ninhos, com cerca de um metro de altura e 80 centímetros de largura, são maioritariamente construídos em árvores com uma altura superior a cinco metros, descrevem Miguel Maia e José Manuel Grosso Silva, este do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto, no artigo A Vespa velutina em Portugal continental e a apicultura nacional, na revista O Apicultor, em 2012.

Depois de França, onde terão chegado em 2004, as vespas invadiram Espanha e, agora, a entrada em Portugal não é surpresa para a Apimil. "Já sabíamos que isto ia acontecer. Com a globalização, os problemas também vêm para nós", comenta o presidente da Apimil, Alberto Dias, acrescentando que, em 2013, os casos deverão aumentar em quantidade e área.

Dentro de dez anos, admite Miguel Maia, é possível que a vespa asiática tenha colonizado toda a Península Ibérica e que, nessa altura, "vamos tropeçar nos ninhos". "O Norte de Portugal será provavelmente colonizado em poucos anos", diz também o entomólogo José Manuel Grosso Silva.

Não sendo possível erradicar a espécie, em parceria com a Protecção Civil de Viana do Castelo, a GNR, bombeiros, Direcção-Geral de Veterinária, Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte e Apimil prepararam "um combate coordenado à vespa", conta Miguel Maia. Este combate passou por recurso ao fogo autorizado pela GNR para destruir os ninhos que a Apimil referenciou geograficamente na sua área de actuação - Viana do Castelo -, tendo também alertado as autarquias do concelho para o problema. A prioridade é actuar nos "locais frequentados por muitas pessoas, particularmente por crianças, devido ao risco de picadas", explica o entomólogo do Cibio.

No final da semana passada, passou-se ao combate no terreno. "Os 20 e tal ninhos de Viana do Castelo já foram eliminados por fogo, pelos bombeiros", diz Alberto Dias. "Em Viana do Castelo já não devem existir ninhos oficialmente", refere ainda o presidente da Apimil, acrescentando que também se avançou com a destruição dos ninhos em Ponte de Lima, Ponte da Barca e Caminha.

Nos apiários, os produtores também recorreram ao uso de armadilhas artesanais com iscos como cerveja, vinho branco ou sardinhas, explica Miguel Maia. A função das armadilhas é capturar as vespas fundadoras dos ninhos, sendo colocadas entre Fevereiro e Maio, mas também servem para diminuir a predação sobre as abelhas e aí são utilizadas entre Setembro a Dezembro.

Nos últimos 50 anos, as abelhas, particularmente as produtoras de mel, estão em declínio mundial, sobretudo devido a infecções por fungos e ao uso de pesticidas. As alterações climáticas e a destruição dos habitats também não ajudaram. Na Europa, a situação agravou-se mais desde o final da década de 1990. As vespas podem não ser o seu maior inimigo, mas têm trazido consequências tanto para a biodiversidade, influenciando os ecossistemas, como do ponto de vista económico.

Por um lado, as vespas, na procura de proteínas, alimentam-se de abelhas. "São vespas predadoras com uma grande apetência pelas abelhas produtoras de mel, cujas colónias podem afectar seriamente ou mesmo destruir", explica o entomólogo do Cibio. As que não são devoradas pelos predadores sentem-se ameaçadas e ficam retidas nas colmeias e morrem de fome. Por outro lado, não fazem a polinização, comprometendo a produção de mel. No entanto, Miguel Maia diz que, até ao momento, não há em Portugal "relatos de destruição directa de colónias por parte desta vespa".

Mas não é só a produção de mel que é afectada por este problema. Alberto Dias conta que as vespas, à procura de frutose e glicose, danificam a fruta antes mesmo de ser colhida. Miguel Maia realça que a produção de azeitona também está em risco: "Reparámos que um número significativo de ninhos são construídos em oliveiras, o que impede ou dificulta o trabalho da recolha da azeitona." A azeitona, acrescenta, é apanhada em Novembro, quando a vespa asiática atinge o auge da sua actividade, "o que pode aumentar os custos na recolha da azeitona".

Da China à Península Ibérica

A vespa asiática é escura, com o tórax e o abdómen negros, excepto o quarto seguimento, que é amarelo. As rainhas chegam a medir 40 milímetros e os restantes exemplares são ligeiramente menores, alcançando os 30 milímetros. Se não se for alérgico ao seu veneno, não constituem perigo para os seres humanos. Por este motivo, o entomólogo espanhol Arturo Goldarazena, do Instituto Basco de Investigação e Desenvolvimento Agrário Neiker-Tecnalia, refere que não há razões para alarme. "Constroem os ninhos nas árvores, passando normalmente despercebidas debaixo das folhas. Por cada ninho que se vê, há dois que não se vêem", esclarece ao PÚBLICO.

Estima-se que esta espécie, cujo habitat natural é na China, Afeganistão, Indochina e Indonésia, tenha entrado na Europa alojada num carregamento de produtos hortícolas proveniente da China que desembarcou no porto de Bordéus, França, em 2004. Daí terá chegado à península por via terrestre, num carregamento de madeira. Em Espanha, a sua presença é mais forte do que em Portugal e regista-se sobretudo no País Basco. Com base em mapas de distribuição, os cientistas espanhóis estimam que, nos próximos dez anos, as vespas asiáticas tenham colonizado toda a Península Ibérica. Arturo Goldarazena diz que a única solução para o problema passa pelo desenvolvimento de feromonas sintéticas, substâncias químicas que, captadas por animais da mesma espécie, permitem o reconhecimento mútuo. A ideia é "saber qual é a feromona sintética" eficaz para atrair e capturar "maciçamente" a vespa asiática.

Não se conhecem dados estatísticos em relação à produção de mel afectada em Espanha, refere o entomólogo espanhol, lamentando que, uma vez chegada à Península Ibérica, a vespa asiática já não possa ser eliminada de vez: "Não se pode erradicar. É como uma doença que se controla com fármacos. Aqui controla-se destruindo os ninhos, mas o ideal era utilizar a feromona."

Agora que em Portugal se queimaram os ninhos identificados, o problema está momentaneamente resolvido, conclui Alberto Dias. "Vamos aguardar pela Primavera e ver o que acontece de novo. Assim já está toda a gente em alerta."