Há israelitas que cedem os seus votos a palestinianos

Apesar de não terem direito de voto, alguns palestinianos vão poder participar nas eleições legislativas em Israel na próxima terça-feira. A oportunidade é dada por israelitas que aceitaram votar em nome deles

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As eleições legislativas estão marcadas para a próxima terça-feira Baz Ratner/Reuters

Ficamos a saber que Tamar, residente em Telavive, boicotou as últimas eleições em Israel, mas o plano para as legislativas da próxima terça-feira é outro. Depois de ter ouvido falar na campanha Real Democracy, criada por israelitas e palestinianos, percebeu "imediatamente" o que tinha de fazer: "Dar o meu voto a um palestiniano que esteja sob ocupação ou na diáspora, e a quem é negado o direito a tomar decisões que afectam a sua vida." É "um pequeno gesto, quase simbólico", mas que lhe permite marcar uma posição sobre "o regime de apartheid existente em Israel-Palestina".

A ideia é simples: entrar no Facebook e acrescentar ElectoralRebellion ao endereço; aí chegado, um eleitor israelita pode transmitir a sua vontade de votar em nome de um palestiniano, que pode depois entrar em contacto com o seu autor na caixa de comentários.

Em conversa com o PÚBLICO, através do Facebook, Tamar Aviyah reforça o motivo que a levou a participar. "Através deste acto simbólico de ceder o meu direito ao voto  um privilégio que me é concedido por ser uma cidadã judaica protegida pela lei israelita  a um palestiniano, que não tem quaisquer direitos devido ao domínio militar israelita, estou a chamar a atenção para a realidade injusta, desigual e antidemocrática em que vivemos."

A sua solidariedade com "a luta pacífica dos palestinianos por um Estado único democrático" fez soar as sirenes da paz a apenas 66 quilómetros de distância, num mundo completamente diferente.

Em Jenin, na Cisjordânia, o jovem cristão palestiniano George Abdallah decidiu aceitar o desafio de Tamar. Com os olhos no computador em primeiro plano e uma bandeira da Palestina lá atrás, Abdallah diz-nos que ficou "surpreendido com o facto de israelitas quererem ceder os seus votos a palestinianos". Por isso, entrou em contacto com Tamar. Na terça-feira, será a israelita a colocar o boletim na urna, mas a escolha será feita pelo palestiniano: George decidiu votar no partido árabe israelita Balad, porque defende "a solução de um Estado único e os direitos dos palestinianos".

Em conversa com o PÚBLICO, diz o que pensa sobre a iniciativa: "Acho que é eficaz e considero que constitui uma resistência pacífica a um regime racista que tem de acabar. Pode ser que afecte o regime." Mas não será para já. O presente ainda faz parte do passado. "Infelizmente não sinto nenhuma mudança nas relações com os israelitas, mas fiquei surpreendido ao descobrir que há israelitas do nosso lado e que há israelitas anti-sionistas", diz.

Defende a solução de um único Estado, porque aquela terra "simplesmente não pode ser dividida". E chuta um exemplo: "É como uma bola. Não podemos dividir uma bola ao meio, senão deixa de ser uma bola." Mas a razão principal chama-se Palestina. "Defendo que esta terra é de todos, excepto dos sionistas. Judeus, muçulmanos, cristãos e fiéis de qualquer outra fé devem poder viver nesta terra", afirma. E nada muda por se ser cristão. "Cristo não nos disse para nos calarmos perante o racismo, o ódio e os crimes", sublinha. George pode sentir o racismo e o ódio, mas "um pouco de humor não faz mal a ninguém". Despede-se da conversa com o PÚBLICO com o argumento final: "Cristo era palestiniano. Nasceu em Belém :)"

Tamar, a israelita que vai ceder o seu voto ao palestiniano George, tem uma visão semelhante. "O território que se chama Israel e a Palestina é a terra natal de judeus e de palestinianos, cada um com a sua cultura, história, narrativa e reivindicações. Reconheço os direitos de todas as pessoas e acredito que devemos partilhar este território."

Um dos responsáveis pela iniciativa é Shimri Zameret, do programa Building Global Democracy, um israelita com uma pós-graduação em Política Global pela London School of Economics e um objector de consciência com dois anos de cadeia no cadastro por se ter recusado a integrar as Forças Armadas de Israel.

Ao telefone com o PÚBLICO, Shimri resume o objectivo da iniciativa: "Salientar a falta de democracia em Israel e a falta de democracia nas Nações Unidas." Não consegue medir o sucesso da campanha em números – os participantes andam "pelas centenas" , mas não têm faltado reacções. "Há pessoas que podem não gostar, mas pelo menos não discordam de que estamos perante uma ocupação antidemocrática", afirma. Admite que há "comentários de ódio, como é normal, mas a maioria das pessoas considera que é uma ideia interessante".

E o que aconteceria a Israel, se os palestinianos pudessem de facto estar nas filas para as mesas de votos nas eleições? "Isso é como perguntar o que aconteceria na África do Sul, se os negros pudessem votar durante o apartheid", responde.

"Caridade" ou "loucura"?

Nem todos os que comentam a iniciativa deixam palavras de apoio. Do lado palestiniano, acusações de paternalismo: "A ideia de 'ceder o voto' é patética, porque é ineficaz e porque vos dá a vocês, judeus 'israelitas', a impressão de que estão a 'ajudar' e a ser 'generosos', por nos 'darem alguma coisa'. Por outro lado, coloca os palestinianos numa posição indigna, como receptáculos da 'caridade' dos ocupantes", comenta uma utilizadora identificada como Nahida Exiled. Do lado israelita também há queixas: "Vocês estão a dar o vosso voto a pessoas que não são cidadãos de Israel e que não são leais a Israel. Isso é uma loucura. Eles preferiam que vocês se fizessem explodir e que matassem outros israelitas, ou que ajudassem o Hamas a direccionar os seus rockets", escreve Alex Perski.

Mas Tamar Aviyah deixa um apelo ao resto do mundo. "Ajudem a parar a propaganda dos media e as ilusões sobre 'a única democracia no Médio Oriente' por oposição aos 'terroristas'. Não façam dos israelitas 'maus' e dos palestinianos 'bons' e vice-versa. A nossa realidade é muito mais complexa do que isso."