21 anos depois há novo disco dos My Bloody Valentine

O álbum soa a uma versão mais estranha dos discos antigos da banda. O interesse no regresso do grupo britânico agitou fãs na Internet.

A banda em 1992, após a saída de Loveless
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A banda em 1992, após a saída de Loveless Steve Jennings

Parece mentira mas não é: após alguns meses a insinuarem que desta vez sim, tinham disco novo, gravado, masterizado, pronto a sair, os My Bloody Valentine (MBV) surpreenderam meio mundo, no sábado, e sem que nada o fizesse esperar, cerca das 22h portuguesas, fizeram uma comunicação que não primava pela loquacidade na página de Facebook: “Estamos preparados para avançar com o novo álbum/website esta noite. Faremos um anúncio assim que possível”. Foi o suficiente para a net se agitar e deixar milhares em frente aos computadores, entregues a exercícios de semiótica: o que queria dizer Kevin Shields com “esta noite”?

Ao fim e ao cabo, só passaram 21 anos desde que os My Bloody Valentine editaram Loveless, o segundo e afinal não último disco. Na altura, Shields chegou mesmo a atirar um álbum completo e já gravado para o lixo porque “alguma coisa não estava lá”, sendo que depois, e nas suas palavras, o líder da banda enlouqueceu. Posteriormente a participação de Kevin Shieds a solo no filme Lost in Translation, de Sofia Coppola, (que incluía uma faixa da banda) reavivou o interesse.

Quando a meia-noite chegou sem que houvesse website (e, portanto, disco), os milhares de fãs que faziam F5 (a tecla que recarrega uma página web) com afã no Facebook da banda, começaram a lançar as mais díspares hipóteses: que Shields estaria a gozar com as pessoas; que os MBV estariam na Coreia e portanto “esta noite” ainda não tinha chegado ao fim; que Kevin Shields tinha abusado do pedal de “delay” (pedal que permite que cada nota tocada numa guitarra surja com um ligeiro atraso em relação ao momento em que essa nota é tocada; é este o tipo de piadas geek que os fãs dos MBV fazem).

Porque as pessoas têm de se entreter enquanto esperam, de imediato começaram a surgir votações sobre qual o disco mais adiado e aguardado de sempre; outros fãs entregaram-se a exercícios de júbilo declarando mbv – o imaginativo título do disco – o melhor disco do ano e o inesperado acontecimento “a melhor coisa que alguma vez me aconteceu”.

Cerca de três horas depois do primeiro anúncio chegou a boa nova: “O álbum está agora disponível em www.mybloodyvalentine.org”.

Foi – literalmente, visto só termos acesso ao que aos pessoas escreveram – a explosão de euforia dos mais pacientes fãs da pop dos últimos 21 anos. Só que não estava. Fosse pelos MBV terem apressado a feitura do site, fosse pelo imenso tráfego associado, durante muito tempo o link conduzia inevitavelmente à mensagem 403 – Error. E, pelo que se lia na net, começava a não haver mais unhas para os fãs roerem. Fãs que, por esta altura, voltavam a pôr a hipótese de Shields estar a gozar com toda a gente. Em particular quando surgiu o rumor de que o site demoraria dois ou três dias a estar no ar (ou num servidor capaz).

Mas não: F5 após F5 lá houve quem conseguisse comprar o disco – sem intermediários, sem lojas, directamente de um servidor fraquinho para um portátil catita. Escassos minutos depois de as primeiras compras terem sido efectuadas os links pirata espalhavam-se e multiplicavam-se.

E assim chegava ao fim uma das maiores sagas de adiamento de um disco da história da pop. De imediato começaram as proclamações de génio: enquanto estiverem sob o efeito da excitação, os fãs dos MBV irão continuar a afirmar o que afirmaram no sábado, que mbv é um disco genial.

Consequência caricata das novas tecnologias: parecia que estávamos a assistir a um relato de futebol e não ao lançamento de um disco, com os ouvintes a fazerem a descrição do que ouviam no momento em que ouviam. Igualmente caricato: o disco parecia estar a ser mais popular entre a secção dos ouvintes na casa dos 20 anos do que na dos 40.

mbv é, essencialmente, a sequência directa de Loveless: guitarras apinhadas de reverberação e distorção, linhas melódicas ensimesmadas que andam ao redor de si mesmas. Há, talvez, uma menor saturação de ruído, as melodias são menos acessíveis e ainda mais estranhas do que as de Loveless. Consensual parece ser, para já, a ideia de que é no fim que o disco se torna soberbo, com Nothing is e Wonder 2.

Há 21 anos Brian Eno dizia que em Loveless se encontravam algumas das mais vagas grandes canções pop alguma vez escritas. Pode muito bem ter estado a repetir a frase no sábado à noite, após muito premir a tecla F5 do laptop.