Um europeísta diferente

A saída de Jean-Claude Juncker do Eurogrupo marca o fim de um ciclo e é negativa para Portugal

Oluxemburguês Jean-Claude Juncker deixa hoje a presidência do Eurogrupo, cargo no qual vai ser substituído pelo ministro das Finanças holandês, o quase desconhecido Jeoren Dijsselbloem. Não é uma boa notícia para Portugal, para a moeda única e para a construção europeia, o que quer que isso ainda signifique nos tempos que correm. Juncker é um federalista e está por dentro do processo europeu desde o tempo do Tratado de Maastricht. Um veterano entre os veteranos, o mais socialista dos democratas-cristãos europeus, segundo o ecologista e também veterano, mas do Maio de 68, Daniel Cohn Bendit. Continua a puxar do cigarro nos imaculados edifícios europeus e nunca deixa de dizer o que pensa.

Foi sempre um aliado de Portugal e nunca deixou de avisar para os excessos da cultura "punitiva" imposta pelos países ricos do Norte aos países do Sul em crise. Em Juncker sobrevivia a Europa de Delors, a Europa da solidariedade que fazia sonhar os europeus. Dir-se-á que, com este historial, o luxemburguês partilha também responsabilidades pela arquitectura defeituosa que tornou a moeda única tão vulnerável aos efeitos da crise financeira global. Mas, ao longo dos anos em que esteve à frente do Eurogrupo, foram sem dúvida mais os problemas que resolveu do que aqueles que criou.

Jean-Claude Juncker foi sempre capaz de criar uma ponte entre os dois extremos do eixo Paris-Berlim. Essa capacidade de diálogo também é reconhecida ao seu sucessor. Mas Jeoren Dijsselbloem assumirá esse papel enquanto representante dos ricos e sem ter um peso político comparável ao do seu antecessor. É um homem de outra Europa, em que as instituições comunitárias perderam força e a integração está a ser feita não em nome do federalismo, mas de um jogo de relações de força no qual o centro da UE se deslocou de Bruxelas para Berlim.

Clarificar as autárquicas

Apoucos meses das eleições autárquicas, crescem os apelos para que a lei da limitação de mandatos seja clarificada. Está em jogo a legalidade dos casos em que um autarca que tenha atingido o limite de mandatos numa câmara possa concorrer ao mesmo cargo noutra. E há o risco de diferentes tribunais virem a ter diferentes juízos sobre o problema. Mas o objectivo da lei não é burocrático, é político. Estão em causa os riscos de uma eternização em funções dos mesmos autarcas, mas também a possibilidade de renovação da classe política, que é limitada pela profusão dos "dinossauros autárquicos". As câmaras deviam ser o primeiro terreno de acção para os jovens políticos, que assim aprenderiam a ver a sua capacidade sufragada pelo voto e não pelo ámem dos aparelhos. Ora, os objectivos de renovação e de transparência não se compaginam com o trânsito de dinossauros em curso. E a clarificação da lei passa por aí.