A independência angolana em seis nomes no Museu Berardo

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Série Tipo Pass, de Edson Chagas, de 2012É com estas fotografias de Kiluanji Kia Henda que entramos na exposiçãoO painel de Yonamine composto com recortes de jornais angolanos Fotos: daniel rocha

A exposição No Fly Zone, que hoje inaugura, reúne no Museu Berardo, em Lisboa, obras de seis artistas angolanos. A geração nascida na altura da independência, com um dos pioneiros

Houve um tempo em que as praças de Luanda estavam decoradas com estátuas de grandes figuras da História portuguesa. E, depois, com a independência de Angola, chegou o tempo em que essas figuras foram descidas e os pedestais deixados vazios. D. Afonso Henriques, Vasco da Gama e Camões encontraram-se então na antiga Fortaleza de S. Miguel, à mistura com réplicas de antigos canhões, carros de assalto e jipes russos. E lá ficaram reunidos. Até, há pouco tempo, uma representação da rainha Ginga - D. Ana de Sousa ou Nzinga Mbandi Ngola - se lhes ter juntado por algum tempo, para restauro.

A Fortaleza de S. Miguel foi mandada erguer em 1575 pelo governador Paulo Dias de Novais, fundador da cidade. Ficou terminada em 1627 e foi a primeira estrutura defensiva de Luanda. Um marco da reconquista da região pelos portugueses no século XVII, quando a rainha Ginga se tornou num dos grandes emblemas da luta contra o colonialismo e o esclavagismo. Foi nesta fortaleza que os portugueses aprisionaram uma das suas irmãs. E, por algum tempo, recentemente, lá esteve Nzinga, em pé, descalça, muito direita ao lado de um jipe russo e a olhar fixamente para D. Afonso Henriques, que, por detrás, tem uma série de canhões. Um encontro entre tempos, mundos e ordens que o artista angolano Kiluanji Kia Henda (n. 1979) fotografou e de que partiu para o projecto Homem Novo (2011-2012).

A expressão vem do hino de Angola, o início do forjar de uma nova identidade nacional que, agora, quase 40 anos depois, não está ainda completamente sedimentada e cujo sonho o artista materializou numa segunda parte do projecto quando, numa série de performances cidade fora, fez outros artistas angolanos ocupar os pedestais vazios da antiga estatuária.

Em vez de Afonso Henriques, o poeta Shunnuz Fiel; em vez de Paulo Dias de Novais, o designer Didi Fernandes; e o performer Miguel Prince, em vez de Pedro Alexandrino da Cunha, governador de Angola no século XIX. É com estas fotografias que entramos na exposição No Fly Zone, que hoje inaugura no Museu Berardo, em Lisboa.

Kiluanji Kia Henda (n. 1979), Edson Chagas (n. 1977), Binelde Hyrcan (n. 1983), Nástio Mosquito (n. 1985) e Yonamine (n. 1975 e representado em Lisboa pela Galeria Cristina Guerra) representam as gerações que já não viveram o colonialismo. Paulo Kapela (n. 1947) junta-se-lhes como pioneiro de algumas das linguagens e posicionamentos que viriam a assumir e desenvolver.

Um caos organizado de símbolos religiosos, sociais e políticos, linguagens pictóricas, rostos de figuras públicas com rostos de anónimos e do próprio artista: há quem defenda que o princípio dos altares e painéis de Kapela reside na filosofia umbundo, uma filosofia ligada à capacidade de aceitação; mas também há quem veja nas suas obras a mesma amálgama de experiências e tempos que marcaram a História angolana no século XX.

Na exposição do Museu Berardo, uma dessas intervenções de Kapela encontra-se frente a frente com um grande painel de Yonamine composto a partir de recortes de vários jornais angolanos da década de 1970.

Os comissários da exposição chamam "hiperpresente" a esta realidade composta em que, no mesmo plano, se cruzam notícias de infiltrações na África Austral de especialistas da CIA e da BOSS, os serviços secretos sul-africanos, com anúncios de sessões de filmes como L"Emmerdeur/O Chato (1973), com Lino Ventura e Jacques Brel, e imagens da "velha guarda do MPLA", o Movimento Popular de Libertação de Angola, de Agostinho Neto, reunida para uma partida de futebol no Estádio dos Coqueiros de Luanda, com José Eduardo dos Santos, Saydi Mingas e Juju, o pai do escritor Ondjaki, entre os jogadores.

Também de Yonamine, há uma instalação vídeo feito durante uma residência artística em Bayreuth, a pequena cidade alemã onde Wagner viveu os últimos anos da sua vida e onde, até hoje, a sua família, ligada ao III Reich, celebra o conhecido festival de ópera - entre outros elementos, Yonamine filmou um jovem DJ alemão branco a falar da forma como se sentiu vítima de racismo na Áustria; por detrás dele surgem os braços de um jovem negro, como uma assombração da História.

Mas não é necessariamente o passado que está aqui em foco. A exposição "é uma maneira de reflectir sobre o futuro, sobre um tempo e um espaço que andamos a tentar criar há anos", diz Fernando Alvim, artista plástico angolano e um dos comissários da mostra, com Suzana Sousa.

Pedro Lapa, director artístico do museu, refere a importância de "criar plataformas diferentes de troca e relação com outras culturas, que não as da Europa e Estados Unidos": "Nós, portugueses, estamos bem habilitados para o fazer, mas não o temos feito."

Lapa aponta como na história da arte portuguesa do século XX Joaquim Rodrigo mostrou "uma consciência plena" dessas relações, mas como, até meados dos anos 1990, depois dele, "só uma artista - Ângela Ferreira - fez um trabalho de reflexão sobre essas questões e interrogação sobre o passado colonial e a sua presença na sociedade portuguesa contemporânea".

"É absolutamente fundamental que essas questões sejam redefinidas", sublinha.

Algumas das obras da exposição estão no museu a empréstimo da Fundação Sindika Dokolo, a fundação de Sindika Nokolo, marido de Isabel dos Santos e tido como um dos, se não o mais importante, coleccionadores de arte contemporânea em África - a sua colecção, iniciada em 2003, terá à volta de 3600 obras, a maior parte das quais de artistas africanos ou de origem africana, entre os quais nomes hoje tão reconhecidos nos circuitos internacionais como William Kentridge, Marlene Dumas, Kara Walker, Loulou Cherinet ou Chris Ofili.