Espanha temum touro à solta

Rajoy falou finalmente sobre o escândalo. Disse que "é falso". Mas dizer isso neste caso não chega

AEspanha tem em mãos um problema tão imprevisível e brutal como um touro. A história que o El País tem vindo a contar nos últimos dias levanta a ponta de um icebergue capaz de destruir em simultâneo a credibilidade do Governo de Mariano Rajoy e a confiança dos cidadãos na própria democracia.

As revelações, simples e extraordinárias, pretendem provar que durante 11 anos o Partido Popular espanhol pagou, metodicamente, e a toda a cúpula do partido, um segundo salário informal, não incluído nas contas apresentadas ao fisco. Segundo os documentos desta contabilidade secreta e caseira - e registada com uma letra que peritos em caligrafia independentes dizem ser a do ex-tesoureiro do partido -, o actual primeiro-ministro recebeu centenas de milhares de euros não declarados ao longo de uma década. Além dele, presidentes e vice-presidentes do partido terão sido pagos da mesma forma - debaixo do tapete. A fonte do dinheiro serão empresas de construção civil, muitas das quais terão dado ao PP valores acima do que a lei do financiamento dos partidos permitia nessa época, 60 mil euros. Setenta por cento dessas empresas terão por isso violado a lei.

Ontem, Rajoy falou. Finalmente. Três dias depois de o escândalo ter rebentado - e com o país em estado de choque e a pedir a sua demissão -, o primeiro-ministro foi sereno e disse que as acusações são "falsas", que nunca recebeu dinheiro não declarado ao Tribunal de Contas, que o PP é feito de "pessoas honradas e íntegras", que tem muito orgulho em ser político e que ganhava mais dinheiro quando trabalhava no seu escritório de advocacia de registo predial. Rajoy é um homem fleumático. A sua pose imperturbável de ontem não surpreendeu. O primeiro-ministro não subiu o tom de voz, não tremeu, leu o discurso e saiu. Quando disse "é falso", não levantou sequer o dedo no ar como Bill Clinton fez há anos, para dizer, mentindo: "Eu não dormi com essa mulher." Este caso é incomparavelmente mais sério e Rajoy está encurralado como poucas vezes vimos acontecer a um líder europeu em décadas. Se está a dizer a verdade, não lhe basta dizer que é mentira. De nada servirá, aliás, publicar no site do Governo, como disse que vai fazer esta semana, as suas declarações de impostos. Por definição, os rendimentos secretos não são declarados ao Estado. Não se percebe quem pretende Rajoy tranquilizar com essa promessa. O ónus da prova está por isso invertido. Tem de ser Rajoy a provar que os documentos muito convincentes publicados pelo El País são falsos. Serão os documentos genuínos, mas criados e mantidos ao longo de anos para desviar fundos do partido para contas privadas do próprio tesoureiro, que tinha 22 milhões de euros numa conta privada na Suíça? Se, pelo contrário, Rajoy está a mentir, a Espanha não perdoará e a deslegitimação da política entra em processo acelerado. Em todo o caso, Rajoy já perdeu. Começou pelo silêncio e agora que falou prometeu a "máxima transparência" através de documentos que nada vão clarificar. Ou será que Rajoy nos reserva uma surpresa? O touro da corrupção está à solta e nada está a ser feito para o agarrar.