"Estou cansado" é a desculpa dos homens para a falta de interesse sexual

Estudo diz que mais de 10% dos homens portugueses dizem ter falta de interesse sexual. A culpa é do cansaço, alega metade.

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Cansaço e stress são os argumentos para a falta de interesse sexual dos homens Daniel Rocha

Os dados fazem parte do “Estudo transcultural sobre factores associados ao interesse sexual masculino”, que será apresentado nesta segunda-feira no ISPA - Instituto Universitário, em Lisboa, coordenado pela psicóloga clínica e investigadora Ana Carvalheira, em parceria com os investigadores Aleksandar Štulhofer, da Universidade de Zagreb, na Croácia, e Bente Træen, da Universidade de Olso, na Noruega.


No trabalho, 10,5% dos portugueses admitiram ter tido falta de interesse sexual por um período de pelo menos dois meses ao longo do último ano e com perturbação pessoal. Ana Carvalheira, também presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, destaca que o valor é “elevadíssimo, sobretudo se tivermos em conta que a amostra tem uma média de idades que anda na casa dos 30 anos”. Ainda assim, os valores foram mais elevados na Croácia, com 17,4%, e na Noruega, com 22,7%.

O estudo contou com uma amostra de 5255 homens de três países: Portugal (2863 participantes), Croácia (1735) e Noruega (657). Os dados foram recolhidos através de um inquérito online, que foi disponibilizado entre Setembro e Dezembro de 2011, pelo que Ana Carvalheira salienta ao PÚBLICO que não são representativos da população, ainda que dêem boas pistas de investigação.

Mais problemas dos 30 aos 39 anos
Quanto a diferenças por grupos etários, ao todo, os homens com mais de 60 anos foram os que reportaram menos problemas (10%), seguidos dos homens com 18 a 29 anos (16,7%). O grupo mais afectado tem idades compreendidas entre os 30 e os 39 anos (24,1%), seguindo-se os homens com 40 a 49 anos (21,5%) e os com 50 a 59 anos (21,4%).

Questionados sobre as razões a que atribuem a perda do interesse, em Portugal a resposta "cansaço" foi dada por 50,8% e o "stress profissional" por 49,4%. Números elevados, mas que ainda assim ficam aquém das respostas dadas na Croácia e Noruega no caso do cansaço. Em termos de stress profissional, o valor foi bastante mais elevado na Croácia (61,4%) e mais baixo na Noruega (33,1%).

Porém, Portugal regista números mais elevados de insatisfação no que diz respeito ao parceiro ser sexualmente passivo (27,7%). Mais de 14% dos inquiridos atribuíram a “culpa” ao facto de estarem há muito tempo com a mesma parceira. Para Ana Carvalheira, o estudo traz um outro dado interessante: 11,8% dos inquiridos portugueses acreditam que o facto de verem muita pornografia pode estar a reduzir o interesse sexual, e 15% destacaram a masturbação.

“Este estudo permite-nos perceber que a perda de interesse sexual nos homens, e que estava pouco estudada, não é uma equação simples, tal como não é nas mulheres. Os homens também são perturbados por questões interpessoais e emocionais, ainda mais em faixas etárias que correspondem a períodos de grandes acontecimentos da vida, como a paternidade, o casamento e também o divórcio e a carreira profissional”, sublinha Ana Carvalheira. A análise permitiu também perceber que os homens que reportaram falta de interesse sexual revelaram mais vezes elevados níveis de ansiedade e depressão.

Mudanças sociais
Mas Ana Carvalheira acredita que as mudanças sociais nomeadamente ao nível do papel da mulher e do homem também contribuem para estes dados: “Assistimos hoje a uma enorme banalização do sexo e essa retira o erotismo. Acredito que uma das grandes razões seja essa. Não há um sentido do privado e é tudo explícito, o que não permite espaço para a elaboração e imaginação.”

Quanto às “comorbilidades”, isto é, as doenças ou situações clínicas que podem estar a contribuir para esta insatisfação, a investigadora indica que 32,5% dos homens portugueses referiram a dificuldade em conseguir ou manter a erecção e 26% disseram ter ejaculação rápida. Há ainda 11,7% que não conseguem mesmo atingir o orgasmo e 2,5% que sentem dor.


Dados que vão, aliás, ao encontro dos casos que a psicóloga recebe no seu consultório. “A maior parte dos homens que me pede ajuda ainda não é por estas questões, mas nota-se que são cada vez mais, sobretudo por ejaculação demasiado rápida, o que também poderá ter a ver com a crise e com a dificuldade em lidar com o stress e com os problemas no trabalho”, adianta.

Segundo as estimativas da Sociedade Portuguesa de Andrologia, a disfunção eréctil, que se traduz na incapacidade de obter uma erecção, afecta 13% dos homens em Portugal, o que corresponde a cerca de 500 mil pessoas. Apesar disso, a dificuldade em pedir ajuda a profissionais continua a persistir. Um outro estudo internacional divulgado em Maio do ano passado, patrocinado pela farmacêutica Lilly e realizado pela agência de estudos de mercado SKIM Healthcare, revelou diferenças culturais bastante marcadas neste tema. Portugal estava entre os países onde é menos provável que os homens com este problema abordem os profissionais de saúde (12%). A preferência vai para a Internet, com 46%; para os livros, com 28%; para as revistas (18%) e para o cônjuge (14%).