Não há como fugir a um Lucas Cranach (muito menos a dois)

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Judite (imagem da esquerda) encarna a virtude, enquanto Salomé (à direita) é um emblema de perversidade fotos dr

Museu de Arte Antiga, em Lisboa, mostra dois retratos de Cranach lado a lado. Um pertence-lhe, o outro veio do Metropolitan Museum de Nova Iorque

A experiência de Maryan Ainsworth com a pintura europeia, sobretudo a do Norte, permite-lhe ser categórica: "Ninguém consegue fugir a um Cranach. É demasiado atraente, demasiado poderoso." Se há um na sala, diz esta conservadora do Metropolitan Museum de Nova Iorque, é certo que vai agarrar-nos, não há como escapar. E quando são dois os retratos do pintor alemão na mesma galeria, lado a lado? Como é que se decide a qual dos dois prestar mais atenção? Cada um escolhe à sua medida, depende do que procura, da maneira que tem de olhar e de pensar, diz esta historiadora de arte. Não há receitas.

Uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, permite testar o poder de sedução de Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), um dos pintores mais importantes do Renascimento alemão, e de duas das suas mulheres: Salomé e Judite. Até 28 de Abril, o museu tem em exposição, ao abrigo do programa Obras Convidadas, Judite com a Cabeça de Holofernes (c. 1530), que pertence ao museu norte-americano, mesmo ao lado de uma outra pintura de Cranach, desta vez da colecção do próprio MNAA: Salomé com a Cabeça de São João Baptista (c. 1510).

As duas obras nunca se tinham encontrado. Juntá-las foi uma sugestão da conservadora do Metropolitan e o diálogo que hoje mantêm à vista de todos na parede do museu é uma contrapartida de um outro empréstimo: para o ano, Ainsworth vai levar para o "Met" um tríptico da vida de Cristo, para integrar uma grande exposição dedicada ao pintor flamengo Pieter Coecke van Aelst, que deverá inaugurar no Outono de 2014. Esta obra de Van Aelst, de grandes dimensões (só o painel central tem 262x174 cm), foi cuidadosamente analisada por um especialista, que avaliou se poderia ou não viajar, e vai ser restaurada em Lisboa antes de ser exposta nos EUA, explica o conservador José Alberto Seabra, responsável pelo programa Obras Convidadas e subdirector do museu. "Van Aelst é um pintor que é muito conhecido pelos desenhos que faz para tapeçarias, e também muito copiado. A ida do nosso tríptico é muito importante para a exposição do "Met", porque a obra de Lisboa é a mais autógrafa do mundo, ou seja, é a que, com maior grau de certeza, podemos dizer que foi executada por ele. É a única documentada entre as largas dezenas que lhe são atribuídas."

O MNAA tinha já planeado restaurá-la e o pedido de Nova Iorque foi o pretexto perfeito, sobretudo pela possibilidade de divulgar a colecção de Arte Antiga através de um dos museus mais importantes do mundo e de mostrar em Lisboa um Cranach "de uma fase mais madura, com uma profusão de cores incrível e um grande grau de sofisticação".

Um pintor de mulheres

Tendo uma vida e carreira longas - mais do que as de outros pintores seus contemporâneos como Holbein ou Dürer, sua grande influência -, Cranach vivia confortavelmente, tendo chegado a pintor real, na corte de Frederico III em Wittenberg (Dürer fora a primeira escolha, mas recusou). Tinha até um brasão, uma serpente alada e coroada, que, aliás, passa a ser a sua assinatura (aparece nas duas obras no MNAA). Cranach trabalhava rodeado por outros artistas e intelectuais e tinha em Lutero, pai da Reforma, um amigo.

"Cranach não é um pintor de uma obra excepcional, não tem uma [Capela] Sistina - o seu trabalho é constante e só se torna conhecido quando ele já tem 30 anos", explica Joaquim Caetano, historiador de arte e também conservador do MNAA, para quem o retrato de Judite, heroína bíblica que salvou a sua cidade, Betúlia, do exército assírio, ao seduzir e matar o seu general, Holofernes, é uma metáfora. Tal como Judite decidiu enfrentar todo um exército, também o povo luterano, no contexto da Reforma, estava perante um opositor gigantesco - a Igreja de Roma. "Judite insere-se na tentativa de Cranach de criar uma imagem para a Reforma, com heróis. Os protestantes viam-se como pequenas Judites a lutar contra Roma. Há uma intenção simbólica." Mas Salomé, que, dançando, convence Herodes a entregar-lhe a cabeça de São João Baptista como prémio, está longe de ser uma heroína - "há uma tensão entre a sua beleza e o horror do que ela mostra".

O que podemos, então, aprender, ao pôr estas duas mulheres lado a lado? A conservadora do Metropolitan resume: "É uma grande oportunidade para ver a evolução do artista a partir de duas composições muito semelhantes que fazem parte da série do poder das mulheres, tão popular em Cranach" como as Vénus e Cupido ou O Julgamento de Páris (só de Judite, os especialistas acreditam que o pintor tenha feito, pelo menos, 18 versões). Entre as mulheres poderosas estão, acrescenta Caetano, Betsabé, Dalila e Fílis.

Judite com a Cabeça de Holofernes faz parte da colecção do Metropolitan há 100 anos e há 30 que não saía do museu. Ainsworth garante que, apesar de separadas por apenas 20 anos na carreira de um mestre que trabalhou mais de seis décadas, as duas pinturas apresentam diferenças no traço e na pincelada. Além disso, diz, as duas mulheres têm atitudes distintas: "O olhar de Judite desafia, confronta, interpela quem a vê num jogo de "Quem sou eu?"/"Quem és tu?" Exige mais envolvimento do espectador. Salomé é mais distante." As duas têm roupas contemporâneas, "opção de grande modernidade", e associam beleza e brutalidade, algo que é frequente desde a Antiguidade. "Em Judite, ele usa os vermelhos, os laranjas e os verdes ácidos de que tanto gostava. Mas penso que nela Cranach não está a retratar alguém que realmente existiu. Esta mulher é idealizada de mais, não pode ser verdadeira."

As semelhanças, defende José Alberto Seabra, são mais superficiais do que as diferenças. Ambas são belas e astutas, ambas parecem lidar bem com a crueldade física: "Estes retratos são encenações do poder de sedução da mulher, são obras muito carnais, com um sopro de erotismo, mesclado de perversidade, como é hábito no trabalho de Cranach."

A ingredientes semelhantes correspondem, no entanto, juízos morais opostos: Judite encarna a virtude, o heroísmo bíblico no feminino; Salomé é um emblema de perversidade. No retrato da primeira, continua o conservador, o desenho é mais forte e delineado, as cores são mais festivas e associadas a um ambiente de luxo cortesão. A segunda pintura - a primeira no tempo - é mais sombria. "Para quem não está habituado à obra de Cranach, Judite é mais sedutora, mais comunicativa, não há nela subtilezas de luz. Salomé é esteticamente mais intelectualizada e misteriosa. Judite desafia, provoca. Salomé parece esconder alguma coisa." É o golpe que não vemos - só vemos o resultado da decapitação - que demonstra o poder destas mulheres, argumenta.

Um poder a que não se escapa, lembra Ainsworth. Tal como não se escapa a um Cranach.

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