Jaime Neves, o anti-herói da revolução

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CARLOS LOPES

Se Otelo era o herói da revolução, Jaime Neves, que morreu domingo, aos 77 anos, era o seu anti-herói. O seu papel no 25 de Novembro foi decisivo

Faltavam dez minutos para as oito horas da manhã do dia 26 de Novembro de 1975, Jaime Neves, à frente de uma força de comandos, subia a Calçada da Ajuda, a caminho do Regimento da Polícia Militar. Já todas as outras unidades controladas pela esquerda se tinham rendido.

O Regimento da PM era comandado por uma troika - Campos Andrada, Cuco Rosa e Mário Tomé (hoje elemento destacado do Bloco de Esquerda). Vasco Lourenço, que comandava a Região Militar de Lisboa, esteve praticamente toda a noite ao telefone com eles, tentando obter a rendição. Mas Campos Andrada adiava. Dizia que precisava de fazer mais reuniões plenárias com os seus homens. Vasco Lourenço tinha pedido um prazo a Ramalho Eanes, que comandava as operações da base da Amadora. Se até às 8 da manhã a PM não se rendesse, Jaime Neves podia atacar.

O golpe do 25 de Novembro estava quase concluído. Terminava o Processo Revolucionário em Curso (PREC), o domínio dos comunistas, da extrema-esquerda e dos adeptos do poder popular, para se entrar na fase democrática. Era o clímax de um confronto surdo entre dois blocos cada vez mais antagónicos. O país estava dividido, temia-se o eclodir da guerra civil. Os líderes dos partidos moderados (PS, PPD, CDS) tinham fugido para o Porto, na iminência da declaração de uma "comuna de Lisboa".

Os pára-quedistas, afectos à esquerda, tinham ocupado as bases aéreas, o que provocou a reacção do lado oposto: o chamado Grupo dos Nove activou o seu plano de operações, há muito delineado. Vasco Lourenço fora nomeado líder, mas estava a ser ultrapassado por Ramalho Eanes, que comandava o chamado Grupo Militar. Jaime Neves, chefe do Regimento de Comandos, era o líder operacional.

Na PM, não se sabe se por orgulho, se por dificuldade em controlar os elementos mais radicais, se por falta de conhecimento da verdadeira correlação de forças, a troika tarda em render-se. Sabiam que o prazo terminava às 8 da manhã e, num gesto de desafio, marcaram uma reunião geral precisamente para essa hora. O realismo venceu no último minuto, mas talvez já fosse tarde.

Campos Andrada, sempre ao telefone com Vasco Lourenço, comunicou-lhe que se rendiam. Aceitava a ordem de se apresentar no Palácio de Belém, na condição de que nem ele nem nenhum dos seus oficiais seriam presos.

Vasco tentou telefonar a Eanes. A linha estava ocupada. Quando conseguiu contactá-lo, via rádio, ouviu o outro dizer: "Tarde de mais. Já partiram. E não tenho contacto de rádio com o Jaime Neves".

"Começou a borrasca"

Vasco Lourenço pediu então a Galamba de Castro que corresse ao portão da Calçada da Ajuda, para deter o líder dos comandos. Consegue alcançá-lo e comunicar-lhe que a PM se rendeu. Mas Jaime Neves respondeu que só uma contra-ordem directa de Eanes, o seu elo na cadeia de comando, o faria parar.

O próprio Jaime Neves relataria mais tarde que assim foi, numa entrevista ao jornalista Silva Tavares, na presença de Pires Veloso, comandante da Região Militar do Norte: "Quando subi a Calçada da Ajuda, lembro-me, eram 8 horas menos um quarto, aparece-me do lado esquerdo um gajo chamado Galamba, a gritar: "Ó Neves! Parece que a PM quer render-se". Só lhe disse: "É muito simples, pá. Eu tenho a rede base, eu não posso suspender isto, o meu comando da Amadora tem de dar ordens"".

Segundo Vasco Lourenço, Neves terá ainda gritado a Galamba: "Começou a borrasca. Nada a fazer". O tiroteio tinha de facto começado, da parte do grupo de comandos que atacava o quartel pelo lado norte.

Ao telefone com Vasco Lourenço, Campos Andrada gritava que estava a ser atacado. Vasco voltou a tentar a ligação com Eanes, que acabaria por conseguir falar com Jaime Neves. Mas o combate tinha começado. Os dois lados dispararam a matar. Na rua, grupos de civis armados foram vistos a disparar metralhadoras contra os comandos. Estes começaram a trepar os muros do quartel. Jaime Neves, com um blindado Chaimite, arrombou o portão da unidade.

E só nesse momento Campos Andrada e os seus homens, obedecendo a ordens de Vasco Lourenço, se apresentaram desarmados na parada, em sinal de rendição. O tiroteio foi interrompido, mas já tinham morrido três homens, dois do lado dos comandos, um da Polícia Militar. Foi um dos momentos de maior violência de todo o processo revolucionário. E também um dos mais controversos, porque se disse que Jaime Neves sabia da decisão da PM de se render, e nem por isso interrompeu o ataque.

Em entrevistas concedidas mais tarde, o líder dos comandos defendeu-se dizendo que eram os seus homens que pediam sangue. Difícil para ele foi fazê-los parar. Estavam de armas na mão e lágrimas nos olhos, contou Jaime Neves, querendo matar centenas de adversários. "Queria ver quantos conseguiriam travar isto", disse depois Neves.

Mas também é sabido que, depois da vitória do 25 de Novembro, Jaime Neves foi pedir ao Presidente da República, Costa Gomes, mais "sangue". Queria que todos os líderes da esquerda militar fossem presos ou mesmo (segundo alguns testemunhos), executados, que o Partido Comunista, todos os partidos da extrema esquerda e a Intersindical fossem ilegalizados.

Costa Gomes disse mais tarde considerar Jaime Neves, "um belíssimo oficial", com "qualidades militares excelentes", mas "demasiado violento" na actuação. "Na minha opinião, ele não tem uma preparação cívica que permita controlar essa violência".

A construção da lenda

Essa fama vem-lhe de longe. À frente de uma companhia em Moçambique, durante a guerra colonial, tornou-se conhecido pela extrema competência militar, mas também pela violência. É um atributo que sempre o acompanhou, a par de um outro: o de boémio. Que mais era preciso para formar uma lenda?

Houve várias, durante o processo revolucionário. Otelo foi uma, Salgueiro Maia outra. Jaime Neves não o foi menos, ainda que de sinal contrário. Se Salgueiro Maia foi o herói da revolução, Jaime Neves foi o anti-herói.

Na própria operação de derrube do regime, em 25 de Abril de 1974, o seu papel foi dúbio. Otelo, ciente da sua destreza militar, incumbiu-o de várias operações. Uma delas, a de tomar as instalações da PIDE, foi logo recusada, por "ser demasiado perigosa", segundo o testemunho de Otelo. As outras consistiam em, com dez grupos de comandos, prender cinco oficiais comandantes de unidades afectas ao regime. Das cinco missões, só uma foi cumprida com êxito.

O fracasso em deter os comandantes do Regimento de Cavalaria 7 e o de Lanceiros 2 viria a permitir que estas unidades reagissem militarmente às forças comandadas por Salgueiro Maia. Só por milagre os resultantes episódios do Terreiro do Paço e da Rua do Arsenal não redundaram em violência.

Segundo Otelo e vários capitães de Abril, o fiasco de Jaime Neves teve uma explicação: ele passou quase toda a noite de 24 para 25 de Abril na boite Maxime, como era seu hábito.

Talvez isto não passe de mais um elemento da lenda. Noutra pessoa, esta história poderia ter contribuído para humanizar a sua imagem. No caso de Jaime Neves era o contrário: acrescentava verosimilhança à personagem de vilão e de traidor, aos olhos de uns, ou de pragmático e desapaixonado aos olhos de outros.

Todos os mitos têm duas faces, e no de Jaime Neves elas brilhavam com igual intensidade. No imaginário da esquerda, era a figura sinistra, o reaccionário violento e sem escrúpulos, ligado de modo ilegal e inconfessável aos sectores da extrema-direita e do fascismo.

Na perspectiva da direita era uma espécie de salvador. Um tipo corajoso e sem papas na língua, demasiado louco para que se pudesse confiar nele, mas suficientemente eficaz para que pudesse ser usado.

Foi o que fizeram quando, a 25 de Novembro, era necessário inflectir o curso da revolução. A extrema-esquerda tinha ido longe de mais. Caminhava-se a passos largos para um regime totalitário, os resultados eleitorais não eram respeitados, os militares dominavam a política, a economia arruinava-se.

Havia um consenso entre todas as forças moderadas, democráticas, da direita, mas também da esquerda não radical, de que era preciso fazer outra revolução, para repor os ideais da primeira.

Do lado da esquerda revolucionária só havia um homem com credibilidade suficiente para ter unido todas as forças: Otelo. Do lado dos moderados só uma figura tinha a força operacional suficiente para neutralizar todas as unidades que resistissem: Jaime Neves.

Otelo teve a intuição de que se aproximava uma guerra e afastou-se. Desistiu. Para muitos, traiu. Jaime Neves não vacilou. Sem a eficácia dos seus comandos, o 25 de Novembro não teria vencido. Todos o reconhecem. Mesmo os que, como Costa Gomes, Melo Antunes, Vasco Lourenço ou Sousa e Castro, o consideravam "um bruto".

Provavelmente era essa falta de consistência política (alguns dizem consistência intelectual) que fazia dele um homem de confiança. O próprio Otelo o salvou quando, em Julho de 1975, uma conspiração do Partido Comunista o tentou destituir da direcção do Regimento de Comandos. Um grupo de oficiais tomou conta do quartel e impediram a entrada a Jaime Neves.

No dia seguinte, foi convocado um plenário dos comandos. Otelo tinha discutido a situação com Vasco Lourenço, o Presidente Costa Gomes e o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves. Consideraram que o afastamento de Jaime Neves era demasiado perigoso. No plenário, Otelo sentou-se na mesa, ao lado de Jaime Neves, e explicou aos oficiais sublevados que o seu comandante teria de ser readmitido.

Foi como se adivinhassem que lhe estava reservado para um dia mais tarde, a ele, Jaime Neves, o papel de os pôr na ordem, quando o processo revolucionário os tivesse levado a excessos inaceitáveis.

Jaime Neves foi o herói do 25 de Novembro. Talvez tivesse sonhado a vitória para outros, mais à direita, mas a verdade é que ficou do lado dos vencedores. Muito mais tarde, em 2009, foi promovido a major-general, o que não aconteceu a Otelo, nem a Vasco Lourenço, nem a nenhum dos líderes do 25 de Abril.