A Europa vista de Lisboa e de Berlim

Foto

Vista de dentro, a Europa tem países pequenos e grandes. Vista de fora, são todos pequenos

1. A Europa e o mundo são vistos de maneira diferente, conforme se olhe para eles de Lisboa ou de Berlim. E não apenas por causa da História e da Geografia. Também por causa do tamanho. Os grandes países europeus têm sempre mais dificuldade em olhar com atenção para lá das suas fronteiras. Os pequenos têm a vantagem de perceber melhor os grandes, aos quais têm de prestar mais atenção. Um dos maiores méritos da integração europeia foi, precisamente, criar as condições para que os pequenos pudessem, de facto, condicionar o comportamento dos grandes. Hoje, com as profundas mudanças que ocorreram na Europa desde a queda do Muro de Berlim e a unificação alemã e europeia, os antigos equilíbrios entre pequenos e grandes foram postos em causa e é preciso encontrar os novos. Isso implica que não se perca de vista o velho e sólido princípio da igualdade entre os Estados, mesmo aceitando que há Estados mais iguais do que outros.

Vem isto a propósito da realização do primeiro Fórum Luso-Alemão, que decorreu na Gulbenkian nos dias 24 e 25 de Abril, que envolveu o trabalho de dois think tanks (o IPRI e o Instituto de Política Europeia de Berlim), o patrocínio dos dois chefes da Diplomacia (Paulo Portas e Guido Westerwelle) e que permitiu uma longa conversa entre políticos, intelectuais e empresários dos dois países. Foi útil, não tanto por ter contribuído para um conhecimento maior da forma como em Berlim se olha para a Europa e para a crise que está a abalar alguns dos seus fundamentos. Dadas as circunstâncias, não temos, em Portugal, outra alternativa que não seja olhar com muita atenção para a Alemanha, que, aliás, passou a estar no centro do debate português sobre a crise - a nossa e a europeia. Mas, talvez, porque os participantes alemães puderam ter uma ideia mais clara do que se pensa em Portugal sobre a Alemanha e sobre a Europa. Como disseram vários dos intervenientes portugueses, Portugal está agradecido à solidariedade alemã, que permitiu a ajuda que hoje recebemos da União Europeia e do FMI. Mas isso não nos impede de ter a nossa própria visão da Europa e do seu futuro, que terá de pesar na forma como a integração europeia vier a sair desta crise. Por outras palavras, mais directas - como aquelas que utilizaram alguns dos participantes portugueses -, a Alemanha deve perceber que o seu "momento unipolar" tem limites. "Não há memória de um tempo em que um só Estado-membro tenha tido tanto poder", lembrou José Amaral. Mesmo em Portugal, mesmo com o programa de ajustamento, mesmo com uma razoável compreensão da estratégia que Berlim adoptou para resolver o problema do excesso de endividamento dos países do Sul - austeridade e reformas. António Vitorino lembrou que não se trata apenas das medidas que os alemães decidiram tomar para resolver a crise e consolidar o euro, que podem ser discutíveis mas que, em boa parte, foram adequadas. Trata-se também da narrativa com que as apresentaram. Só por isso, este Fórum valeu a pena.

Foi, de resto, um académico alemão, Werner Weidenfeld, que colocou a questão essencial da natureza da integração europeia de uma forma simples e profundamente verdadeira. A diversidade europeia, que é também a sua maior riqueza, cria uma tensão permanente entre diferentes culturas, diferentes olhares e diferentes interesses. O segredo tem sido a transformação dessas tensões num resultado que foi e que se espera que continue a ser vantajoso para o conjunto. Dois dias antes do Fórum, os embaixadores da França e da Alemanha em Lisboa tinham organizado um debate para assinalar os 50 anos do Tratado do Eliseu, que criou as bases da aliança franco-alemã. Uma revisão da história da integração europeia, desde essa altura até hoje, mostra até que ponto foram sempre divergentes as perspectivas de Berlim (e, antes, de Bona) e de Paris sobre quase tudo e como a Europa se construiu a partir da capacidade dos dois países de encontrarem um compromisso europeu. É essa capacidade que está hoje de novo posta à prova.

2. Num outro ponto fundamental, esta conversa "luso-alemã" também convergiu. Se salvar o euro implica uma maior integração económica e política dos países que o partilham, alguma coisa é preciso fazer - a nível europeu e a nível nacional - para garantir a legitimidade desse caminho aos olhos dos cidadãos. O discurso sobre a Europa de David Cameron e as suas implicações estiveram presentes em muitas das intervenções. O referendo que prometeu aos britânicos sobre o lugar do Reino Unido dentro ou fora da União Europeia é uma aposta de alto risco que terá consequências pesadas para os britânicos e para a Europa. Mas também pouca gente terá dúvidas de que, para muitos países europeus, mais tarde ou mais cedo, a Europa terá de ir a votos. E ninguém pode garantir em que país ela chumbará primeiro. Em 2005, também se olhava para a Inglaterra e para os riscos de um referendo à Constituição europeia que Tony Blair chegou a prometer mas que nunca teve de fazer, porque a França e a Holanda se encarregaram de eliminar o problema, rejeitando em referendo o novo tratado constitucional no qual a Alemanha punha todo o seu empenho. De alguma maneira, os povos europeus terão de participar na decisão sobre o seu destino. O que quer dizer, como foi lembrado nos debates, que os Parlamentos nacionais vão ter de desempenhar um papel muito mais activo na legitimação europeia. E, mais uma vez, o problema é que não é só o Bundestag e o Tribunal Constitucional alemão que existem para legitimar as decisões europeias da chanceler. São os Parlamentos e os tribunais constitucionais de todos os países do euro.

3. O papel e o lugar da Europa no mundo que se desloca do Atlântico para o Pacífico foi outra das dimensões que o Fórum discutiu. E aqui, também, é distinta a forma como de Lisboa ou de Berlim se olha para fora e para o futuro. É fácil para a Alemanha sentir-se bem num novo mundo que está a emergir e que se tornou cliente da sua poderosa indústria. Os alemães vêem sobretudo mercados e interessa-lhes a garantia de que as suas exportações cheguem a toda a parte. O "momento unipolar" alemão também resulta da sua nova relação com o mundo globalizado e emergente. Mas esse não é exactamente o mundo que se vê de Lisboa ou de Amesterdão. São países europeus que dificilmente prescindem da sua dimensão atlântica. Que vêem com maior apreensão a previsível ausência americana e a imprevisível deriva britânica. São países que também devem ser capazes de fazer as suas contas e de lutar pela Europa que mais lhes interessa. É este o debate que ainda está por fazer. Portugal tem interesse, como a Alemanha, numa Europa forte e aberta ao mundo, e não fechada sobre si própria. Mas não numa Europa apenas continental construída em torno da Alemanha. O centro de gravidade da globalização está a deslocar-se do Atlântico para o Pacífico - e esta é uma realidade que praticamente ninguém hoje contesta. A emergência da China como candidata a superpotência mundial é o grande acontecimento deste século. Os Estados Unidos viram-se para o Pacífico e esperam que a Europa se ocupe da sua própria segurança e, cada vez mais, da segurança regional. O desafio é como vão os europeus reagir a esta mudança e isso depende em última análise do novo equilíbrio que for possível estabelecer entre Berlim, Londres e Paris. Mas não vale a pena ter ilusões. Vista de dentro, a Europa tem países pequenos e grandes. Vista de fora, são todos pequenos.

Jornalista. Escreve ao domingo