Opinião

O alunão

Acabou o primeiro período, reuniram-se os professores e procedeu-se à avaliação do trabalho dos alunos e à atribuição, quando é o caso, das classificações. A maioria dos miúdos, felizmente, sairá bem tratada do processo.

Com classificações mais ou menos elevadas ficarão contentes e o espírito natalício, apesar da sua revisão em baixa face à austeridade dominante, encarregou-se de os compensar também da forma possível, pois, como se sabe, o espírito natalício não é igual para todas as famílias, algumas terão tido muito pouco espírito natalício este ano.

Outros alunos, apesar de alguns resultados menos positivos, com o apoio dos professores e da família e, naturalmente, com o seu esforço, encararão o resto do ano com uma atitude positiva e de confiança assumindo a convicção de, como se diz, “vão lá”, “são capazes”. Assim deve ser, os miúdos são capazes, como o povo diz “se houvera quem me ensinara, quem aprendia era eu”. Aliás, os resultados conhecidos recentemente nos estudos comparativos internacionais são testemunhas disso mesmo.

No entanto, haverá um grupo de alunos, deseja-se pequeno, de quem a escola, mesmo estando no primeiro período, desistirá, por impotência ou demissão. São, por exemplo, os miúdos que “não vão lá”, seja porque “com a família que tem não é possível”,porque "coitado, não é muito dotado, já o irmão quando cá andou assim era”, porque “não se interessa por coisa alguma, não anda aqui a fazer nada” ou por outra qualquer apreciação entendida como razão justificativa para a dificuldade. Muitos destes alunos, tal como a escola desiste deles, também eles desistirão da escola, confirmando a antecipação do insucesso, assim e desde já estabelecido.

Num tempo em que a grande orientação é reaproveitar e reciclar o que não serve ou não presta e considerando o caminho de municipalização da educação já enunciado pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), pode acontecer que os municípios, sob a orientação do MEC procedam à instalação de um novo recipiente nos ecopontos que quase sempre existem perto das escolas. Assim, junto do vidrão, do pilhão e dos outros contentores, existiria um "alunão", um recipiente onde se colocariam os alunos que "não servem" ou "não prestam" e esperar que algo ou alguém os recicle e devolva à escola novinhos, reciclados, cheios de capacidades, competências e capazes de percorrer sem sobressaltos o caminho do sucesso.

Em alternativa, estes alunos podem ser desde logo canalizados, reciclados, para uma via profissional dada a sua falta de "jeito" ou "competência" para as mais exigentes tarefas intelectuais que conduzem ao sucesso escolar.

A propósito destes alunos, o grupo que experimenta algum tipo de dificuldade, o ministro Nuno Crato afirmou há poucos dias em entrevista à RTP que o MEC estima em cerca de metade o número de alunos do ensino básico que poderão precisar dealguma forma de apoio dadas as suas dificuldades. Assim sendo, o ministério vai disponibilizar cerca de 47.000 horas de trabalho docente para providenciar este apoio.

Como é sabido, o MEC decidiu eliminar os chamados Planos de Recuperação que serão substituídos por dispositivos de acompanhamento pedagógico logo que se detectem dificuldades nos alunos.

É certo que os Planos de Recuperação em larga medida não "recuperavam" de forma satisfatória os alunos, "recuperando", sim, uma enorme burocracia, falta de recursos adequados e dificuldades de organização. Embora me cause alguma estranheza o número catastrófico avançado pelo MEC, metade dos alunos, a medida anunciada de disponibilização de 47.000 horas de trabalho docente parece insuficiente para as dificuldades realmente existentes ainda que abaixo da referência do ministro se considerarmos os indicadores conhecidos.

Por outro lado, do meu ponto de vista, muitas das medidas da PEC – Política Educativa em Curso, aumento das turmas, mega-agrupamentos, cortes nos recursos humanos, normalização das respostas com uma estrutura rígida de metas de aprendizagem em número dificilmente operacionalizável, reforma curricular incipiente, etc., etc., não parecem favoráveis à qualidade do trabalho de alunos e professores, nem para assegurar a qualidade e quantidade dos recursos para o necessário apoio pedagógico.

Este cenário contribuirá, gostava de estar enganado, para novas dificuldades que se candidatarão a esta estratégia remediativa agora enunciada por Nuno Crato.

O apoio pedagógico, ou acompanhamento como é designado, tem de passar por uma correcta avaliação das dificuldades dos alunos permitindo assim que o apoio seja dirigido para essas dificuldades e não apenas mais trabalho da mesma natureza. Nesta perspectiva torna-se necessária formação acrescida bem como recursos diferenciados.

Em sala de aula, a utilização, por exemplo, de parcerias pedagógicas parece uma medida potencialmente eficaz. Deveria aligeirar-se a burocracia envolvida, com custos razoáveis de tempo, e, finalmente, criar dispositivos de regulação e avaliação das intervenções que permitam a sua correcção e eficácia.

A questão é que não vislumbro que a generalidade das escolas e agrupamentos tenha os recursos adequados, sendo que os discursos produzidos sobre os caminhos próximos da educação não permitem grande optimismo, antes pelo contrário. Por mais que nos esforcemos, a realidade não é a projecção dos nossos desejos.

José Morgado é professor universitário