O caso de O Império dos Sentidos, o filme que ensinou ao arcebispo de Braga mais do que 67 anos de vida

O realizador japonês Nagisa Oshima morreu esta terça-feira aos 80 anos na sequência de uma pneumonia.

O Império dos Sentidos, o mais famoso filme de Oshima (1976), passou às 21h55 de uma terça-feira de 1991, dia 19 de Fevereiro, na RTP2. Gerou uma vaga de protestos e de discussão pública que chegou à mesa do então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. Numa penada, Oshima tornava-se num nome conhecido no mainstream português e uma memória de cultura popular para quem viveu aquele ano de 1991 - que terminaria, na noite de 31 de Dezembro, com um sketch de Herman José a celebrar a agitação causada pelo filme sobre Sada (interpretada por Eiko Matsuda) e Kichizo (Tatsuya Fuji), que com ela embarca numa relação intensa e num crescendo obsessivo.

"É uma obra-prima e um filme violento pelas questões que coloca e pela forma como as coloca, confrontando o espectador com as questões essenciais da natureza humana: o amor e a morte, o amor-sexo, o prazer", diz Lauro António, realizador e programador.

Neste filme de um dos grandes "cineastas do corpo", como o descreveu em 2008 o crítico Augusto M. Seabra, há reflexão sobre o drama humano, mas também sexo explícito, ovos cozidos e uma castração, ingredientes que logo na manhã seguinte eram tema de conversa nas escolas, nos escritórios e numa rábula de Herman José na TSF. E que encheriam páginas de jornal nas semanas seguintes. "Um filme belíssimo, apesar do erotismo violento, também por um aspecto muito transgressor para a época que é o facto de no acto amoroso ser a mulher a conduzir o jogo e a levar mesmo à castração do amante na cena final", segundo Lauro António, que dois anos após a polémica se tornaria programador de cinema do novo canal privado TVI.

O filme, que ainda hoje não pode ser exibido no Japão na versão integral, esteve proibido nos EUA e foi censurado no Reino Unido. À televisão portuguesa chegou sem estrondo, depois de ter estreado em sala em 1976. O semanário Se7e titulava a 17 de Janeiro "Arigato, RTP" antecipando a programação do "estimulante" O Império dos Sentidos um mês mais tarde; em Fevereiro, O Jornal escrevia: "O sexo explícito a irromper num filme não pornográfico e a nossa televisão a ultrapassar as melhores expectativas".

Os tempos de Pato com Laranja - o filme, de 1975, com Monica Vitti mostrava mamas e rabos e a sua exibição na RTP em 1983 foi interrompida devido aos protestos de espectadores e levou à demissão do então presidente do conselho de administração da estação - pareciam ultrapassados. Podia-se programar o vídeo para gravar A Lei do Desejo, de Almodóvar, na noite de sábado, e depois na terça para O Império dos Sentidos. Entretanto, via-se a novela Tieta, que logo no genérico destapava o seio do problema, no canal 1, mas o clip cantado que enviava os miúdos para a cama agora chegava antes da novela. Mas surgiu OImpério dos Sentidos.

Fizeram-se sondagens e manifestações, pediram-se demissões e proferiram-se frases que ficaram. Como a do arcebispo de Braga, D. Eurico Nogueira: "Aprendi mais em meia-hora a ver O Império dos Sentidos do que em 67 anos de vida", disse ao Expresso, confessando ter tido "horríveis vómitos" após o visionamento. Ao PÚBLICO disse na altura que o melhor horário para "filmes assim" seria "às duas ou três da noite, que será hora adequada para marginais e certos doentes". O CDS pediu a demissão do conselho de administração da RTP e dos responsáveis pela programação e informação dos seus dois canais, D. Eurico Nogueira pediu a demissão do director de programas da RTP2 e Cavaco Silva pediu um apurar de responsabilidades sobre o caso ao ministro Couto dos Santos.

Assim, Oshima passava de cineasta com a "caução cultural" de O Enforcamento, A Cerimónia ou Um Verão em Okinawa, todos estreados nas salas portuguesas, a realizador do filme alegadamente pornográfico de que todos falavam. Já em 1976, quando chegou às salas, o filme "tinha provocado um certo burburinho na intelectualidade, apesar de muito bem aceite do ponto de vista estético e cinematográfico", lembra Lauro António. Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade estavam entre os espectadores e a romancista saiu a meio do filme - ele não condizia com a sua educação "e não se deve ir contra a educação que se teve, é muito perigoso"(1991, Expresso). Eugénio de Andrade ficou na sala e à saída disse a Agustina que ela tinha razão ao dizer que O Império dos Sentidos "é o filme daquilo que não serve para espectáculo, que é o amor absoluto": "essas coisas são para se fazer e não para se ver", rematou Eugénio.

Voltando a 1991 e passada a tormenta, Herman José, Rosa Lobato Faria e São José Lapa faziam uma rábula no Hermanias de fim de ano que "teve um impacto doido na altura, no dia seguinte toda a gente falava nisso", recorda o humorista, que já em 1988 vira Humor de Perdição "suspenso por ter feito um sketch sobre a rainha D. Isabel", uma das entrevistas históricas escritas por Miguel Esteves Cardoso. Quatro anos mais tarde, "os mesmos poderes da igreja pediram a suspensão do programa num abaixo-assinado com 250 mil assinaturas. Até à chegada das televisões privadas tudo parecia legítimo para satisfazer a pulsão censória da gigantesca camada puritana da sociedade portuguesa, que ainda existe". Pôde fazer o sketch pela "enorme latitude" dada pelo director de programas, José Eduardo Moniz - havia "toda uma abertura na RTP porque estava a começar a falar-se das privadas", "um dos maiores gestos de liberdade na sociedade portuguesa".

O Último Tango em Paris seria exibido na TV um ano depois de O Império dos Sentidos, sem agitação, e fazia parte de "um pacote de filmes proibidos no tempo da censura" que após 1974 foi chegando aos cinemas portugueses. Nesse grupo, O Império dos Sentidos foi "um filme-choque que abananou uma sociedade que enfrentava realidades que até aí lhe tinham sido escondidas", contextualiza Lauro António.

A passagem do cinema, sala escura do anonimato, para a sala de estar em que "temos um espelho em nós, no rosto, do filme" causa "um embaraço, uma hipocrisia posta a descoberto", arrisca Lauro António, autor de Censura e Cinema em Portugal. "Há obras que são de tal forma provocatórias no seu tempo que provocam reacções. E esse é o motivo pelo qual foram feitas. As polémicas são a forma de a sociedade assimilar as novidades."