Uma questão de representação

Imelda, a protagonista de Fulll Firearms, é uma projecção de Sarah Winchester, a esposa e herdeira do fabricante da espingarda homónima, à qual se atribuiu a conquista do Oeste
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Imelda, a protagonista de Fulll Firearms, é uma projecção de Sarah Winchester, a esposa e herdeira do fabricante da espingarda homónima, à qual se atribuiu a conquista do Oeste

Fulll Firearms é a primeira longa- metragem de Emily Wardill. A Kunsthalle Lissabon apresenta-a em estreia nacional: próxima quarta-feira no Espaço Nimas, em Lisboa.

Fulll Firearms (2012) conta a história de Imelda, uma mulher na casa dos 40 que utiliza a sua herança para construir uma casa. Quer dar guarida aos fantasmas que a assombram, espectros que acredita serem vítimas da profissão do seu pai, um fabricante de armas. O arquitecto, embora consciente da demência de Imelda, dá asas à suas ilusões e constrói uma mansão com corredores e escadas que, aparentemente, não têm saída e levam a lugar nenhum.

A primeira longa-metragem de Emily Wardill, que a Kunsthalle Lissabon exibirá, em estreia nacional, na próxima quarta, 23, no Espaço Nimas, em Lisboa, inspira-se na vida de Sarah Winchester, esposa e herdeira de William Wirt Winchester, magnata americano conhecido pelo fabrico da espingarda homónima, "a arma que conquistou o Oeste". Ininterruptamente, durante 38 anos, Sarah dirigiu a construção de uma mansão, a casa Winchester, que é actualmente uma atracção turística em San Jose, no Norte da Califórnia.

O lado onírico do filme não esconde os inúmeros os ecos da realidade contemporânea. Se a história de Sarah Winchester aponta especificamente para a época de unificação e fortalecimento dos EUA, o tema do armamento remete para toda uma história de violência que continua nos dias de hoje - os massacres recentes em Newtown ou em Denver dão aliás uma actualidade extrema a Fulll Firearms. A estas correspondências directas juntam-se outras referências, mais fugazes mas não menos críticas, à história do Ocidente e à sua íntima relação com a indústria do armamento. As breves imagens televisivas de missões militares na Palestina sublinham não apenas o passado do território como protectorado britânico, e as consequentes responsabilidades do pais de origem de Wardill na situação actual, mas também a paradoxal história do continente europeu, que passou de potência bélica a entidade pacifista forçada, enquanto alimenta de forma lucrativa diferentes conflitos internacionais.

Ao contrário da linha documental de Peter Nestler, que em Ausländer. Teil 1. Schiffe und Kanonen (1976-1977) traça uma linhagem directa entre desenvolvimento industrial e comércio de armamento, Wardill cria um universo ficcional sedutor e, aparentemente, pouco lógico, que, no entanto, mantém uma forte dimensão política. Interessa-lhe manipular o estilo, o género, e se possível, como afirma na entrevista do jornal da sua exposição no Artes, "fazê-lo de forma gritante". Acredita na sedução do espectador-pensador, no prazer visual unido a um posicionamento crítico - e em Fulll Firearms, apresenta imagens capazes de realizar este objectivo.

Talvez se possa mesmo falar de uma experiência política totalizante, incorporando todo o processo cinematográfico, desde a produção até à interacção com o espectador. Fulll Firearms foi desenvolvido em workshops no Migrants Resource Centre (instituição inglesa que trabalha com imigrantes e refugiados) em que se exploraram as possibilidades do melodrama. Em simultâneo, e através do modelo de improvisação, questionou-se o papel do realizador, reflectindo sobre a forma como a produção cinematográfica pode iniciar um processo político para todos os intervenientes.

Há ainda espaço para uma forte componente psicológica. O filme encontra-se permeado de referências à psique humana: o espelho de Lacan ou a sexualidade de Freud, por exemplo. As transparências, os reflexos e os enquadramentos dentro do enquadramento (as janelas, a televisão, as sombras, etc.) remetem para as dimensões interiores das personagens.

Fulll Firearms incorpora toda uma série de elementos que indicam o interesse de Wardill em investigar o regime visual de representação, tema central no seu trabalho e questão seminal do meio cinematográfico. A recuperação da história de Sarah Winchester no interior de um pensamento sobre a indústria de armamento internacional, em alternância com questões relacionadas com a migração, assinala uma reflexão profunda sobre a flexibilidade da identidade e a consequente dificuldade de produzir representações permanentes. A maquete da casa em construção aparece, assim, como metáfora, mero adereço de um teatro de sombras. A própria mansão Winchester, referente da casa de Imelda, é hoje atração turística. Talvez seja esse o significado do "l" extra do título do filme, a impossibilidade de incorporar a totalidade múltipla de uma pessoa, de uma história, de um espaço, ou de um tempo, num modelo de representação já existente, numa palavra como full. "Eu não quero ser descrita." diz Imelda.