David Bowie existe a um nível muito profundo da nossa sociedade

Geoffrey Marsh, o curador da exposição David Bowie Is, desvenda o seu fascínio pelo artista e o que se vai poder ver no museu Victoria & Albert, em Março

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Fato às riscas para Aladdin Sane, tournée de 1973 Masayoshi Sukita - The David Bowie Archive 2012

Este ano, começa-se já a definir, será o ano de David Bowie. O lançamento de um novo single, Where are we now?, no dia em que completou 66 anos, a 9 de Janeiro, e o anúncio do novo álbum para Março, The Next Day, trouxeram-no de volta ao lugar de onde nunca saiu: a nossa memória colectiva. É nisso que acredita Geoffrey Marsh, curador do museu britânico Victoria & Albert que prepara, há mais de um ano com a colega Victoria Broackes, David Bowie Is - uma exposição sobre a influência do músico na sociedade contemporânea. Sem intervenção de Bowie, e da inteira responsabilidade da equipa do museu, a partir de 23 de Março em Londres, quase mil metros quadrados serão ocupados pelas mais de 600 peças da colecção privada do músico, que deu acesso total aos curadores.

Como é que o anúncio de um novo álbum influencia a montagem da exposição David Bowie is?
Sabíamos que estavam a ser preparadas algumas surpresas para este ano mas não sabíamos exactamente o quê. No dia de lançamento do novo single de David Bowie confirmámos com o autor da capa do álbum, Jonathan Barnbrook, que nos está a ajudar na montagem da exposição, que íamos poder contar com esse material, assim como com os bonecos de Tony Ousler [realizador do vídeo do singleWhere are we now? ] . É muito entusiasmante pensar que uma exposição criada para mostrar a influência de David Bowie desde os anos 1960 na cultural popular e a sua relevância hoje, possa contar com novo material. E eu, que sou um fã confesso de Bowie não podia estar mais entusiasmado.

Com que impressão ficou depois de mergulhar na colecção?
Ele tem, continua, e provavelmente continuará, a trabalhar muito e arduamente. Vive fascinado pelo modo como as coisas se vão metamorfoseando ao longo da vida e pelos seus processos de aceleração e abrandamento. Ele gosta de provocar porque acredita no enorme potencial de cada um para o qual, na sua maioria, as pessoas não sensíveis. Não achamos que a história tenha ou vá chegar, rapidamente, a um final. Na verdade, a história parece confirmar as viagens de Major Tom, a navegar erraticamente por outras dimensões.

Como se começa a compreender alguém que foi chamado de Camaleão?
É preciso perceber que Bowie, sendo inglês, não partilha da visão anglo-saxónica do mundo, que é pragmática. Muita da história de Bowie tem sido feita por jornalistas especializados em música rock através dos álbuns. Mas se contarmos a história de um outro ângulo, o que vamos encontrar é muito mais interessante. A chave está nos anos 70, quando Bowie surge como Ziggy Stardust. Mas é preciso ir mais atrás, até 1947, ano em que nasce, numa Londres parcialmente destruída pelos raides aéreos alemães e sujeita a um racionamento até 1954. Ora, Bowie deixou a escola em 1963 numa altura em que bandas como os Beatles e Gerry and the Pacemakers estavam a começar, para tentar um lugar no teatro musical. E, ao mesmo tempo que ia experimentando a música, foi só em 1968, quando conheceu Hermione Farthingale [sobre quem escreveu Letter to Hermione, incluído no primeiro álbum], uma bailarina com treino clássico que começou a aprender imenso sobre teatro. Nesse ano Bowie fez uma audição para o musical Hair, uma peça radical sobre o Vietname, estreada primeiro em Nova Iorque, e a primeira peça com nudez integral a estrear em Londres depois do fim da censura. Mas não foi aceite. O que não se sabe, por exemplo, é que o fotógrafo Brian Duffy, que faria a capa de Alladin Sane (1973), havia adquirido os direitos de adaptação da peça radical Oh what a lovely war, de Joan Littlewood, para filme. Bowie e a namorada conseguiram um papel no coro. Ora, o Space Oddity foi escrito nesta altura, em que ele andava a perceber o que existia entre o que fica de fora e o que entra num palco. Bowie estava muitíssimo bem posicionado para absorver todas estas coisas.

Era uma altura em que a própria música, acompanhando movimentos de transformação em outras áreas, se confrontava com os modelos narrativos estabelecidos e se permitia abalar as fronteiras da própria arte.
Sim, absolutamente. Londres, numa altura em que o teatro independente e radical explodia por todo o lado, vê chegar à cidade o experimentalismo do colectivo americano The Living Theatre a par dos ecos das manifestações em Paris de 1968. Foi este mundo que fascinou este rapaz vindo da zona Este de Londres. O seu interesse pelo teatro musical era de tal forma que, em 1973, Bowie solicitou à viúva de George Orwell autorização para adaptar o romance 1984 para palco, mas não foi aceite. E foi daí que nasceu o álbum Diamond Dogs (1974), que é um concerto completamente encenado. Claro que antes já Bowie tinha visitado a Factory, de Andy Warhol, em Nova Iorque, onde o seu agente tinha comprado, em 1966, uma gravação de um álbum de Lou Reed and the Velvet Underground que era, também, uma forma completamente diferente de fazer teatro musical.

Há no trabalho de Bowie uma intuição que se torna fascinante. Mas estes artistas estavam conscientes de que viviam em tempos de mudança ou eram mais estrategas do que se quer admitir?
É muito difícil de explicar de forma evidente o click que se terá dado na cabeça de Bowie em 1968-69, mas é o exemplo de promoção do Space Oddity que pode aproximar-nos do que pergunta. Pensa-se que foi escrito para coincidir com a chegada do homem à lua, em 1969, mas na verdade, ele escreveu o álbum por volta do Natal de 1968. Ora, [o presidente norte-americano] John F. Kennedy, havia dito que o objectivo era colocar um homem no espaço até ao fim da década, mas não havia forma de Bowie imaginar que isso ia realmente acontecer. Na altura, havia sido lançada ao espaço a missão Apollo 8, que deu a volta à Terra e a tirou as primeiras fotografias do planeta visto do espaço. Essa imagem foi publicada, nos Estados Unidos na revista Time mas, em Londres, o jornal The Times só a publicou a 6 de Janeiro num encarte a cores, porque então só imprimiam a preto e branco - e esse encarte estará na exposição - o que significa que a canção não tem nada que ver com a chegada do homem à lua mas com uma questão muito maior: o que é que significa o planeta Terra e o que queremos em conjunto.

Essa ideia de colectivo estava a ser transformada nessa época.
Precisamente. No final dos anos 1960, discutia-se a natureza da sociedade. Ter esta consciência seis meses antes da alunagem releva o modo como ele absorvia o que o rodeava. Quando o single foi relançado, em Julho, a BBC baniu-o das suas emissões, não fosse a alunagem correr mal. Mas depois foi a banda-sonora que usou para acompanhar as imagens.

Consegue-se identificar quando é que Bowie começou a agir de acordo com a imagem que dele tinham?
As coisas são mais complicadas do que isso. Bowie teria sempre um conjunto de ideias a pairar na sua cabeça e depois, quando encontrava uma via para as explorar, avançava. Por exemplo: a sua amizade com Marc Bolan [guitarrista e vocalista da banda britânica de glam rock T.Rex], data de 1971, altura em que o glam rock estava a surgir - e o ponto alto dá-se em 1975, com a adaptação ao cinema do álbum Tommy, dos The Who - mas se o glam não tivesse acontecido, é difícil dizer que Bowie não tivesse continuado a trabalhar com essa ideia de encenação. Se olharmos para o início da sua carreira, são anos em que ele anda a experimentar, até descobrir o lado mais performático das coisas. E a partir daí, a sua vida tem sido uma constante representação.

Nessa análise, faz uma distinção entre vida privada e pública?
Com alguém assim, onde é que começa uma e acaba outra? O que é interessante de analisar são as formas que Bowie encontrou para se fechar do mundo, como quando decidiu ir para Berlim nos anos 70 [o novo single recorda esse período]. Na verdade, para ele tudo é representacão e essa ideia está já no início da sua carreira. Bowie foi aluno de Lindsey Kemp, um actor que foi também mimo e não se sabe se tiveram ou não um caso. Mas foi Kemp quem o levou para uma série de filmes onde era sempre type-casted. Vistos hoje, são presenças absolutamente marcantes, em que não conseguia separar a aparência exterior da interior. O que Bowie fez foi continuar isso mesmo.

O modo como viveu a sua vida pública faz com que a sua presença, mesmo ausente, se tenha sempre sentido.
Sim, porque ele é muito influente. Se pesquisar no Google: Queen Elisabeth e Bansky, vai encontrar um mural em Bristol, que não importa se é ou não da autoria de Bansky, onde a rainha aparece com o mesmo raio de luz vermelha, tal como Bowie na capa de Alladin Sane. Ele existe a um nível tão profundo que se infiltrou na nossa cultura popular e contemporânea, que se tornou normal considerá-lo presente mesmo quando ausente.

Hoje pode ser-se propriedade pública sem se fazer nada. É insano.

Podemos considerar que é um comentário que faz à sociedade do espectáculo, descrita pelo filósofo Guy Debord e que, em certa medida, anunciou o seu surgimento?
Historicamente, se olharmos para a Europa, houve períodos em que as pessoas influentes se mostravam publicamente. Fazia parte da sua relação simbólica com as outras. Mas isso desapareceu e passou a decorrer dentro de palácios e para um grupo restrito de pessoas. Hoje, quando vivemos numa era digital, em que a presença pode ser constante, ter a confiança e a destreza de não estar em exibição, é algo de surpreendente. A grande diferença de Bowie é que, ao contrário de outros grupos, nos anos 1980, como os Pet Shop Boys, ou agora a Lady Gaga, não teve que preencher qualquer vazio. Ou pelo menos, não o mesmo vazio. Marcel Duchamp fez o mesmo quando, nos anos 1920, deixou de produzir e considerou que o grande gesto criativo era jogar xadrez [publicou, mais tarde, o livro The Art of Chess]. Não digo que seja isso que Bowie tenha feito, mas é interessante pensar que alguém com a sua visão do mundo, possa rejeitar tudo isso e começar uma outra coisa. Alguém que decide parar ao invés de ser cada vez mais famoso.

Nesse sentido, como pode uma exposição enquadrar as imagens de Bowie?
Há, literalmente, centenas de objectos, palavras, ideias e livros escritos por pessoas que analisaram tudo até ao mais ínfimo detalhe, projectando nele uma série de coisas. Esta colecção à qual acedemos, a sua colecção privada, foi feita por ele, que a guardou por alguma razão. Todos os seus vídeos e álbuns estão disponíveis publicamente, mas a nossa preocupação foi a de criar um contexto onde, genuinamente, se conseguisse perceber o trabalho. Este homem fez coisas extraordinárias e influenciou, garantidamente, a cultura ocidental e a ideia de livre expressão. Se o Ziggy Stardust [alter-ego de Bowie nos primeiros anos] andasse nas ruas de Londres, ou de Lisboa, duvido que alguém lhe desse importância. Mas há muitas cidades no mundo em que se o fizesse, teria uma reacção hostil e possivelmente violenta, ou pior.

Isso significa que o mundo não mudou assim tanto?
Algumas zonas do mundo. Há zonas do mundo onde a liberdade de expressão e de escolha não são aceites. A influência de Bowie percebe-se na linha da frente de uma das maiores divisões do mundo, que já não é política ou religiosa, mas na verdade, é muito mais fundamental: quais são os teus direitos como ser humano?

Bowie não tem um programa político, mas disse: "eu decido ser isto, e tu decides o que queres". A grande fractura, hoje, está na diferença entre o indivíduo e os seus direitos. Entre o indivíduo e a liberdade de escolha. Entre as sociedades que se adaptam e buscam consensos e as que produzem rupturas.

Ele abraça, assim, o lado negro dos quinze minutos de fama descritos por Warhol?
Ele é um descendente directo e linear de Warhol. Todas as pessoas que o conheceram me dizem que é um pessoa charmosa e muito engraçada. Profissionalmente é isso que o distingue e foi isso que o tornou num modelo capaz de atrair tanta atenção. Mas eu não consigo pensar em alguém que esteja preparado para viver assim. Num ensaio do catálogo, há uma reflexão sobre como serão os amigos de Bowie. Há uma frase de William Blake que me parece ser adequada para explicar Bowie: alguém que não teve um predecessor, que não vive a par dos seus contemporâneos e não pode ser substituído por qualquer sucessor.