A oportunidade do radiotelescópio SKA

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As grandes infra-estruturas de investigação da chamada "Big Science" são reconhecidas pelo seu grande impacto na investigação fundamental: o Laboratório Europeu de Partículas (CERN) ou a Agência Espacial Europeia são mundialmente conhecidos. Um ponto que não é tão imediatamente reconhecido é o impacto que estas estruturas têm na inovação e na indústria. Qualquer uma delas requer uma componente industrial forte e promove inovações que beneficiam toda a sociedade. Um exemplo é o caso do HTML, peça essencial da Internet de hoje, que foi desenvolvido no CERN como uma resposta da indústria a um problema dos físicos.

A importância da indústria na concretização da ciência é assim hoje amplamente valorizada nas políticas públicas de apoio à investigação, inovação e competitividade. Na Europa, foi lançado um roadmap para grandes infra-estruturas de ciência, transversal a todas as áreas do conhecimento, e que tem vindo a ser delineado numa lógica coerente de faseamento ao longo dos anos, tendo concluído a concepção (2002-2006) e as fases preparatórias (2007-2013). Estamos a chegar à fase de construção e operação, que acontecerá com fundos do programa europeu Horizonte 2020 (2014-2020). Esta fase vai requerer uma mobilização das capacidades tecnológicas europeias, contando por definição com forte envolvimento industrial, ambicionando uma melhoria da competitividade, inovação de produtos, recuperação económica e criação de emprego.

Portugal tem pouca tradição nas grandes infra-estruturas de investigação, mantendo uma separação entre a ciência e a engenharia que não tem correspondência nas grandes potências europeias. Esta separação justifica a tradição de fraca participação nas primeiras fases de desenvolvimento dessas infra-estruturas, adoptando Portugal uma atitude expectante. Isto traduz-se na ausência (de análise) de impacto para a indústria nacional, sendo a participação portuguesa vista numa lógica do número de utilizadores científicos finais e de eventual prestígio internacional, com tardio desenvolvimento tecnológico/industrial e consequente menor retorno económico. O resultado desta abordagem é frequentemente uma política centrada em preocupações de imagem, avaliada através de concretização de quotas mínimas de esforço nacional.

Portugal tem uma oportunidade de mudar este seu paradigma de desenvolvimento científico com o projecto Square Kilometer Array (SKA). Grande infra-estrutura global, considerado o futuro da radioastronomia no século XXI, este radiotelescópio será uma rede digital de sensores, interligando antenas e centros de supercomputação. Será uma infra-estrutura espalhada por África e Austrália que coloca desafios quer às tecnologias de informação e computação, ou TIC, (produzindo um tráfego de dados muitas vezes maior do que o da Internet), quer à inclusão de energias renováveis (como a solar), no que será uma imensa máquina com 3000 quilómetros de extensão decifrando o Universo. Conta com a participação de cientistas e engenheiros de mais de 50 instituições em 19 países, Portugal incluído.

Desde o início, tendo como fio condutor a discussão de políticas públicas de apoio à investigação, inovação e competitividade no Horizonte 2020, o SKA tem procurado o envolvimento da indústria de ponta. Os grandes parceiros internacionais com tradição na área colocaram desde cedo equipas de acompanhamento científico-tecnológico, para maximizar a sustentabilidade e o geo-retorno do investimento. Têm assim desenvolvido consórcios regionais com ligação empresarial global (por exemplo, a IBM e a Nokia-Siemens) e local (pequenas e médias empresas), ancorados nas linhas mestras dos programas europeus de TIC, energia e Galileu.

Portugal, apesar da sua pequena dimensão nesta área, foi capaz de explorar a sua localização e as suas capacidades na engenharia para conquistar um local de teste experimental do SKA para Moura, no Alentejo. Tal foi conseguido explorando as sinergias proporcionadas por um instituto com valências nas TIC, o apoio de pólos de competitividade e a sua ligação a empresas globais (Nokia-Siemens), e fazendo a ponte com empresas portuguesas na área da energia solar (Martifer Solar e Lógica EM). Este processo, ainda em construção, tem tido visibilidade nas instituições europeias (Parlamento e Comissão) e impacto nas parcerias União Europeia-África, promovendo em particular um maior envolvimento português nas estratégias europeias de cooperação e desenvolvimento com África.

Estão assim reunidas condições de cooperação entre ciência, engenharia e empresas, capazes de gerar um geo-retorno primário significativo. Mas para se conseguir esta participação tecnológica portuguesa duradoura, e promover a indústria e a ciência nacionais ao nível dos grandes países europeus, é necessário em Portugal uma visão política de apoio à investigação, inovação e competitividade. A altura das decisões internacionais com impacto no geo-retorno é agora, não se compadecendo com indefinições nacionais que só diminuem o potencial de um país e comprometem a prazo a sua capacidade de inovação e de exploração científica alinhada com as políticas europeias.

Neste período de profunda crise, os decisores políticos da ciência portuguesa (as Secretarias de Estado da Ciência, da Economia e Inovação) e seus braços operacionais (a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a Agência de Inovação) terão de escolher entre dois caminhos. O primeiro, o tradicional posicionamento português, irá explorar tecnologia externa ao país para apoiar cientistas num movimento permanente para reputados centros internacionais, ajudando o desenvolvimento do tecido produtivo competitivo de outros países, e desbaratando o nosso posicionamento privilegiado nos novos contextos da cooperação com África e Brasil. O segundo, similar ao de países europeus de referência, ambicionará também posicionar-se como um promotor da competitividade e do desenvolvimento tecnológico do país, como consubstanciado nas grandes linhas do Horizonte2020. As escolhas agora feitas serão determinantes no financiamento da ciência e inovação portuguesas pelo próximo programa-quadro. A história tem mostrado que é nos momentos de crise que apostas estratégicas em ciência e inovação - como a necessária para projectos como o SKA - apresentam benefícios científico-tecnológicos duradouros com impacto social.

Investigador, Instituto de Telecomunicações, Aveiro; professor associado com agregação, Universidade de Aveiro