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Crítica de Teatro: Quatro frágeis hipóteses de reflexão sobre a economia narrativa

Diagonais, interpretada por Cátia Terrinca e Francisco Sousa, que assinam o espectáculo com Ricardo Boléo
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Diagonais, interpretada por Cátia Terrinca e Francisco Sousa, que assinam o espectáculo com Ricardo Boléo Sara Vicente

Teatro Rápido. Bolas de Neve, de Bernardo Gomes de Almeida (1 estrela); Professor Roberto, de Rafael Dias Costa (1 estrela) Pode beijar a noiva (1 estrela), de Tiago Torres da Silva (1 estrela) Diagonais, de Cátia terrinca, Francisco Sousa e Ricardo Boléo (2 estrelas). 28 Janeiro, entre as 18h e as 20h25. Até dia 31.

Num país onde há um défice de encenação de textos novos, e mais ainda de publicação, um projecto como o Teatro Rápido tem méritos assinaláveis que, contudo, não devem ser confundidos com os resultados conseguidos.

A ideia de que se podem escrever textos, por princípio curtos, implica uma sagacidade na gerência dos tempos narrativos e uma atenção particular à tipificação das personagens que exige aos autores e encenadores uma clareza dramatúrgica que o modelo em si mesmo parece contrariar.

As quatro peças que este mês se apresentam no Teatro Rápido, enquadradas no tema genérico Promessas, revelam, precisamente as dificuldades de um modelo experimental mas, ao mesmo tempo, o potencial do projecto. Revelam ainda como este dispositivo dramatúrgico pode ampliar mecanismos de manipulação da relação entre o espectador e o objecto, através de uma calculada empatia que aproveita a brevidade da peça, a proximidade com os actores, a acumulação de espectáculos e os reduzidos meios para compensar uma elaboração mais consistente que permita aos espectáculos sobreviver a si mesmos.

O exemplo de Pode beijar a noiva de Tiago Torres da Silva (texto e encenação) é, nesse sentido, exemplar no modo como se aproveita de uma disponibilidade do espectador para aceitar os imperativos condicionantes do modelo de teatro rápido e manipular essa disponibilidade com uma retórica cénica a todos os níveis lamentável. Aproveitando uma evidente dimensão de confronto e exposição, aproveita o desnorte de uma mulher que projecta na perda da aliança de casamento a sua raiva contra o mundo (interpretação de Maria Carson) para envolver, e subjugar os espectadores a uma culpa que não lhes pertence. A quem assiste é pedido que, imperiosamente, use a lanterna fornecida à entrada e a aponte à actriz que acaba por acusar os espectadores de um voyeurismo e aproveitamento da sua dor. É de tal forma ostensivo este dispositivo cénico que faz perder, por entre um histrionismo da interpretação e uma circularidade do texto, o potencial de reflexão sobre o modo como pequenas falhas no quotidiano podem fazer mergulhar o mais anónimo dos cidadãos numa revolta contra o mundo.

Outros dois espectáculos, Bolas de Neve, de Susana Romana (texto) e Bernardo Gomes de Almeida (encenação), e Professor Roberto, de Rafael Dias Costa (texto) e Susana Vitorino (encenação), revelam, por seu lado, a dificuldade de gerência do tempo e da narrativa. Ambos os espectáculos, com vantagem positiva para Bolas de Neve, surgem como excertos de espectáculos maiores, ou a pedir um desenvolvimento maior. No caso de Bolas de neves, uma mulher é sujeita a um interrogatório sem que seja esclarecido como ali chegou ou de que modo, em quinze minutos, vai ser possível explorar as cambiantes de um jogo de manipulação e sedução entre vítima e executor. Aqui, o mesmo dispositivo de observação de Pode beijar a noiva, tenta envolver o espectador, com o interrogador (Ricardo Sá) a dirigir-se à vítima (Ana Varela), na maior parte das vezes, por entre o público, sugerindo que o espectador possa ser, ao mesmo tempo, a vítima, dada a proximidade, e o interrogador, por a sua voz surgir, para a vítima, do mesmo lugar onde os espectadores se encontram. A brevidade da peça não permite mais do que uma exposição sumária e limitada das razões do cárcere, impedindo mesmo que possa ser criada, como é corrente em argumentos semelhantes, uma hesitação na identificação com as duas personagens.

Já em Professor Roberto, o jogo masoquista entre um sádico professor (Rafael Dias Costa) e a sua aluna (Sofia Helena) nunca vai mais longe do que uma dimensão anedótica, muito por culpa de um dispositivo que copia as mais simplistas narrativas, sujeitando os actores a um jogo mimético insustentável. O esforço para controlar a deriva dramatúrgica não impede que o embaraço surja e esconda o esforço de credibilidade que os actores emprestam ao texto.

A relativa surpresa será Diagonais, de Cátia Terrinca, Francisco Sousa e Ricardo Boléo (texto, criação e espaço cénico), que, apesar de uma sobrecarga poética num texto sobre um casal em desencontro emocional, ainda assim conseguem estabelecer, por projecção directa, com o espectador, uma relação de confiança e disponibilidade. É verdade que, também aqui, o texto, reconhecendo que não atingirá um grau de clareza e exposição, se torna redondo, muito por força de uma poetização das frases, sublinhas, aliás, por um movimento evidente. Mas a errância do casal não se distancia, em grande medida, do que têm sido experimentações dramatúrgicas ao nível da escrita de palco, ecoando, curiosamente, um texto de Pascal Rambert, Clôture d’Amour, também sobre um casal que se procura mas que vive demasiado preso numa idealização para se poder aproximar.

Em resumo, torna-se evidente nos quatro casos que a sujeição dos textos às condições de apresentação faz perder o que de melhor poderiam ter, precisamente uma atenção à economia narrativa, uma inteligência na gestão da presença física e uma recusa de projecção do que possa existir para lá do que está a ser mostrado. A vontade de fazer, se meritória, oculta elementos como estes, fazendo cair por terra uma experimentação que seria, a vários níveis, útil para um desenvolvimento de uma relação entre o texto e a sua apresentação.

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