BlackBerry reinventado num lançamento crucial

Uma nova versão do sistema operativo, dois novos modelos, uma mudança no nome da empresa, muitas aplicações e a cantora Alicia Keys – a multinacional canadiana que tem vindo a perder mercado para o iPhone e os Android pôs os trunfos todos na mesa.

Os dois novos modelos, nas mãos do director geral, Thorsten Heins
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Os dois novos modelos, nas mãos do director geral, Thorsten Heins Timothy A. Clary/AFP

Nesta quarta-feira, e após sucessivos adiamentos, foram apresentados dois novos modelos de BlackBerry: o Z10, um smartphone com um ecrã sensível ao toque, e o Q10, que mantém o teclado físico que tem sido a imagem de marca destes telemóveis. Ambos estão equipados com o BlackBerry 10, uma nova versão do sistema operativo, que inclui um browser melhorado e, contrariando a tradição da plataforma, chega ao mercado com uma gama vasta de aplicações.

O director-geral da empresa canadiana, Thorsten Heins, anunciou ainda que o nome da empresa, Research In Motion (frequentemente escrito apenas RIM), foi abandonado em favor de BlackBerry, já que a marca dos telemóveis era muito mais conhecida do que o nome da empresa que os fabrica. O objectivo, explicou, é consolidar esforços em torno de apenas uma marca. “Temos estado numa viagem de transformação”, afirmou Heins, “uma viagem não apenas para transformar o nosso negócio e a nossa marca, mas uma viagem que acredito verdadeiramente que transformará as comunicações móveis em verdadeira computação móvel”.

Para a companhia, as novidades agora apresentadas são cruciais. A empresa tem perdido quota de mercado para os múltiplos Android e para o iPhone, especialmente na América do Norte, em tempos o território em que era mais forte e onde no final do ano passado tinha pouco mais de 1% do mercado de smartphones. Na Europa os números também têm caído. De acordo com a analista IDC, a quota global de mercado era, em 2012, de 4,6%, uma queda abrupta  de 36,4% face ao ano anterior.

Para o novo sistema estão já disponíveis algumas das mais populares aplicações móveis: o Kindle, da Amazon, o Skype, o jogo Angry Birds e o WhatsApp, uma aplicação que permite o envio grátis de mensagens através da Internet. Ao todo, são 70 mil aplicações disponíveis para o BlackBerry 10, muito menos do que as centenas de milhares existentes para Android e iPhone, mas um esforço claro de apagar a imagem dos BlackBerry como telemóveis com um leque muito reduzido de aplicações disponíveis.

Na apresentação, em Nova Iorque, a cantora americana Alicia Keys subiu ao palco como a nova directora criativa global. Inevitavelmente, blogues e media notaram quase imediatamente que a artista usou até há poucos dias um iPhone para escrever no Twitter.

“Este é o Dia D para a Research in Motion”, escreveu o analista da IDC para o mercado europeu, Francisco Jerónimo, numa nota depois do evento. “A empresa não tem mais grandes opções; se não for bem-sucedida com a nova plataforma, não há alternativas no lado do hardware ou do software. O futuro estará então dependente de uma nova estratégia corporativa, desde alianças estratégicas a licenciamentos”, observou, notando que a multinacional canadiana não tem, devido aos custos e ao tempo necessário, hipótese de adoptar um outro sistema operativo. “Não há plano B possível”.

Francisco Jerónimo elogia os novos modelos lançados – destacando o novo browser e a “jóia da coroa”, o novo teclado virtual do Z10 – e afirma que a nova interface de utilização está ao nível dos Android e do iPhone. Mas prevê mais sucesso junto do segmento empresarial, um mercado historicamente crucial para os BlackBerry, do que junto dos consumidores generalistas.

Já o reputado colunista de tecnologia do Wall Street Journal Walter Mossberg fez uma crítica genericamente positiva aos dois aparelhos, classificando o teclado do Z10 como o melhor teclado virtual pré-instalado num telemóvel. Mas notou a ausência de um sistema próprio de armazenamento online de ficheiros, como oferecem os rivais, com a iCloud, da Apple, e a Google Drive.

O site americano CNet analisou o novo sistema para concluir que “os amantes de BlackBerry que conseguirem passar pelos erros de principiante [devido a um sistema completamente redesenhado] vão encontrar um sistema operativo polido, que está recheado de funcionalidades interessantes e úteis, mas os utilizadores de Android e iOS que estiverem satisfeitos não vão encontrar uma razão para mudar.”

Os investidores não ficaram convencidos com a apresentação. À hora de publicação deste artigo, as acções da empresa resvalavam cerca de 6,3%, para perto dos 14,7 dólares no Nasdaq (este índice caía apenas 0,07%). Na Bolsa de Toronto, a cotação caía 7,2%, para os 14,6 dólares canadianos.