Uma directora "ousada" para o Museu de Serralves

A australiana Suzanne Cotter, nova directora do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, está empenhada em fazer do museu do Porto um dos centros da arte mundial e não receia que os cortes orçamentais a impeçam de levar por diante o seu projecto.

Suzanne Cotter fotografada em Serralves, na exposição de Julião Sarmento
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Suzanne Cotter fotografada em Serralves, na exposição de Julião Sarmento Nelson Garrido

Escolhida entre uma centena de candidatos para suceder a João Fernandes na direcção artística do Museu de Serralves, a australiana Suzanne Cotter quer transformá-lo num dos principais centros da cena artística mundial, rentabilizar “a extraordinária arquitectura” do edifício projectado por Siza Vieira, bem como a casa e o parque da fundação, e estimular o debate de ideias, abrindo o museu a pensadores, críticos e curadores.

Cotter, que foi ontem apresentada à imprensa pela administração de Serralves, mostrou-se convicta de que os anunciados cortes orçamentais de 30% não a impedirão de dotar o museu portuense de uma programação que lhe garanta um lugar de destaque no circuito mundial da arte, e frisou que tenciona deixar a sua própria marca no museu. Mas só terá verdadeiramente condições para o fazer a partir de 2014, já que a programação deste ano foi ainda herdada do seu antecessor.

A nova directora reservou ontem alguns minutos para inventariar os momentos mais significativos do programa desenhado por João Fernandes, destacando as exposições de Jorge Martins e Alberto Carneiro, na Primavera, a exposição de Alexandre Estrela (Junho) ou a mostra antológica do artista conceptual norte-americano Mel Bochner (Julho), co-produzida com a Haus der Kunst de Munique e com a Whitechapel Art Gallery de Londres, onde Cotter foi curadora.

A directora assinalou ainda as exposições do brasileiro Cildo Meireles (Outubro) e da palestiniana Ahlam Shibli(Novembro), esta última co-produzida com o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona e com o museu parisiense Jeu de Paume. Uma colaboração que permitirá apresentar uma série de novas fotografias de Shibli, que já estivera representada em Serralves, no programa Às Artes, Cidadãos! (2010).

Cotter garantiu que se sente perfeitamente “confortável” com a programação que herdou, mas se mostrou apreço por alguns dos artistas que o seu antecessor escolheu, pareceu querer evitar qualquer juízo de valor sobre o trabalho de João Fernandes. Numa entrevista ontem publicada no Jornal de Notícias, diz que o programa que o ex-director lhe deixou “é normal” e acrescenta que “há muito por fazer nos tempos mais próximos”. Uma reserva que não mostrou nos abertos elogios endereçados à administração de Serralves.

Com um extenso currículo académico e profissional, Cotter trabalhava desde 2010 no Museu Guggenheim de Nova Iorque e estava a desenvolver o projecto artístico do futuro Guggenheim de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Uma posição que poderia tornar algo surpreendente a sua disponibilidade para deixar a sempre efervescente cena artística nova-iorquina e se radicar no Porto. Mas, além de ser uma oportunidade para liderar o seu próprio projecto, Cotter não foi indiferente à “excelente reputação” internacional de Portugal. “Os meus colegas que conheciam o país diziam-me todos que era fantástico, e os artistas diziam que Serralves era um lugar espantoso, mesmo os que nunca cá tinham estado.”

Desafiada ontem a definir numa só palavra a marca que se propõe imprimir em Serralves, Cotter escolheu o adjectivo “bold” (ousada, audaciosa), mas não deixou ainda muitas pistas que permitam perceber em que é que essa ousadia se poderá vir a traduzir na prática.