O tempo voltou para trás

Num momento em que tanto se fala da crise da cultura, é uma péssima notícia saber que Portugal vai perder salas de cinema. Oito complexos, num total de 49 écrãs, geridos pela Socorama-Castello-Lopes Cinemas, todos eles localizados em zonas suburbanas ou regionais - com os Açores e Viana do Castelo a ficarem sem exibição comercial e as restantes localidades afectadas a verem a oferta substancialmente reduzida. Há 30 anos, queixávamo-nos que os filmes não chegavam à província ou que lá chegavam com grande atraso - e não apenas por ausência de salas em condições; hoje, corremos o risco de nos queixarmos do mesmo, e exactamente pelas mesmas razões. Como se, apesar dos multiplexes, do digital, do DVD, da Internet, da possibilidade teórica de aceder a mais cinema do que em qualquer momento da História, a exibição e distribuição de cinema em Portugal tivesse dado uma volta sobre si própria para voltar onde estava há 30 anos.

Gerir e programar um cinema não é uma obra de beneficência, há que dizê-lo. É um negócio, sempre o foi, e não vamos agora estar a romantizar. Mas um negócio tanto melhor resulta quanto mais estiver atento às circunstâncias em que funciona, e a exibição e a distribuição portuguesas já há muito tempo que estão a pagar o preço de decisões tomadas em tempos em que nunca se pensava que a crise iria chegar. Não duvido que exista público para ir ao cinema nos Açores ou em Viana do Castelo; mas alguém pensou de que modo as salas que agora fecham respondiam a necessidades locais específicas, ou se estavam dimensionadas para o público que realmente existia?

E nas salas do Seixal ou de Leiria que fecham agora, a programação diferenciava-se o suficiente das salas concorrentes na mesma região para justificar a sua manutenção?

Dispor de salas de cinema quer dizer ter apenas acesso às grandes produções de Hollywood, ou quer dizer ter acesso a todo o tipo de cinema (coisa que já nem na televisão temos)? A variedade é a chave da saúde dos ecossistemas; mas o ecossistema cinematográfico português já há muito que está deficiente por ausência de alternativas (de produção, de financiamento, de exibição, de distribuição).

Num país em crise económica onde uma visita ao cinema em família já deixou de ser uma ocasião regular; num país onde a proliferação dos DVD baratos, oferecidos ou vendidos com jornais, desvalorizou o objecto-filme como coisa descartável; num país onde a cultura é tratada como uma linha minoritária numa folha de cálculo de economistas, perder de uma assentada 50 ecrãs de cinema é dramático. Mas não é, infelizmente, surpreendente: a exibição e a distribuição de cinema em Portugal, com raríssimas excepções, são actividades puramente economicistas, levando mais em conta o impacto financeiro nas contas empresariais do que o impacto cultural a médio e longo prazo do acesso ao cinema no grande écrã. E um encerramento como este é mais um prego no caixão do cinema em Portugal, martelado pela redução da cultura a uma questão puramente monetária. Foi assim que deixámos que o Monumental fosse abaixo e que o Império se transformasse em igreja e que perdemos tantas salas de província. 30 anos depois, é isso que está a acontecer. Outra vez.