O exuberante Te Deum de António Teixeira

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Te Deum, de António Teixeira (oratória em versão encenada)Coro e Orquestra Barroca Casa da MúsicaDirecção musical de Lawrence CummingsDirecção cénica de Martin ParrCasa da Música, 15€ Hoje, às 18h

A primeira (e até agora única) gravação do Te Deum, de António Teixeira (1707-1774), realizada em 1992 pelo maestro britânico Harry Christophers e pelos seus agrupamentos The Sixteen e The Symphony of Harmony and Invention, deu a conhecer ao mundo uma obra exuberante, composta para meios musicais monumentais: oito solistas, cinco coros e orquestra. Reeditada em 2002 pela própria etiqueta discográfica dos The Sixteen (Coro), permanece como uma das grandes revelações da música setecentista portuguesa e como exemplo emblemático do esplendor musical da corte de D. João V. O seu autor foi um compositor talentoso e multifacetado, que estudou em Roma a expensas da corte e que escreveu música para contextos aparentemente tão antagónicos como a Capela Real e Patriarcal e as Óperas de António José da Silva, o Judeu, interpretadas no teatro de bonifrates do Bairro Alto.

Hoje, às 18h, o Coro e a Orquestra Barroca Casa da Música, sob a direcção de Lawrence Cummings (na foto), interpretam pela primeira vez o Te Deum, de Teixeira, originalmente escrito para a cerimónia de Acção de Graças do dia de São Silvestre (31 de Dezembro) na Igreja de São Roque, em Lisboa, onde terá sido estreado em 1734. Iniciada pelos jesuítas, a prática de cantar um Te Deum solene no último dia do ano passou a adoptar a partir de 1718 o modelo cerimonial de Roma por iniciativa de D. João V, perdurando até ao século XIX. Durante a primeira metade de Setecentos, as técnicas policorais do barroco colossal romano (frequentemente combinadas com influências operáticas como sucede na obra de Teixeira) dominaram os Te Deum em São Roque no âmbito de cerimónias cada vez mais brilhantes num cenário que incluía faustosas decorações da igreja e a presença da família real, do corpo diplomático, dos altos dignitários eclesiásticos e da população em geral. Além de Teixeira, compositores como Frei Antão de Santo Elias, Cristóvão da Fonseca, Carlos Seixas, Domenico Scarlatti e João Rodrigues Esteves escreveram versões do Te Deum a vários coros para esta ocasião, testemunho paradigmático da combinação entre a exaltação do poder divino e do poder real.

A tradição do Te Deum de fim de ano na Igreja de São Roque foi retomada em 2011 pela Gulbenkian e, por coincidência, contará também no final de 2013 com a interpretação da mesma composição de António Teixeira pelo Divino Sospiro, sob a direcção de Jorge Matta. Enquanto neste caso tem havido uma certa tentativa de evocar as práticas cerimoniais setecentistas, a Casa da Música faz outro tipo de proposta, apresentando uma versão encenada pelo actor Martin Parr, responsável por um trabalho na mesma linha em torno de O Messias, de Handel.

O desafio desperta curiosidade pois um Te Deum não é uma oratória nem uma cantata, mas sim um hino laudatório e como tal desprovido de uma componente dramatúrgica evidente.