Uma Arco para todos, sempre a pensar em alargar o mercado

Feira de arte contemporânea de Madrid foi apresentada em Lisboa esta quinta-feira. Das 205 galerias participantes, 11 são portuguesas. O director quer que a Arco continue a mostrar o caminho aos coleccionadores privados e públicos. Mesmo no meio da crise.

Carlos Urroz fotografado hoje em Lisboa
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Carlos Urroz fotografado hoje em Lisboa Rui Gaudêncio

A Arco de Carlos Urroz é a feira dos encontros e dos artistas, mas também dos coleccionadores, dos museus e do mercado. O director da feira de arte contemporânea de Madrid, que este ano tem a Turquia como país convidado, diz que é urgente inventar modelos de negócio e cativar novas galerias e coleccionadores, atraindo um público cada vez mais abrangente.

Para isso, disse esta manhã aos jornalistas na Fundação Leal Rios, em Lisboa, a Arco (13 e 17 de Fevereiro) conta em 2013 com uma loja digital em que as galerias participantes – 205 de 30 países  – poderão pôr à venda obras de valor inferior a cinco mil euros, e com um serviço de consultoria para apoiar os coleccionadores menos experientes, que já funcionou na última edição.

“Temos vindo a comprovar que há uma renovação geracional no mercado da arte contemporânea e queremos contribuir para ela e para a construção de uma identidade nova a partir de uma selecção rigorosa”, explicou, apontando algumas das estratégias a seguir para que a feira continue a ser destino obrigatório para quem vende e para quem compra. Os curadores de museus são importantes neste cenário. A pensar neles, a Arco organiza o II Encontro de Museus da Europa e América Latina, co-dirigido pelo curador português João Fernandes, que hoje integra a equipa do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía. A pensar neles, Urroz convidou dez directores de museus norte-americanos, que viajarão a Madrid acompanhados por representantes dos respectivos patronatos, determinantes na hora de decidir o que a sua instituição vai, ou não, adquirir.

Urroz, que acredita que a função de uma feira de arte é “gerar coleccionadores e mercado novo”, diz que o grande desafio da edição de 2013 e das seguintes é continuar a dar ao público e aos galeristas motivos para estar em Madrid, num quadro económico em que as verbas para viagens, promoção internacional e aquisições são reduzidas. As vendas online têm cada vez mais potencial, acrescenta o director da feira, na mesma linha do que vêm defendendo as grandes leiloeiras, como a Christie’s. “É preciso criar alternativas. As galerias são pequenos negócios que têm sofrido muito com a crise.”

As portuguesas não são excepção, embora o número de participantes deste ano seja o mesmo do anterior – 11, de Lisboa, Porto, Braga e Ponta Delgada -, com apenas uma estreante, a 3+1 Arte Contemporânea, que entra no programa Opening, que a Arco dedica aos novos projectos. “É uma presença muito significativa”, defendeu Pedro Cera, galerista português que faz parte do comité de selecção da feira. Sobretudo quando não há, para já, qualquer apoio da Secretaria de Estado da Cultura. O protocolo para a internacionalização que existia entre a SEC e a Associação Portuguesa de Galerias de Arte terminou no ano passado e ainda não foi renovado, explicou Cera. “Creio que estão em negociações mas, se houver algum apoio oficial será posterior, porque para esta edição já não chegará a tempo.” 

A galeria de Carlos Carvalho vai levar o trabalho do fotógrafo Daniel Blaufuks, a Baginski aposta em André Romão e a Filomena Soares em Pedro Barateiro. Vera Cortês representa o alemão Daniel Gustav Cramer e Cera o americano Matt Keegan.

Os portugueses são essenciais à feira, que no ano passado recebeu 137 mil visitantes, diz, por seu lado, Urroz. É de Portugal que vem a maior fatia do público estrangeiro e são muitos os coleccionadores nacionais que se deslocam a Madrid.

O convidado

Na 32.ª edição da feira, a Turquia é o país convidado, juntando-se, assim, a uma lista de que já fazem parte a Rússia (2011), a Índia (2009) e o Brasil (2008).   

O programa, comissariado pelo escritor Vasif Kortun, vai dar um panorama da arte contemporânea turca e está ancorado em dez galerias sediadas na capital. “Istambul é uma cidade cheia de galerias interessantes e com centros culturais muito atentos ao que se faz em todo o mundo”, diz Urroz. O boom deu-se nos últimos dez anos e reflecte-se na actividade de instituições públicas e privadas como o Museu de Arte Moderna, a Plataforma Garanti e o centro multidisciplinar SALT, e nas bienais e feiras de arte, que atraem cada vez mais coleccionadores a Istambul.

“As galerias turcas vão estar espalhadas pelo recinto, não formarão um gueto”, explica o director da Arco. “Também vamos organizar visitas guiadas para que o público fique a conhecer melhor estes artistas que viveram as transformações da Turquia dentro e fora do país, e que têm uma linguagem muito internacional.”

Como complemento à feira, vários espaços madrilenos expõem a obra de artistas turcos, como Halil Altindere (Centro de Arte 2 de Maio) e Ali Kazma, que vai representar o seu país na Bienal de Veneza deste ano (Videomix está no centro La Casa Encendida).

Na apresentação da Arco em Istambul, em Novembro passado, as autoridades turcas reconheceram que embaixadas como as que levam a Madrid fazem parte da estratégia de desenvolvimento e promoção do país. “A nossa política cultural continuará a melhorar em paralelo com o desenvolvimento económico e a estabilidade política da Turquia”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros de Ancara, citado pelo Hurriyet Daily News, a edição em inglês do maior jornal turco.

Numa altura em que as feiras de arte internacionais estão cada vez mais parecidas umas com as outras, Carlos Urroz quer fazer da Arco um espaço “menos frenético”, em que artistas, curadores e público têm tempo para conversar. “Hoje há poucos recursos. Não podemos fazer a nossa vida sozinhos.”

 
 
 
 
 
 

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