Uma bela obsessão que até pode destruir um casamento

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Hugo Pinheiro era um dos melhores guarda-redes do CM 2001/02, mas, na vida real, passou quase toda a carreira no Marinhense e nunca foi além da segunda divisão, com o Fátima: "A todo o lado que eu ia, toda a gente me conhecia por causa do jogo. Vinham conversar comigo a dizer: "Eu comprava-te sempre, jogavas sempre na minha equipa"" Miguel Manso

É o sonho de qualquer adepto de futebol gerir os destinos de uma equipa e conduzi-la à glória e não cometer os mesmos erros de treinadores e dirigentes. Mas o que começa como um gosto torna-se num vício. É o que significa para milhões de pessoas o Football Manager, um complexo simulador de gestão de futebol que provoca noites sem dormir e já foi citado em casos de divórcio. "Se virar a roupa do avesso, não precisa de lavá-la tantas vezes." Se esta mensagem aparecer no jogo, é sinal de que as horas passaram sem se dar por elas.

Quando alguém liga às três da manhã e diz: "Segui o teu conselho, fui buscar o Vasco Matos ao Sporting B e ele joga muito", isto é obsessão. Quando alguém diz que treinou o Penafiel durante 20 épocas e conseguiu conquistar mais títulos europeus que o Real Madrid, isto também é obsessão. Quando alguém veste um fato para disputar a final da Taça UEFA sem sair de casa, é muita obsessão. Quando se sabe que o Avaí, o Criciúma, o Joinville e o Guarani de Palhoça disputam o Estadual de Santa Catarina no Brasil, é obsessão total. Quando se pensa que um tal de Lionel Messi nunca chegará aos calcanhares de Tonton Zola Moukoko, sim, esse alguém vive numa realidade alternativa.

Este mundo à parte chama-se Football Manager (FM), mas já se chamou Championship Manager (CM) - houve uma cisão entre as empresas que produziam o jogo; a Eidos ficou com o nome, a Sports Interactive ficou com o motor e a base de dados, tendo sido o FM quem sobreviveu. É uma "bela obsessão", como lhe chamaram Iain Macintosh, Kenny Millar e Neil White, autores do livro Football Manager Stole My Life: 20 Years of Beautiful Obsession, lançado para assinalar os 20 anos de existência deste famoso jogo de estratégia de futebol. Um jogo que já foi citado em casos de divórcio, que já valeu empregos reais a treinadores de bancada, um jogo que valeu notoriedade virtual a jogadores que nunca passaram da obscuridade - e, num caso, a um jogador que nunca existiu.

"Fiquei OUTRA VEZ viciado no Football Manager... Avisaram a Ayda do que ia acontecer mas acho que ela não estava preparada... Passava noite e dia a jogar e no outro dia decidi partir o disco porque já era demasiado... Mas dois dias depois encomendei outra vez o jogo na Amazon... Deve chegar no correio amanhã de manhã... A Ayda vai delirar :)." Este é o testemunho recente do cantor britânico Robbie Williams, um viciado confesso do FM (e Ayda é a sua namorada). Mas podia ser a confissão de qualquer outro dos milhões de jogadores que existem no mundo. Ano após ano, desde 1992, há uma nova versão da "droga" disponível para consumo. Já se venderam milhões de cópias, embora seja difícil de precisar quantas porque a empresa não divulga números.

O FT é um simulador de gestão de futebol, em que se controla tudo o que diz respeito a uma equipa, desde contratações, tácticas, métodos de treino, camadas jovens. Todos os jogadores na base de dados são reais, desde o Lionel Messi, do Barcelona, até ao Fábio Zacarias, do Sacavenense (III Divisão portuguesa), e o jogo define dezenas de características para cada jogador (técnica, velocidade, finalização, marcação, agilidade, etc) com base nas observações directas dos milhares de colaboradores espalhados pelo mundo.

"É um jogo que nunca tem fim, o que aumenta mais o nível de vício e a tentação de arranjar sempre novos desafios", diz Khaddafi, um utilizador do fórum CMPortugal, a maior comunidade portuguesa virtual dedicada ao jogo. Na actual versão, pode escolher-se uma equipa de ligas de 51 países diferentes. Os desafios podem ir desde manter a hegemonia da liga espanhola com o Barcelona ou iniciar uma campanha de glória com o Prainha Futebol Clube a partir da Série Açores da terceira divisão.

Este é parte do apelo do Football Manager: o número quase infinito de desafios. Outra parte é o sentido de comunidade, com partilha de histórias, dicas de contratações e métodos de treino, tácticas, correcções e expansões da base de dados, visuais diferentes para o ecrã de jogo, etc. E o saber que não se é o único a gritar golo às seis da manhã em frente a um ecrã de computador - tudo isto potenciado por um fórum aberto chamado Internet.

É o próprio jogo que define o grau de vício de cada um. A escala inclui "Falta ritmo de jogo" para os pouco dedicados, "Se virar a roupa do avesso não precisa de lavá-la tantas vezes" e "Lembre-se de telefonar para o seu emprego a prolongar a baixa por doença" para os jogadores mais consistentes. "Parabéns de todo o pessoal da Sports Interactive. Nunca pensámos que conseguisses chegar tão longe", é a mensagem que aparece no jogo de Khaddafi que durou 101 dias, 8 horas e 32 minutos: a gestão do Arsenal durante 35 temporadas. Muito tempo para quem teve dúvidas em entrar para este mundo: "Antes de começar, gozava com os meus colegas que jogavam, mas, depois de se começar, muito dificilmente se consegue parar."

A revista 2 colocou uma mensagem no fórum do CMPortugal (que tem quase 35 mil utilizadores registados) e Khaddafi, que preferiu manter-se a coberto do nick "roubado" ao antigo ditador líbio, foi um entre dezenas que concordaram em contar as suas histórias, quase todas descrevendo o CM/FM como uma obsessão benigna que é um prolongamento natural do gosto pelo futebol.

Hugo Lopes, de 25 anos, descreve a sua relação com o jogo como uma "paixão" que lhe permitia levar o seu clube do coração, o Benfica, ao "topo do mundo do futebol". Logo no primeiro dia, "passou horas a jogar e a explorar tudo o que o jogo tinha para oferecer". A primeira contratação foi o brasileiro Ronaldo "Fenómeno" e fez "uma festa tremenda". "Parecia que tinha ganho o Euromilhões", recorda Hugo Lopes, que chegou a trabalhar no café dos pais enquanto estudava para poder comprar o jogo. "[O jogo] não teve nenhuma interferência na minha vida pessoal. Mas ainda jogo isto como se fosse uma criança."

Muitas destas histórias começam cedo, aos oito, nove anos, e quase todas continuam, não se desligam deste jogo apesar de este ficar cada vez mais complexo, realista e difícil. David Duarte, 17 anos, gosta de gerir o clube da sua terra, o Sporting da Covilhã, que, na vida real, está na segunda liga. Mas, na gestão de David Duarte, já foi campeão português e ganhou uma Liga Europa. Outro desafio que costuma assumir é o Sporting - a "arrelia" num jogo na versão de 2006 foi "quando o presidente do Sporting vendeu o João Moutinho sem minha autorização para o Barcelona. Ele era o meu jogador-chave e acabei até por me demitir". Uma prova do realismo do jogo, portanto.

No Football Manager Stole My Life, os autores contam vários casos extremos de dedicação. Há quem tenha marcado uma lua-de-mel na Bulgária apenas para poder ir ver ao vivo os jogos do PFC Nesebar, da segunda divisão, porque era a equipa que tinha no jogo. Ou o caso daquele em que a mulher de um jogador compulsivo lhe escondeu o CD duas vezes e o acusou de "gostar mais do jogo do que dela". Acabou em divórcio e ele, com o dinheiro que iria poupar na renda, comprou um computador novo e a versão mais recente do Football Manager. A nova namorada também não gostou e também começou por lhe esconder o jogo porque a monopolização do computador a impedia de jogar Farmville.

O Football Manager, segundo um número amplamente citado na Internet (mas impossível de confirmar), já terá sido citado, pelo menos, em 35 casos de divórcio, só em Inglaterra. Pedro Torrié teve compreensão conjugal para um vício que já vem desde o tempo em que se usavam uns pequenos quadrados de plástico chamados disquetes. "Até a namorada joga, vício a dobrar cá em casa", conta este informático portuense de 33 anos, que acompanhou todas as versões, desde o CM1, ainda sem jogadores reais, até ao FM2013. "Eu e quatro amigos reuníamo-nos ao anoitecer numa longa jornada, jantávamos durante os jogos (o jogo era lento e tínhamos de mudar de disquetes) e a diversão ia quase até de manhã. E isto era durante o ano lectivo", recorda. "Viciava os meus amigos e familiares tanto quanto possível, na escola e em casa falávamos de tácticas e de jogadores como se fosse algo real."

Em 2006, o Middlesbrough, então na Premier League, ficou sem treinador porque Steve McLaren deixou este clube do Norte de Inglaterra para tomar conta (sem grande sucesso) da selecção inglesa. Entre os candidatos à sucessão de McLaren, estava John Boulieau, que enviou o seu currículo citando como experiência profissional as suas conquistas no Football Manager. Gareth Southgate, que acabara a carreira como jogador, foi quem "roubou" o lugar a Boulieau, mas este jovem de 25 anos teve uma resposta do presidente do clube a rejeitar a sua candidatura: "Você era o melhor candidato, mas decidimos não o contratar. Para ser franco, achámos que a sua estadia aqui seria curta, porque o seu inegável talento iria despertar o interesse de grandes clubes europeus", lia-se na bem-humorada carta. Boulieau continuou apenas a ser um manager virtual. Mas ter o FM no currículo já resultou, pelo menos, uma vez. Prova da defesa número um: Vugar Huseynzade, 21 anos, contratado em Novembro passado como manager da equipa principal do FC Baku, do Azerbaijão. Como experiência, Huseynzade apresentou no currículo dez anos de FM. "Sempre quis trabalhar em futebol e jogo FM desde 2002", disse este azeri citado pelo jornal sueco Aftonbladet. Para o cargo, Huseynzade terá batido a concorrência de gente como o antigo internacional francês Jean-Pierre Papin. A sua página na rede social Facebook está repleta de pedidos de entrevista de todo o mundo. A revista 2 fez o mesmo, mas não recebeu resposta.

Para muitos, o sonho do futebol começou a formar-se com as conquistas virtuais. É o caso de Alexandre Costa, de 21 anos, para quem o jogo foi um ponto de partida para a sua vida profissional actual. Jogou de "forma compulsiva" durante nove anos até começar a colaborar com as camadas jovens do Estrela da Amadora. Depois, orientou a sua formação académica para o desporto e para o futebol e acabaria por se mudar para o Porto, onde é treinador numa das escolas Dragon Force, do FC Porto. O FM ficou pelo caminho, "atropelado" pela realidade. "A verdade é que, apesar de o jogo ser um simulador excelente, a discrepância para a realidade é muito grande e, à medida que fui adquirindo mais conhecimentos e ficando ainda mais focado na minha carreira, deixei de ter interesse no jogo", admite.

Aos 16 anos, José Amador já tinha o plano todo delineado, depois de ter ficado apanhado com o CM 2001/02. Uma década depois, o currículo deste alentejano de 24 anos mostra que o plano está a ser seguido à risca. Ele é o coordenador de prospecção do Marítimo no continente, tendo a seu cargo 18 coordenadores distritais e 118 observadores, e uma base de dados com os nomes de centenas de jogadores, mas quer evoluir para treinador. E tudo por causa de um certo técnico português do Real Madrid. "Gostei da faceta de treinador. Entretanto, um ano depois, apareceu o José Mourinho e era um jovem treinador português que conseguia aquelas vitórias", recorda Amador, que mandou três mil currículos com as suas credenciais - sem o CM na lista das habilitações, mas com curso de treinador Nível II, passagens pela prospecção do Benfica, como técnico de escolas de futebol e adjunto de uma equipa sénior de um clube alentejano.

Contratar jogadores por CM/FM é algo que nunca nenhum clube irá admitir, observa José Amador. Mas ter à disposição uma base de dados com mais de 400 mil jogadores apresentados com base em observações directas e com um grau de fidelidade elevado é demasiado irresistível - o Everton, clube do qual os criadores do jogo são adeptos, assegurou em 2008 acesso prioritário à base de dados. "Não só é verdade, como é normal que isso aconteça, ainda por cima com uma relação custo/efectividade insignificante quando comparada com as estruturas existentes em clubes", sustenta José Chieira, coordenador de pesquisa da SI para Portugal, o mais antigo pesquisador do jogo em funções (desde 1994), ele próprio com vasta experiência em scouting (prospecção), tendo colaborado com clubes como o Sporting, Vitória de Setúbal, Académica e Panathinaikos - na formação de Coimbra chegou mesmo a ser director-desportivo.

José Chieira, de 37 anos, terá o privilégio de jogar o FM2014 dois ou três meses antes de chegar ao mercado, algo que está previsto para os últimos meses do ano. Escusado será dizer que a sua vida também mudou com o jogo, de "jogador fanático" a pesquisador e colaborador de empresas que fazem scouting de jogadores e equipas adversárias para clubes. "Mantenho o vício aceso desde o primeiro dia", confessa Chieira. Conta o caso de um antigo colaborador que teve de fazer uma escolha difícil: "Ele fazia uma cobertura extraordinária das divisões inferiores, numa altura em que a simples recolha de plantéis era complicadíssima e implicava deslocações e telefonemas sem fim. Era estudante universitário e tinha um horário muito flexível, até ter arranjado uma namorada nova. Recordo-me da vida dissimulada que ele levava porque a convivência com o CM não era fácil. Finalmente, chegou aquele momento da verdade, "Eu ou o CM." Pela forma como nos comunicou a decisão (literalmente em lágrimas) percebi logo que escolhera a vida de casado."

Em 2004, apareceu na base de dados um jovem de 16 anos das camadas jovens do Barcelona chamado Luís Leonardo Messi. "O nosso pesquisador disse-nos que havia um pequeno argentino que podia chegar ao topo no futebol, mas que era muito baixinho", recorda o coordenador de pesquisa da SI para Espanha, Ivan Villar, no livro FM Stole My Life. Os dois primeiros nomes estavam errados, mas as previsões para este apelido acertaram em cheio. Messi, não o Luís Leonardo, mas o Lionel Andrés, está a caminho de ser o melhor futebolista de todos os tempos.

A base de dados pretende-se o mais rigorosa e aproximada da realidade possível. Desde as primeiras versões, o número de jogadores e treinadores presentes no jogo cresceu com a inclusão de cada vez mais campeonatos e com a inclusão de escalões de formação. Haverá sempre jogadores sobreavaliados e subavaliados, mas o grande apelo do CM/FM é que são jogadores e treinadores reais. É irresistível tentar contratar os craques para a pequena equipa da terra e transformá-la num colosso do futebol mundial.

Tudo isto para chegar à história de um dos maiores craques do jogo: um avançado completo, com finalização, técnica e força nos níveis máximos, disponível por uma pechincha para qualquer clube que estivesse interessado, novo e barato, o sonho de qualquer treinador (real e virtual). Tó Madeira era a "estrela" do CM 2001/02, a mesma versão que tinha um jovem Cristiano Ronaldo, sem clube e com poucas possibilidades de alguma vez vingar no futebol. Tó era um dos poucos jogadores disponíveis no Clube Desportivo de Gouveia, equipa dos distritais da Guarda. Com um pequeno senão: Tó Madeira nunca existiu.

Palavra a José Chieira, que trabalha para a SI: "Tivemos um colaborador que, por sinal, era o seu homónimo António Madeira - e se oferecera para cobrir o Gouveia, clube da sua cidade e onde jogara antes de ir estudar para Coimbra. A base de dados não permitia uma edição colaborativa, então havia que enviar, receber e controlar ficheiros individuais de todos os nossos colaboradores - e como o clube na altura disputava os distritais, tinha uma prioridade mínima em termos de integração na BD. Ora o António, como tantos outros, devolveu as suas informações e aferições no último dia do prazo final. Mas queríamos respeitar o seu trabalho e poder integrar os dados no CM e, dadas as limitações de tempo e recursos, não pudemos fazer um controlo exaustivo, até porque 99% dos colaboradores têm uma abordagem positiva e honesta a esta tarefa. E é assim que o Tó Madeira inicia a sua carreira extraordinária."

É verdade que Tó Madeira foi apagado da base de dados pouco depois de o jogo sair, mas o "mal" já estava feito. Ele seria durante anos o avançado preferencial para jogadores de CM em todo o mundo. Mesmo quem faz o jogo não se esquece do português. A equipa de futebol formada por antigos e actuais funcionários da Sports Interactive, que joga todos os domingos numa liga amadora em Inglaterra desde 2011, chama-se Football Club Tó Madeira, mas sem a capacidade goleadora do avançado fantasma. "Falta-nos, realmente, um jogador com aquele toque especial como o Tó Madeira. Mas depois também não seria fácil segurá-lo", contava ao Maisfutebol Stuart Warren, capitão de equipa e funcionário da SI.

Se houve gente a perguntar por Tó Madeira, essa desconhecida máquina goleadora que não existia, também houve gente a perguntar por Maxim Tsigalko, uma promessa do Dínamo de Minsk, da Bielorrússia. Era o tipo de avançado solitário que passava os 100 golos por época. Houve um clube português a testar Tsigalko, o Marítimo. Em 2004, depois de problemas com vistos, o bielorrusso passou uma hora no treino, lesionou-se com gravidade e não ficou no clube madeirense. Para a comunidade CM, continuou a marcar.

Hugo Miguel Fernandes Pinheiro deixou o futebol em 2011, depois de uma carreira de mais de uma década como guarda-redes, muitos desses anos ao serviço do Marinhense. Já não tem qualquer ligação ao futebol e, aos 31 anos, vive com a família na Marinha Grande e é técnico de moldes. Há dez anos, era um promissor guarda-redes que chegou a estar perto de ingressar na União de Leiria, muito antes da recente decadência financeira e desportiva que atirou o clube para o limbo do futebol amador. Quando a União estava na primeira divisão, esteve interessado no jovem Hugo, ainda com idade de júnior, para ser o terceiro na hierarquia de guarda-redes, mas uma divergência de verbas entre clubes não deixou o negócio avançar.

Foi o mais perto que Hugo Pinheiro esteve de jogar na primeira liga. Chegou a jogar na segunda liga quando representou o Fátima, o último clube da sua carreira. Foi o mais alto que chegou no mundo do futebol real. Mas Hugo Pinheiro era uma compra obrigatória para quem jogava Championship Manager 2000/01 e 2001/02, um dos melhores guarda-redes do jogo. Disponível por pouco no Marinhense, Hugo tinha os melhores índices para um guarda-redes, jogo de mãos, agilidade e reflexos. E era uma constante em qualquer jogo que se fizesse. Ia sempre parar a um grande clube e seria o dono da baliza da selecção portuguesa durante mais de dez anos.

Hugo sempre conviveu bem com o seu alter-ego virtual. "Cheguei a jogar por curiosidade. Era engraçado porque, a todo o lado que eu ia, toda a gente me conhecia por causa do jogo. Ainda agora. Vinham conversar comigo a dizer: "Eu comprava-te sempre, jogavas sempre na minha equipa." Cheguei a ir até a um encontro de jogadores do CM", recorda o antigo guarda-redes à revista 2, que, depois de abandonar a carreira de futebolista, ainda ficou um ano ligado à modalidade como treinador de guarda-redes. E por que razão era tão bom no jogo? "Não sei explicar."

A função de José Chieira e de toda a rede de observadores (actualmente serão cerca de 60 em Portugal) é serem o mais fiéis possível na definição dos atributos e da habilidade potencial dos jogadores. É simples quando as capacidades estão à vista de todos, e avaliar jogadores como Messi ou Ronaldo é do mais fácil que há. Os observadores podem enganar-se ou antecipar-se a olheiros dos clubes. Chieira conta a história de como "descobriu" Deco, depois de ter sido rejeitado pelo Benfica e quando ainda estava no Alverca, muito antes de se tornar num dos jogadores de referência da selecção portuguesa durante a década passada. Veio do Corinthians Alagoano com destino ao Benfica, mas foi recambiado para o clube ribatejano. Foi onde Chieira o foi ver pela primeira vez.

"Lembro-me que estava uma tarde de temporal e que o Deco, muito magro e leve, estava completamente impreparado para aquele ambiente, mas das poucas vezes que tocara na bola o jogo "parava", simplesmente deslizava no campo", conta. Não entrou logo como craque na edição 97/98, mas, nas actualizações seguintes, foi integrado na base de dados como o jogador com mais potencial do campeonato português, ainda quando estava no Salgueiros e antes de ir para o FC Porto.

Pelo contrário, Chieira recorda o caso de alguém que tinha um potencial real e virtual e que acabaria por nunca vingar: Fábio Paim, jovem esperança do Sporting. "Vi-o fazer coisas fabulosas, mas acabou por se tornar num caso, acima de tudo, social", observa. Paím era considerado um grande talento mas nunca se afirmou em nenhum dos clubes por onde passou, entre a Premier League (Chelsea) e o campeonato do Qatar (Al Kharaitiyat), onde está agora. Mas era um craque no CM4.

No Football Manager Stole My Life, o jornalista escocês Kenny Millar ficou com a tarefa de encontrar estes craques virtuais, de perceber como a vida deles evoluiu. Todos têm histórias semelhantes: a carreira não foi aquela que o jogo previa, mas todos se tornaram objecto de culto. Pouco dirão ao adepto de futebol comum nomes como Cherno Samba, Gareth Jelleyman, Michael Dunwell, Mark Kerr, Maxim Tsigalko ou Nii Lamptey. Para o jogador de CM/FM, são "estrelas". Millar falou com quase todos e reuniu as entrevistas num capítulo a que chamou Tonton Zola Moukoko só há um, em honra do jovem craque sueco de origem congolesa, o melhor médio ofensivo do jogo que continua a ser abordado por gente de todo o mundo, mesmo que nunca tenha ganho uma Bola de Ouro.

"A maior parte deles é feliz com este reconhecimento, porque muitos deles jogavam o jogo e as pessoas ainda se lembra deles. Um dos mais entusiastas era o João Paiva [avançado português do Grasshoppers, da Suíça, formado no Sporting]. Houve alguns que não quiseram falar, incluindo um islandês, Andri Sigporsson, que tem uma padaria, que era um grande avançado", diz à 2 o jornalista do escocês Scottish Sun, para quem o "Graal" desta demanda era encontrar Moukoko, herói de tantas campanhas virtuais de Millar como manager do Hibernian, o clube escocês do qual é adepto.

Millar até colocou um anúncio a circular oferecendo uma recompensa por Moukoko - um nome "mais lembrado por muitos trintões do que o do tipo que se sentava ao lado deles na escola", como escrevia Rob Smyth no Guardian em 2008. "Uma coisa é alguém chamar o nome errado à mulher quando estão a divertir-se na cama, muito pior é chamar-lhe Tonton."

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