Reencarnar é uma esperança elegante

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Na sequência da estreia de Cloud Atlas, a partir do romance de David Mitchell, e numa altura em que a Presença o reedita, perguntámos ao autor como viu o filme. "Visitei os estúdios em Berlim apenas para gravar uma participação. E senti-me como um antropólogo a trabalhar entre tribos novas", diz.

Publicado originalmente em 2004, o romance Atlas das Nuvens, do escritor inglês David Mitchell (n. 1969), depressa se tornou num livro de culto, com vários críticos a considerá-lo um dos romances mais importantes (em língua inglesa) da primeira década deste século (foi, de resto, finalista do Man Booker Prize). Com a acção a decorrer entre 1850 e um qualquer ano pós-apocalíptico, a sua "aparente" amálgama de histórias denuncia um autor com uma imaginação prodigiosa e um talento narrativo extraordinário. Aproveitando a estreia em Portugal do filme homónimo, baseado nesse seu romance, o Ípsilon falou com David Mitchell. Desde uma pequena cidade irlandesa, confessou-nos que o título foi "roubado" a uma peça musical do compositor japonês Ichiyanagi, primeiro marido de Yoko Ono. Mitchell viveu oito anos em Hiroxima, onde ensinava inglês.

Aceitou imediatamente a proposta de fazerem um filme a partir do seu romance?

Se os realizadores de Matrix quisessem adaptar um romance seu, durante quantos minutos é que você hesitaria? O meu tempo de agonia não foi longo... [risos]

E gostou do resultado final?

Quando estava a escrever o livro, pensei várias vezes que era uma pena que ninguém conseguisse fazer um filme com aquilo, pois achava que seria um trabalho muito difícil. Mas os irmãos Wachowski provaram-me o contrário. Gostei do facto de eles não terem filmado servilmente o meu romance. Gostei de que não tivessem feito um áudio-livro com imagens. Acho que, em vez disso, pensaram sobre como o romance poderia ser traduzido para uma linguagem fílmica. O livro passou através dos seus prismas criativos, e isso, só por si, já é um elogio que me deixa muito contente. Mas não esqueçamos o terceiro realizador, Tom Tykwer, que foi quem filmou metade. A sua sensibilidade é mais europeia, mas acho que em Cloud Atlas o contraste de estilos funciona muito bem.

Mas não respondeu. Gostou do filme?

Sim, gostei.

Como foi o trabalho com os irmãos Wachowski?

Quando se vendem os direitos para um filme vendem-se também os direitos de mexer naquilo de que não se gosta tanto. Mas eles são autores talentosos e não precisaram de ajuda para escrever o guião. Guiões e romances são duas formas narrativas diferentes, e não é porque se tem alguma habilidade com uma delas que também se vai ter com a outra. Não trabalhei muito com eles. Visitei os estúdios em Berlim apenas para gravar uma pequena participação. E senti-me como um antropólogo a trabalhar entre tribos novas.

Como é que surgiu a ideia para a estrutura do Atlas das Nuvens?

Não a inventei. A estrutura vem do romance Se Numa Noite de Inverno um Viajante, do Italo Calvino, em que várias histórias são encontradas por uma mesma personagem. De cada vez que as histórias são interrompidas, logo após ter acontecido algo importante, a personagem demora mais algumas páginas a tentar localizar o resto da história. Mas nunca tem sucesso - a história é sempre diferente daquilo que a personagem procura - e assim o ciclo recomeça. A minha ideia era colocar uma espécie de espelho no final, para que o leitor se reencontrasse com as narrativas interrompidas, mas por ordem inversa. Como se o leitor fosse um pássaro de bico comprido a comer vermes através dos buracos de um ninho de matryoshkas, e depois os vomitasse cá fora, deixando-os espetados nos espinhos [risos]. Desculpe... a partir de agora vou tentar inventar metáforas de gosto não tão duvidoso.

O canibalismo e a reencarnação parecem ter um lugar de destaque em Atlas das Nuvens. São obsessões suas?

Se o canibalismo fosse uma das minhas obsessões acho que seria uma pessoa muito perigosa... Imagine-me a apresentar-me num formulário de speed dating [risos]. Sim, mas de facto o romance interessa-se por uma dinâmica predatória: um indivíduo derrota outro; uma corporação preda a sociedade que a acolhe; uma sociedade totalitária devora os seus cidadãos; uma tribo incorpora outra; tudo isto pode resultar em escravidão ou, em casos extremos, no canibalismo. A reencarnação é apenas uma esperança elegante, ao invés de uma obsessão.

Cada novo capítulo contém uma personagem antiga que surgirá renascida numa época posterior...

Nas histórias há almas reencarnadas através do tempo narrativo. Isso foi, para mim, uma espécie de homenagem respeitosa ao Budismo. No filme, a reencarnação desempenha também um papel importante e foi executada de maneira soberba.

Como é que o narrador, a personagem Adam Ewing, surgiu?

Não apareceu de repente na minha cabeça. Ele foi evoluindo, por várias reencarnações, nenhuma delas perfeita, somando as características de que eu gostava e que passaram de geração em geração [risos]. As personagens são como as pessoas que se encontram em festas: algumas falam logo sobre os seus divórcios, as suas fraquezas e o cancro testicular do avô, tudo nos primeiros dez minutos de conversa. Outras são mais introvertidas, precisam de muito mais tempo para se familiarizarem. Ewing foi uma personagem um pouco tímida.

Escreveu o livro pela ordem em que o lemos? A primeira metade da primeira história, depois a primeira metade da segunda...

Não, escrevi as histórias completas, desde 1850 até ao Havai pós-apocalíptico, tudo por ordem cronológica. Mas em cada caso, sabia qual o momento em que teria de interromper a narrativa. Quando acabei a sexta história passei um quarto de hora a utilizar as funções "cortar" e "colar" para criar a estrutura com que o romance ficou.

Herman Melville e Joseph Conrad influenciaram a escrita de Atlas das Nuvens?

Sim, um pouco. O dialecto de Adam contém algum DNA linguístico de Melville, além das suas descrições do mar. O Conrad influencia sempre quem o admira: o seu tom, as suas tríades descritivas (ele diz as coisas quase sempre três vezes, uma em polaco, outra em francês, e outra em inglês) o seu "melodrama-lessness" (Boa sorte ao traduzir esta palavra! [risos]); e há ainda O Coração das Trevas, que, não obstante as acusações de racismo, é um dos romances mais perfeitos. Como é que se pode não se ser influenciado por ele?

Para além daqueles, quais os escritores que mais o influenciaram?

Originalmente, os que em criança me fizeram querer escrever: Asimov, Ursula le Guin, e Tolkien. Mais tarde, os que me ensinaram que escrever é um ofício: Dickens, Tolstói, Jane Austen, Lampedusa, Banville. E, mais recentemente, os que me fascinaram pela sagacidade: Perec, Laxness e Saramago.

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