Amílcar Cabral queria ter as mulheres ao seu lado na luta. Sempre

Combatentes na frente de guerra, como Carmen Pereira, ou dirigentes do partido em Conacri, como Lilica Boal, foram decisivas para a causa da libertação. As camponesas eram como anjos-da-guarda que protegiam os guerrilheiros

Durante os 14 anos que passou na guerra, Carmen Pereira não sentiu medo da morte. Muitas vezes a olhou de frente. Mas medo, não. Foi ela que quis entregar-se à causa, pela liberdade do seu povo e a libertação da Guiné e de Cabo Verde, como no sonho de Amílcar Cabral. O que sente agora é "orgulho", conta ao PÚBLICO. "Fui cumprir uma missão e essa missão foi a libertação do meu povo."

Como Cabral, na noite em que foi morto por resistir a ser levado, Carmen Pereira teria resistido até ao fim se as tropas portuguesas tivessem cruzado o seu caminho. Talvez por isso tenha chegado onde chegou: a comandante e comissária política da Frente Sul, a mais decisiva da guerrilha para a vitória do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) na guerra. "Preferia morrer a ser levada pelas tropas portuguesas", diz, por telefone, de Bissau. Tinha sempre uma bala guardada no carro. E estava sempre pronta a disparar.

A antiga combatente do movimento, heroína da guerra de libertação, ao lado de Cabral, desfia a luta com pequenas histórias, algumas íntimas, que a História engrandece. Como a de Domingos Ramos, mítica figura da fase inicial da guerrilha. Momentos antes de morrer em combate em Madina do Boé, o comandante escreveu "duas cartas bem pequeninas com o seu próprio sangue e a ajuda de um pauzinho", recorda Carmen Pereira. "Uma carta para Amílcar Cabral a desejar-lhe muita felicidade e a dizer-lhe para nunca parar a luta; a outra para a noiva, a prometer-lhe que um dia se reencontrariam na eternidade."

Muitas outras histórias tem Carmen Pereira para contar, como as das mulheres do campo que "já não queriam o colonialismo". Na sua entrega, foram decisivas para a luta. Levavam, escondidas nos panos em volta do corpo, as mensagens dos combatentes da linha da frente para a fronteira com a Guiné-Conacri, de onde alguém as fazia chegar à capital deste país, onde o PAIGC tinha a sua base.

"Quando os militares estavam cercados pelos portugueses, elas levavam mensagens a avisar", conta. Noutras circunstâncias, iam e voltavam, trazendo a resposta. E nos cestos que transportavam à cabeça escondiam a água e a comida que lhes faziam chegar. Moviam-se como anjos-da-guarda, atravessando aldeias e o mato com a missão de proteger os militares. "Cabral gostava muito das mulheres, e sobretudo daquelas que entendiam o que era a luta", diz Carmen Pereira.

Mobilização feminina

Em 1966, o Comité Central do PAIGC inicia a mobilização de mulheres da Guiné-Bissau e Cabo Verde para a guerrilha. "Era uma vontade de Amíl- car ter as mulheres a seu lado e em cargos de topo", lembra, a partir de Cabo Verde, Olívio Pires, comandante da Frente Leste na Guiné-Bissau antes de assumir a representação do PAIGC no exterior.

Carmen Pereira foi uma dessas mulheres no topo. Nascida em 1936, tinha 24 anos quando se entregou à luta. O marido partira antes para se juntar ao PAIGC e ela só não o acompanhara para ficar a cuidar dos dois filhos. Um dia, decide também ela dar o salto. Pede ao director da PIDE para levar os filhos a ver o marido, inventa que este está fora para se submeter a uma cirurgia de alto risco, sai de Bissau e não volta. É perseguida por enganar as autoridades. Segue com o comandante Pedro Pires (mais tarde Presidente de Cabo Verde) para duas missões à União Soviética, onde frequenta um curso político. Os filhos ficam primeiro em Ziguinchor, no Senegal, e depois em Conacri, entregues à Escola-Piloto, como tantos filhos de combatentes.

Em 1973, nas eleições para a Assembleia Constituinte das zonas libertadas, para preparar a proclamação do Estado em Setembro desse ano, Carmen Pereira é eleita deputada e assume o cargo de segunda vice-presidente da Assembleia.

Mas é sobretudo pelo seu papel na frente militar que ficará como heroína de guerra perseguida pelas tropas inimigas. Foi comissária política da Frente Sul, a mesma em que Nino Vieira era o comandante militar, e a mais decisiva frente da guerra, onde os portugueses tinham quartéis fortificados, como o de Quileje, tomado pelo PAIGC em 1973.

O general Spínola, governador da Guiné-Bissau a partir de 1968, tinha dois alvos principais e ela era um deles, conta. "A maior preocupação dele era apanhar Nino Vieira e Carmen Pereira. Nino Vieira era quem dava as ordens militares, mas mais importante era eu, como comissária política." Mais importante, nota, "porque a política chega mais longe que uma bala". "Num ano, fizeram cinco desembarques para me apanharem." Não conseguiram.

A primeira vez que viu Spínola foi em Portugal, na tribuna de uma cerimónia alusiva ao 25 de Abril. "Puseram-nos lado a lado. Eu nunca lhe disse quem eu era, mas ele desconfiou." Carmen Pereira não sentiu qualquer revolta. "Ele combateu contra nós mas foi derrotado."

Como Carmen Pereira, muitas mulheres se juntaram a Cabral: Francisca Pereira, Teodora Inácia Gomes, Paula Fortes, Satú Camará, Josefina Chantre, Satú Diassi e outras. Titina Silá, combatente e formadora de milícias, que morreu a 30 de Janeiro de 1973, vítima de uma emboscada das tropas portuguesas, quando se dirigia para o funeral de Amílcar Cabral em Conacri, será homenageada em Bissau, no aniversário da sua morte.

Também Amélia Araújo, directora da Rádio Libertação e locutora das emissões em português; era ela quem lia os textos do líder do PAIGC a denunciar a política enganosa das autoridades coloniais e a fome em Cabo Verde; ou Lilica Boal, escolhida por ele para directora da Escola-Piloto em Conacri e que dirá ao PÚBLICO: "Amílcar tinha essa preocupação do género. Dizia que a mulher tinha de lutar pela sua liberdade. Escolheu mulheres em todos os sectores da luta: educação, saúde, informação, logística."

Do Tarrafal para Conacri

Lilica Boal descreve a luta de libertação da Guiné e de Cabo Verde como "uma obra gigantesca" e dá graças por ter tido "a sorte e a oportunidade" de ser parte dela.

Em criança, vivia com os pais no Tarrafal, na ilha cabo-verdiana de Santiago, onde nasceu em 1934. Desde cedo, aprendeu a dar atenção aos movimentos dos presos da colónia penal.

"Os guardas compravam pão, arroz e açúcar aos meus pais, comerciantes, para levarem para dentro da colónia." Esse contacto, embora indirecto, marcou-a muito. "Nunca víamos os presos. Eles entravam e saíam em camiões cobertos", conta, por telefone, a partir da Cidade da Praia.

Mas lá dentro estava um português do Porto cuja história se cruzou com a de Lilica. O pai dele ficava em casa da família dela, quando ia de Portugal visitar o filho. As histórias que contava revelavam-lhe, a ela ali tão perto e pela primeira vez, marcas deixadas pelo regime colonial.

Mais tarde, nos tempos universitários em Portugal, Lilica Boal tem um contacto mais profundo com a revolta dos familiares dos presos. Sente-se próxima dessa realidade e o seu destino começa a ser traçado. Convive com os ideais da libertação na Casa dos Estudantes do Império e foge para se juntar ao PAIGC. Ela e o marido, num grupo de 50 activistas, saem por Espanha, França e Alemanha, onde um avião, enviado pelo Gana, os vai buscar.

Tinha 26 anos e uma menina de 17 meses nos braços, que deixou aos cuidados da mãe, em Cabo Verde. Nos primeiros tempos, no Senegal, assumiu responsabilidades no partido e tratou os feridos de guerra que chegavam por Ziguinchor, na fronteira. "Também vi muitos camaradas que partiam e não voltavam."

Depois foi directora da Escola-Piloto em Conacri, inaugurada em 1965, para acolher filhos dos combatentes e preparar os jovens para a independência. Muitos eram órfãos. "Alguns vinham do interior, eram crianças ou jovens de várias idades. Para mim, foi uma descoberta."

A professora e directora vivia na escola, a dois quilómetros do secretariado do PAIGC, onde estava Cabral. Na noite de 20 de Janeiro de 1973, ouviu tiros. "Chamei os professores para se armarem, mas logo nos foi dito para desarmarem por homens da Guiné-Conacri que passaram numa viatura. Não sabíamos o que tinha acontecido."

No dia seguinte, a cidade amanheceu em silêncio e uma calma estranha invadiu as ruas. Um camião foi buscá-la e a todos os camaradas do partido, para, todos juntos, receberem a notícia.

Lilica perdeu um companheiro de luta e um amigo que, uns tempos antes, lhe mostrara em privado um documento que programava o assassínio. "Na altura, eu não quis acreditar", recorda, como recorda a última vez que viu Cabral. Foi no próprio dia em que foi assassinado, logo pela manhã, quando passou pela escola, como fazia sempre que podia, quase diariamente, para falar com os alunos com a preocupação de minimizar o sofrimento de alguns. "As crianças são a razão da nossa luta e as flores da nossa revolução", costumava dizer.