Ouvem chorar as pedras queimadas?

O Largo de São Domingos é uma espécie de jornal falado - notícias de África no meio de Lisboa
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O Largo de São Domingos é uma espécie de jornal falado - notícias de África no meio de Lisboa João Catarino ilustração

Foi na Igreja de São Domingos que começou um dos episódios mais negros da história de Lisboa: o massacre dos judeus da cidade, em 1506. Destruídas por um incêndio já no século XX, as paredes da igreja parecem chorar esse crime.

Lembro-me de um guineense que me contava que quando chegava a Lisboa depois de longas ausências ia a correr ao Largo de São Domingos, ao lado do Teatro Nacional D. Maria II e em frente ao pequeno bar da Ginginha, a dois passos do Rossio. Ali encontrava sempre alguém do seu país, sabia sempre as últimas novidades, recebia os recados deixados por quem, entretanto, tinha partido. O Largo de São Domingos é uma espécie de jornal falado - notícias de África no meio de Lisboa.

Lembro-me também de ir a uma mercearia africana descobrir produtos de cheiros e sabores diferentes, que não sabia como se usavam, e de ver os homens muçulmanos de túnicas longas e chinelos descerem uma escada para uma sala de orações improvisada. E lembro-me de desde sempre ali ver as mulheres africanas de roupas coloridas e lenços enrolados nas cabeças, a conversar.

A última vez que passei pelo Largo de São Domingos havia uma roulotte de farturas, cheia de luzes. Em frente, a igreja, com dois pedintes à porta. Entrei. No interior, as paredes marcadas pelo fogo. O tom ocre e a pedra queimada. Não há outra igreja assim em Lisboa. Nenhuma tem uma história como a da Igreja de São Domingos.

Aqui aconteceu uma tragédia inimaginável. O dia 19 de Abril de 1506 foi um domingo e os fiéis enchiam a igreja, pedindo o fim da seca e da peste, quando alguém disse ter visto o rosto de Cristo iluminado, e logo todos começaram a gritar que era um milagre. Houve, no meio disto, uma voz discordante: um cristão-novo, ou seja, um judeu que fora obrigado a converter-se, tentou argumentar que se tratava apenas de um fenómeno físico, provocado pelo reflexo da luz. Enfurecida, a multidão voltou-se contra ele e espancou-o até à morte.

Foi o início de três dias de matança pela cidade de Lisboa. Reza a história que os frades dominicanos clamavam contra os judeus e incitavam o povo a matar os "hereges". Muita gente tinha já saído da cidade por causa da peste, mas os que ficaram, aos quais se juntaram muitos marinheiros de passagem - "de naus vindas da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens", escreveu Damião de Góis -, não pouparam os judeus que se lhes atravessaram pelo caminho. Homens, mulheres e crianças foram torturados, massacrados e queimados em fogueiras, muitas delas ali mesmo junto à Igreja de São Domingos. Terão morrido entre 2 mil e 4 mil judeus.

Depois da matança de domingo, na segunda-feira a violência continuou. Conta Damião de Góis: "E, por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade."

Nada desta trágica história tem a ver com o estado actual das paredes da igreja. Esse incêndio aconteceu séculos depois, a 13 de Agosto de 1959 (e antes disso, na sequência do terramoto de 1755, já a igreja tinha sido quase totalmente destruída e reconstruída). Encontram-se no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal imagens captadas na altura do incêndio do século XX por Armando Serôdio, nas quais se vêem os bombeiros a tentar salvar o edifício - numa delas, os homens olham com desalento para o interior já semidestruído, enquanto no chão se amontoam madeiras queimadas.

Quando a igreja foi reconstruída (reabriu em 1994), decidiu-se deixar as marcas do que tinha acontecido. Olhamos para as paredes queimadas e o que elas nos fazem lembrar é a história do massacre de 1506 - como se ainda ecoassem as palavras de ódio dos frades dominicanos e o som da multidão enfurecida, e os gritos dos judeus, e o estalar da madeira nas fogueiras.

Depois de séculos de silêncio, hoje existe no Largo de São Domingos um monumento, inaugurado em 2008, que recorda o que ali aconteceu e presta homenagem aos judeus. Num muro, ao fundo, lê-se "Lisboa, Cidade da Tolerância". E os africanos por ali andam, trocando notícias da terra e informando-se das novidades, e muita gente pára para beber uma ginginha e, agora, para comprar uma fartura na roulotte cheia de luzes. E talvez reparem nas palavras do monumento.

Mas, mais do que nessas palavras, talvez onde o sofrimento dos judeus de Lisboa seja mais bem recordado, mesmo que involuntariamente, é nas paredes queimadas da igreja. É essa ferida na pedra que, mais do que tudo o resto, parece um choro silencioso pelos que morreram naqueles três dias terríveis de 1506.