Como a invasão japonesa mudou a vida da família Miranda

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Adriano Miranda

A neutralidade não impediu que a mais distante colónia portuguesa fosse cenário de confrontos na II Guerra Mundial. Há 70 anos, os australianos retiraram-se de Timor e os portugueses ficaram à mercê de soldados japoneses e revoltados nativos. Um padeiro que para lá fora deportado no início da ditadura morreu e os seus filhos de cinco e nove anos ainda andaram meses em fuga pelo mato

Os fugitivos feriam as pernas com os caniços ao abrir caminho no mato. Podiam passar dias com uma espiga de milho ou uns grãos de arroz no estômago. Procuravam fruta-pão, jaca, manga, jambo, laranja, coco. E rebentos de bambu e outras espécies comestíveis que cresciam perto das ribeiras. Abrigavam-se em palhotas com cobertura de capim ou folha de palmeira e paredes de bambu espalmado ou uma espécie de cana entrançada. Em cada aldeola, perto da palhota do chefe, erguia-se uma palhota comunal ou um coberto que servia para fazer reuniões ou acolher estranhos. Manuel tinha cinco anos. Seguia com João, o irmão quatro anos mais velho. Sem pai nem mãe, com amigos de família.

A 17 de Dezembro de 1941, dizendo haver um submarino japonês nas redondezas, tropas australianas e holandesas tinham desembarcado em Díli. Pearl Harbor fora atacado. A guerra estendera-se a todo o Pacífico. Timor, a maior das pequenas ilhas de Sonda, podia servir de base para atacar a Austrália.

O governador de Timor-Leste, Manuel Ferreira de Carvalho, ignorou a ordem de Lisboa para resistir. Não podia ir além de "meia dúzia de tiros". Os aliados construíram redutos para metralhadoras antiaéreas e resguardaram-se nas montanhas sobranceiras a Díli. Retirar-se-iam quando desembarcassem tropas portuguesas vindas de Moçambique para garantir a neutralidade assumida na II Guerra Mundial. Muitos não arriscaram ficar à espera. Manuel Simões de Miranda ficou, na Padaria Europeia, a satisfazer as encomendas da chamada Sparrow Force.

Às 00h40 de 20 de Fevereiro de 1942, Ferreira de Carvalho acordou com um grande estampido. Levantou-se e assistiu, impotente, ao primeiro bombardeamento. Entre a foz do Comoro e a baía de Tibar, a uns cinco quilómetros de Díli, em vez de portugueses, desembarcaram japoneses.

No seu Relatório dos Acontecimentos de Timor 1942-1945, publicado em forma de livro, o governador descreveu o que viu: "A parte da população que não tinha abandonado a cidade durante a noite e madrugada foi saindo durante o dia para Lahane ou para as montanhas próximas, com receio de desacatos sérios por parte da verdadeira horda de selvagens que eram os soldados desembarcados." Muitos refugiaram-se nos aglomerados de Aileu, Ermera, Liquiçá, Maubara.

Díli tornou-se asfixiante. Saqueada a cidade, as tropas japonesas tomaram as casas esvaziadas pelo medo. Nenhum português podia circular sem um livre-passe que lhes podia ser solicitado três ou quatro vezes na mesma rua. Ninguém, ali, estava a salvo dos ataques aéreos australianos.

Manuel, o filho mais novo do padeiro Simões de Miranda, está agora sentado no sofá, num rés-do-chão de um bairro de Rio de Mouro, Sintra. Recua à infância, aos dias da invasão nipónica. "Os motores dos aviões faziam muito barulho por cima das nossas cabeças. Eu via-os. Gostava de os ver."

Lembra-se de estar a jantar numa varanda da casa de Liquiçá. Numa noite, uma pedra saída do escuro acertou na mão do irmão mais velho, Marcelino. O garfo saltou-lhe da mão, perfurou-lhe o rosto. Simões de Miranda levantou-se, irado. Ainda pegou na espingarda, mas tornou a sentar-se.

A tensão era enorme. De vez em quando, apareciam japoneses a pedir café e ovos. Por vezes, Simões de Miranda recusava-se a servi-los. Eles partiam, sem alarido. Imitando japoneses e australianos, as crianças simulavam trocas de tiros com armas feitas a partir de canas de bambu.

Em Agosto, os japoneses bombardearam quase todas as vilas. Os australianos reforçaram presença, mas estourou uma revolta interna: incitados contra os brancos pelos japoneses, que apregoavam a "fraternidade asiática", ali, na zona Oeste, alguns nativos começaram a formar grupos armados e a propagar pavor, matando civis, queimando palhotas, roubando haveres. Eram as "colunas negras".

Baucau, a principal circunscrição da zona Leste, terra da família materna dos miúdos, permanecia fora dos confrontos. Nela refugiaram-se muitos portugueses. O governador transferira para lá os serviços da colónia. E só não se mudara porque os japoneses não o deixaram sair de Díli.

A atenção dos japoneses foi atraída para lá em Agosto, na sequência da queda de um avião australiano. O piloto fora conduzido por portugueses para o hospital de Kelicai e tratado pelo médico Correia Teles. Quando os japoneses tentaram capturá-lo, já os australianos o tinham resgatado.

Aileu, onde desde Fevereiro estava aquartelada a Companhia de Caçadores de Timor, a única força militar de Portugal, foi atacada em Outubro. Ferreira de Carvalho contou 18 portugueses mortos e ficou seguro de que outros se seguiriam, "em ritmo acelerado, uma vez que os japoneses tinham entrado pelo caminho do extermínio" e que os portugueses não tinham como lhes fazer frente.

Manuel recorda-se de estar, não sabe precisar quando, com o irmão do meio, João, a comer cana-doce e de aparecer o irmão mais velho, Marcelino, aflito.

- Para casa!

Simões de Miranda e um empregado fizeram umas trouxas com o essencial. "O meu pai pegou no gato para meter dentro de um saco. O gato fugiu. Nós fugimos também. Embrenhámo-nos no mato."

Andaram, andaram. O pai ouviu vozes. Pediu ao empregado que fosse espreitar. Ele não tardou a reaparecer, aos gritos:

- Fujam! Fujam!

Atrás dele vinham membros das "colunas negras". E, atrás deles, soldados japoneses.

"O meu pai agarrou-me por uma das mãos. Eu chorava. O meu pai mandava-me calar. Os tiros faziam barulho. A terra saltava para cima de nós. Eles estavam perto. Disparavam à sorte por entre o capim." Cada um se escondeu como pôde. Ao sair do esconderijo, Simões de Miranda e Manuel encontraram João e o empregado junto a uma árvore. Marcelino fora degolado. Tinha 11 anos.

A pele das crianças era mais escura e isso, naquele contexto, tinha relevância. "Ele tinha medo de nos expor à perseguição mais cerrada", diz Manuel. "Achou bem separar-se de nós. Decidiu entregar-nos à nossa avó e às nossas tias e juntar-se aos outros europeus." Isso implicava caminhar para leste.

Simões de Miranda chegou a Timor no Pêro Alenquer. O Governo decidira deportá-lo e a outros 63 activistas. O navio desancorara de Lisboa a 13 de Abril de 1927 para uma viagem de apoio à esquadra portuguesa no Oriente, transportando também 98 "cadastrados" e 60 "vadios" para deixar na Guiné e em Angola.

Os 64 homens estavam há perto de dois anos presos, uns no Forte de Monsanto, outros na Cadeia do Limoeiro. Tardaram cinco meses a alcançar Timor, amontoados no porão húmido, nauseabundo, do navio de fabrico alemão que então fazia parte da Marinha de Guerra Nacional.

A imprensa conservadora descrevia-os como temíveis "legionários", a imprensa sindical como "deportado por questões sociais". As autoridades de Timor acabariam por adaptar a expressão "deportados sociais" para os distinguir de perto de 500 "deportados políticos" que haveriam de desembarcar em 1931. Simões de Miranda e os companheiros batiam-se pela abolição do sistema capitalista e não pela restauração do regime anterior a 28 de Maio de 1926, como esses últimos.

Na metrópole, o custo de vida era excessivo. Desde 1919, proliferavam greves. A união do patronato punha em causa a eficácia do sindicalismo. A revolução russa inspirava. Intensificou-se a violência contra polícias, patrões, fura-greves. De 19 para 20 de Outubro de 1921, o primeiro-ministro, António Granja, foi assassinado.

Naquele contexto, formou-se a Legião Vermelha, à qual se imputava qualquer atentado. Alguns investigadores, como José Pacheco Pereira, afirmam que na sua origem estiveram elementos da juventude comunista; outros, como David Ferreira, associam-na às juventudes anarco-sindicalistas. O certo é que, "a coberto do combate à Legião Vermelha, desencadeou-se uma violenta perseguição policial que, além de eventuais implicados, atingiu indistintamente grevistas e sindicalistas", resume António Monteiro Cardoso, que se entusiasmou com os deportados ao fazer investigação para o livro Timor na 2.ª Guerra Mundial - O Diário do Tenente Pires.

A 15 de Maio de 1925, o director da Polícia de Segurança do Estado, Ferreira do Amaral, sofreu um atentado. A polícia deteve mais de cem suspeitos. Catorze dias depois, 29 presos foram deportados sem julgamento, primeiro, para os Açores, depois, para a Guiné e para Cabo Verde.

A polícia conhecia Simões de Miranda. Já o tinha detido uns dias em 1923 por incitar a uma greve de padeiros no Barreiro. Voltara a fazê-lo a 26 de Abril de 1925. E a 1 de Julho desse ano por suspeita de envolvimento no atentado contra Ferreira do Amaral. O jornal O Século do dia seguinte noticiou a prisão do aveirense, então com 23 anos: "A Polícia já há dois dias que procurava Manuel Simões de Miranda e José Abrantes Castanheira como implicados no atentado contra o tenente-coronel senhor Ferreira do Amaral, tendo apurado que o primeiro assistira às reuniões em que foi resolvido assassinar o senhor comissário-geral da polícia, e que o segundo fora um dos principais instigadores para a prática de crime, tendo conseguido prendê-los ontem. Durante o dia, foram largamente interrogados, ficando ambos incomunicáveis."

O jornal A Capital refere-o numa notícia sobre a ida dos "legionários" ao Tribunal da Boa-Hora em Dezembro de 1925: "Estes presos, que estavam dispersos por várias esquadras, foram de madrugada removidos para os Calabouços do Governo Civil, onde hoje, pelas 13 horas, seguiram no automóvel celular para a Boa-Hora, sendo o carro escoltado por um piquete da GNR."

Com o golpe militar de 28 de Maio de 1926, instaurou-se a ditadura que haveria de arrastar-se até 25 de Abril de 1974. Numa prova de força, o Governo mandou desterrar os supostos "legionários".

O governador de Timor, Teófilo Duarte, encarou-os como uma força de trabalho útil para fazer a colonização. Acreditava que, assim, "transplantados para um meio colonial em que as suas reivindicações sociais não teriam razão de ser, e em que o branco insensivelmente se considera[va] o guia e o chefe do indígena, sofreriam uma transformação profunda no seu modo de ser".

Começou por fazer uma lista de profissões - padeiros, serralheiros, pedreiros marceneiros, pintores, mecânicos, motoristas. "Levantou-se-lhes o moral, pondo-os em liberdade, dias após a sua chegada, prometendo àqueles que se comportassem correctamente toda a espécie de ajudas para ganharem a sua vida", escreveu no livro Ocupação e Colonização Branca de Timor.

Tirando os funcionários, a presença de Portugal resumia-se a 12 colonos. A balança de pagamentos era ultra desfavorável. Timor vivia de empréstimos. Teófilo Duarte queria mudar isso. E parecia-lhe que só havia um caminho: reduzir as importações e aumentar as exportações.

Nesse afã, decidira incentivar a permanência de funcionários reformados através de concessões de terrenos, sal gratuito, madeira a preço de custo, isenção fiscal e direito de exportação para que produzissem café, chá, borracha, cacau, algodão, tabaco e arroz ou sabão, telha, refrigerantes e embarcações de certa tonelagem. Dispôs-se a alargar tais medidas aos deportados.

"Cuidou-se-lhe do revigoramento físico", contou no já referido livro. "Fornecendo-se-lhes uma habitação razoável, mosquiteiro, quinino, roupas." Por fim, "empregou-se cada um conforme as suas aptidões ou as possibilidades de trabalho que oferecia a colónia, de modo a que o subsídio mensal que lhe foi atribuído - dois terços do de um soldado branco - lhe pudesse ser retirado num prazo relativamente curto".

Simões de Miranda e outro padeiro receberam espaço, forno e farinha para trabalhar em Díli. Escreveu Teófilo Duarte que "os princípios dos novos industriais foram maus, pois, embora a qualidade do seu pão fosse superior à do então fabricado pelos seus concorrentes chineses, o receio havido por parte da população branca, de que, um dia, os maus instintos dos legionários os levassem a fazer um envenenamento geral, provocava um retraimento enorme por parte de quase toda a gente". Quando perceberam que o governador, sendo cliente, continuava bem de saúde, o negócio prosperou. No fim de um ano, os padeiros tinham pago o empréstimo ao Estado.

A leva de deportados desembarcados em 1931 não teria tal oportunidade. Misturava operários e intelectuais, até antigos ministros, como Hélder Ribeiro e Utra Machado. Por ordem do novo governador, António Baptista Justo, ainda passariam por um campo de prisioneiros antes de começar a fazer vida.

Simões de Miranda e os outros atirados para o degredo viviam sob apertada vigilância. Por vontade de Teófilo Duarte, qualquer falta os podia forçar a dormir no "pior calaboiço" da colónia, a comer apenas "milho cozinho, sem sal nem tempero". Eram obrigados a cumprimentar todos os outros europeus, mas estavam proibidos de com eles estabelecerem namoro ou amizade.

Estreitaram relações entre si e criaram-nas com nativos. Simões de Miranda envolveu-se com Laura Sequeira Ximenes, uma rapariga de 14 anos, filha de uma timorense e de um funcionário português, que não assumira a paternidade. Dessa união, nasceram três crianças: Alice, em 1929, José, em 1931, e João, em 1933.

A vida era uma monotonia, segundo descreve Fernando Augusto Figueiredo no livro Timor - A Presença Portuguesa (1769-1945). "Não havia teatros, cafés, clubes. Daí o facto de, por exemplo, o talho municipal ou a garagem de um europeu se tornarem centros de sociabilidade. As notícias, chegadas de fora pelos jornais da metrópole ou de Macau, eram avidamente esperadas e discutidas."

Os europeus trabalhavam em repartições, lojas ou bazares; as suas mulheres, dispensadas da lida pelos serviçais, passavam os dias a bordar, a ler, a ouvir música. Neste vagar, "a chegada do navio da KPM, a mala holandesa, constituía um dia de gala. Centenas de pessoas acompanhavam a ancoragem, o transporte de passageiros até ao cais e a correspondência da Europa até aos correios".

Em Dezembro de 1932, a maior parte dos deportados beneficiou de uma amnistia. Simões de Miranda também esperava regressar a Portugal. Timor-Leste parecia-lhe demasiado "selvagem" para educar as crianças. Mandou Alice e José ainda pequenos para casa dos avós paternos, em Cacia, Aveiro. Talvez por isso Laura o tenha deixado, tinha João apenas três meses.

Pediu o fim do desterro em 1935. No seu processo, que só em parte resiste nos arquivos da Torre do Tombo, está o indeferimento decidido pelo Ministério do Interior: "Informa o Governo da colónia que o epigrafado pretende estar em correspondência com vários centros de propaganda avançada, o que tem sido evitado pelas autoridades. Envia também o referido Ministério [da Colónia] uma carta do irmão do epigrafado, João Miranda, a ele dirigida e apreendida pela censura, pois parece ser pessoa também bastante animada com a política contrária à do Estado Novo."

Não se enganavam. O irmão mudara-se de Aveiro para Lisboa aos 14 anos, no ano em que o padeiro fora deportado, trazendo nos pés as botas da mãe. Aos 17, filiara-se no Partido Comunista, fundado em 1921. Mantinha reuniões clandestinas em casa. Instruía a família para colaborar na vigilância.

A vontade de regressar permaneceu, a avaliar pela carta enviada ao pai a 29 de Fevereiro de 1940: "Sobre a estória dos indultos a presos sociais que leu no Século, que quer que lhe faça? Eu estou em Timor. Não tenho quem se interesse por mim aí por isso tenho de continuar por cá. O pai se quisesse resolvia o assunto talvez com certa facilidade. Quando fosse a Lisboa ia directamente falar ao presidente do Governo Salazar, não meter pedidos porque tenho a certeza de que ele o receberia, um velho."

Depressa atirou a separação de Laura para trás das costas. Juntou-se à irmã dela, Áurea. Quem melhor lhe podia cuidar do filho? Com ela, teve, em 1936, Manuel, que morreu com poucos dias, e, em 1937, outro Manuel, que agora ouvimos desfiar memórias. "A minha querida Áurea faleceu no parto no dia 3 de Março pelas 18h30 de 1939", apontou ele, num caderninho de linhas. Morreu ela e morreu a criança que ela gerara. Pouco depois, ele uniu-se a uma rapariga chamada Raquel.

A sua última carta data de 15 de Janeiro de 1942 e responde às palavras escritas pelo pai e pelos filhos a 3 de Julho de 1941, o que mostra o quanto a guerra podia atrasar os correios. "O João vai aprendendo a ler, mas mal. Anda na segunda classe. O Manuel ainda não sabe nada porque ainda não tem idade. Ainda só tem quatro anos e meio", contava, despedindo-se poucas linhas à frente. "Não tenho tempo. Somos nós que fornecemos todo o pão às tropas, de forma que não tenho tempo para dormir."

Manuel gostava de fazer barcos e aviões de papel quando o pai o levava para a padaria. E de comer goiabas compradas aos chineses nas ruas de Díli. E de "brincar com rãs nos regos de água que se formavam no quintal" lá de casa. Mesmo durante a guerra, foi encontrando formas de brincar - de se evadir. Talvez por isso ainda hoje mantenha um riso, desdentado, um tanto infantil.

A 4 de Outubro de 1942, o governador enviou um telegrama para o Ministério do Ultramar: "Impossibilidade absoluta protecção defesa vidas portugueses aqui estão devido constantes revoltas indígenas impossível dominar que já causaram morte muitos portugueses todas classes peço V. Ex.ª encarecidamente promover vinda imediata aqui um transporte para transferência provisória toda população portuguesa para qualquer parte visto sua permanência Timor ser assim impossível."

O presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, não queria que abandonassem a colónia. Incapaz de lhe fazer frente, Ferreira de Carvalho aceitou a proposta japonesa de criar uma zona de protecção. Deviam apresentar-se todos os portugueses em Liquiçá e Maubara até 15 de Novembro. Quem não aparecesse seria considerado colaborador dos australianos e tratado como tal.

O médico José dos Santos Carvalho resume assim o que se passou por lá no livro Vida e Morte em Timor durante a Segunda Guerra Mundial: "Nessa zona de concentração, diferente em pouco de um campo de prisioneiros, se passaram três infindáveis anos de permanente terror, fome e extrema miséria em que nos tornamos "esqueléticos, quase irreconhecíveis à primeira vista"."

Alguns portugueses perceberam logo no que aquilo podia dar. Entre eles, Cal Brandão, advogado desterrado por razões políticas. Um oficial australiano passou na quinta onde ele se refugiara com a família e contou que o seu comando nada sabia sobre a criação de uma zona neutra. "Esta farsa de uma zona neutra, dentro de uma terra neutral, tinha um demarcado carácter ameaçador e exalava odores de mais uma cilada", escreveu no livro Funo - Guerra em Timor.

Ele e outros - num total de 106 - reuniram-se com uma alta patente australiana, o major Callinan, na plantação de café de Talo, perto de Hatolia. Em troca de protecção para as mulheres e as crianças, a transferir para a Austrália, os homens ajudariam a derrubar os japoneses.

Em Baucau, nada de semelhante ocorrera: as pessoas teriam obedecido à ordem governamental, se não houvesse notícia de nova chacina, desta vez em Manatuto. Tomadas pelo pânico, fugiram para as altas montanhas de Maté-Bian.

Com o andar da guerra, os deportados dispersaram-se pela parte portuguesa da ilha. Uns recolheram às zonas de concentração, outros assumiram o papel de intérpretes e colaboradores dos australianos, outros tentavam apenas permanecer longe da vista dos "japs" e das "colunas negras".

Simões de Miranda conseguira entregar os filhos à avó materna, Amélia Caldas Ximenes, que morava numa palhota, perto de uma estrada, no planalto de Bacau. Os miúdos ainda viveram lá uns meses. Certo dia, a avó pressentiu qualquer coisa e pediu a João que fosse ver se o inimigo estava próximo. Segundo Manuel, ela não se enganara: "Eles atiravam tiros e granadas. A gente ouvia. Eu era pequenino, mas consegui subir a montanha. Aquilo era terra, era rocha."

Os "japs" investiam no Leste. Determinados, avançavam mato adentro. Tanto que alcançaram Maté-Biam, onde se tinham refugiado umas três centenas de portugueses de origem e assimilados - estatuto concedido a nativos que falavam português, ganhavam o suficiente para manter a família e tinham feito prova de bom carácter - com as suas mulheres e as suas crianças.

À revelia de Salazar, que a todo o custo queria manter em Timor a população masculina, para que não se dissesse que Portugal abandonara o território e renunciara à soberania, aproveitando os navios de guerra que iam à costa sul reabastecer e render tropas, os australianos tinham começado a evacuação. A 1 de Dezembro, na vedeta Kuro, levaram 70 portugueses, na sua maior parte mulheres e filhos de homens que tinham oferecido os seus préstimos aos aliados. A 15 de Dezembro, o navio Tjerk Hiddes levou padres e freiras canossianas.

João Manuel Ferreira Taborda, director dos serviços de administração civil de Timor, investido nas funções de encarregado do governo nas zonas dos fugitivos de Díli, atreveu-se a escrever ao tenente Frank Holland, a pedir-lhe que transferisse os portugueses para a Austrália. Fez-se uma controversa lista com 360 pessoas que deveriam embarcar - sem esquecer as mulheres e as crianças europeias.

Na praia de Aliambata juntaram-se umas 700 pessoas. O padeiro Joaquim Carraquico, o médico Correia Teles e o condutor de obras Vale do Rio Paiva e outros despediram-se das suas famílias e ficaram ali. Dividiram-se em pequenos grupos para terem mais hipóteses de sobreviver.

Elvira, a mulher de Correia Teles, haveria de queixar-se numa carta, respigada por António Monteiro Cardoso: "Nunca percebi porque é que, numa situação de caos como aquela, uns tinham direito à vida e outros não, porque é que interessava mais salvar as amantes indígenas do que os funcionários brancos que se tinham sacrificado pela pátria e aos poucos iam morrendo."

Durante a fuga, os miúdos juntaram-se a um dos grupos que se despediram dos familiares na praia de Aliambata. Tinham caminhado com a avó e outros para a costa sul. Era lá que estava a esperança de embarque.

"Eu ia às cavalitas dos malaios quando tínhamos de atravessar as ribeiras", conta Manuel. "No mato, quem me levava às cavalitas era o senhor Paiva, que era amigo do meu pai." Refere-se ao metalúrgico Domingos Paiva, detido sob suspeita de pertencer à Legião Vermelha e deportado para Timor em 1927, que ainda agora imagina dentro de um caqui. "Connosco seguia também o doutor Correia Teles."

Correia Teles adoecera. Sentia-se cada vez pior. Percebendo que já não conseguia caminhar, sequer andar a cavalo, e que seria penoso transportá-lo, afastou-se, deitou-se numa ribeira e deu um tiro no maxilar. Manuel apagou o resto da assistência, tal a força dessa lembrança. "Eu vi abrirem uma cova e enterrarem o seu cadáver, como se enterra um cão. Sem orações, sem caixão, sem flores."

No Sul, as montanhas esbatem-se longe da costa, dando lugar a uma longa planície. Os fugitivos caminharam em direcção a Barique. Como a tropa japonesa tinha a estrada de Viqueque a Ossú debaixo de olho, "só conseguiam atravessá-la divididos em pequenos grupos, a altas horas da noite, guiados por dedicados amigos timorenses", contou Carraquico ao autor de Vida e Morte em Timor.

Os australianos batiam em retirada. Aquela frente de batalha afigurava-se-lhe inútil. Preocupado com o que deixava para trás, o major Callinan arranjou forma de levar mais meia centena de pessoas para a Austrália. Pediu a Cal Brandão para combinar com os europeus que circulavam na zona. A margem já era curta. O inimigo já estreitara a sua zona de acção na costa Sul, explicou o militar Carlos Vieira da Rocha no livro Timor - Ocupação Japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Em Cledec, estariam uns cem portugueses e suas famílias. Não cabiam todos. Na noite de 10 para 11 de Janeiro de 1943, na praia de Quiraz, apenas 54 embarcaram no navio Arunta.

"Ao amanhecer de 10 de Janeiro de 1943, naquela praia de Quiraz, estavam reunidos cerca de 30 portugueses, 16 australianos e um grande número de criados. Ao longo do areal via-se em abandono fardas, equipamentos e armas. Eram os despojos da tropa que retirara numa noite de tempestade", deixando para trás apenas uma pequena unidade, a S Force, relatou Cal Brandão no seu livro.

Simões de Miranda tentava encontrar forma de ir para a Austrália, a avaliar pelo que escreve, em tom de reprovação, um dos líderes dos fugitivos, o tenente Pires, no seu diário a 22 de Janeiro: "Às três horas seguiu para Quiraz um grupo de portugueses no nome, mas não nos feitos, os quais, completamente aterrorizados, vão à procura de um barco que os leve para a ilha grande, como eles lhe chamam. Fazem parte do grupo, entre outros, o ex-administrador Aguilar, padres Serra e Ferreira, cabos Acácio e Ilídio, condutor Paiva, Manuel Parafuso, deportados Damas, Miranda, Marreco, Jana, Severiano, Albuquerque, Filipe, Parôlo e Prieto." O militar acreditava que os australianos ainda iriam enfrentar os "japs". Julgava que os homens deveriam ficar ali para ajudar.

Falava-se num grande desembarque a acontecer em Fevereiro, mas os australianos regressaram só para recolher o resto dos seus homens. Fizeram-no com grande discrição, num submarino americano, o USS Gudgeon, a 10 de Fevereiro, levando com eles o tenente Pires e cinco nativos.

A Austrália tinha-se virado para a Nova-Guiné, onde os japoneses atacavam em força. Consumia-se com a possibilidade de alcançarem Queensland.

Uns 30 refugiados estavam bem instalados em Melbourne. Os outros num acampamento a norte de Newcastle. A necessidade de informação fazia circular cartas entre uns e outros. A 16 de Março, por exemplo, João Gomes Moreira Júnior, solicitador que fora deportado para Timor em 1931 e resgatado por australianos em Dezembro de 1942, escreveu ao tenente Pires: "Eu ando cheio de ansiedade por todos, mas a sorte do Cal e do Matos e Silva é uma inquietação que me traz irrequieto, febril, irritado. O que será feito deles? Do Zé Tinoco? Do Damas? E do Dias, coitado... Do Carraquico, que tem aqui a mulher, diga-me alguma coisa. E o Miranda padeiro?"

O livro de Cal Brandão transporta para matagais e pântanos infestados de mosquitos: "Aproveitar a água corrente das ribeiras é um sonho de impossível realização, para evitar sermos apanhados por uma das rondas ou encontrarmo-nos com espiões desgarrados. O resultado é andarmos sujos, cobertos de parasitas e receosos de que a epidemia de sarna, grassando em indígenas e mestiços, nos ataque também."

Manuel não se lembra de tomar banho nem de mudar de roupa. Andou com a mesma roupa quase até ela se desfazer. "Encontrávamos palhotas pelo caminho. Dormíamos nessas palhotas." Correndo riscos e sofrendo consequências, inúmeros nativos continuavam a tentar ser prestáveis.

Os crescidos afastavam-se dos grupos e procuravam frutos e plantas comestíveis. Manuel recorda-se de comer milho pilado, casca de canela, algumas ervas, raízes. Não tem ideia de ver alimentos a cair de pára-quedas, a obrigar a sair do esconderijo o grupo de resistentes com o nome de código PortoLizard, a quem os australianos tinham deixado algum dinheiro, armas, munições, dois transmissores de rádio e uma cifra para comunicarem com Darwin.

Muitos morreram no mato, de fome, de doenças não tratadas ou de actos de violência. Conta Carlos Vieira da Rocha que o padre Francisco Madeira morreu com uma congestão de bananas. E que as "colunas negras" deceparam e hastearam as mãos do enfermeiro Semanes no alto de uma zagaia.

A 7 de Abril, o PortoLizard deu conta da morte de Simões de Miranda. "Following have been killed: Semanes, Miranda, Hoffman, Maher, Padre Caldas, Coelho, Mendes and Denegas." Os australianos só mostravam os telegramas mais penosos ou indecifráveis ao tenente Pires, sem lhe revelarem a data ou deixarem ver a versão integral. O que lhe entregaram só mencionava Senanes, Maher e Hoffman.

Para ajudar a recuperar o percurso do padeiro, Ernie Chamberlain, general-brigadeiro retirado, autor do livro Forgotten Men - Timorese in Special Operations during World War II, fez nova consulta aos ficheiros do Exército Nacional Australiano. Analisando as mensagens do PortoLizard, deduziu que Simões de Miranda morreu entre 30 de Março e 6 de Abril, na zona da ribeira de Dílor. As mensagens enviadas pelo grupo liderado por Matos e Silva e por Lourenço Martins eram curtas, espaçadas. A última fora enviada a 29 de Março.

O tenente Pires traduziu a 3 de Maio um telegrama esclarecedor: "Mortos Miranda, P. Madeira, falta medicamentos e fome. Mortos mesmo motivo dois filhos cabo Vieira e dois filhos Dionizio. Acudam depressa ou senão morrerão todos os portugueses apesar terem salvado soldados aliados."

Recuperaram esperança no final de Junho. Por rádio, souberam do regresso do tenente Pires, que se desdobrara em contactos para os resgatar. Atracaram no início de Agosto. O português recrutou um pequeno grupo para ficar em "serviço de observação", em troca da transferência dos outros.

Manuel e o irmão aguardaram, com ansiedade, na praia de Ué-Laba, na zona de Barique. "Vimos ao longe um barco. Destruímos uma palhota. Lançámos fogo ao capim e aos bambus ressequidos para que nos vissem. O navio correspondeu ao nosso apelo. Aproximou-se da praia. Enviaram-nos uma baleeira. Eu e o meu irmão fomos os primeiros a embarcar. O mar estava picado. A baleeira era sacudida com violência. Eu bebia sem querer água salgada, que se confundia com as minhas lágrimas."

Acomodaram-se 87 pessoas em duas vedetas rápidas. Pelo registo de Cal Brandão, os militares "distribuíram mantas, uma ração de corned-beef, biscoitos e canecas com cacau". "Nós dormíamos no convés", diz Manuel. "O barco balançava e eu tinha medo de cair ao mar. Havia uma casa de banho que ficava na retaguarda. Da sanita via-se o mar. Eu tinha medo. Chorava. Agarrava-me com unhas e dentes à sanita."

Navegaram, dia e meio. Na manhã de 5 de Agosto, avistaram Darwin, um cenário de mastros de navios afundados a sair das águas, edifícios em ruína. Receberam dos militares roupas novas antes do primeiro banho. Ficaram à volta de 20 dias em barracas camufladas. Foram vistos por um médico, medicados.

Manuel inspirava cuidados. "Tinha bolhas entre os dedos, no corpo, nas pernas, nos braços. Em Darwin, dois soldados australianos curaram-me as bolhas com sulfato de cobre. Aquilo ardia. Eu gritava." Dormia no chão, ao lado do irmão. "De noite fechavam as luzes por causa dos aviões."

Viajaram de barco para Newcastle. E de camião, "por estradas esburacadas", até Bob"s Farm, o acampamento montado pelo exército australiano num areal hostil, a 58 quilómetros da cidade.

O campo estava dividido em três partes: uma para portugueses europeus, outra para padres e freiras, outra para nativos, assimilados e mestiços. Os primeiros e os segundos dormiam em camas, tinham prioridade nas roupas distribuídas, os outros dormiam em sacos cheios de palha.

De imediato, os miúdos viram Manuel Pereira, sócio do pai que também fora deportado para Timor e que conheciam por Pereirita. "Beijou-nos e levou-nos para a tenda dele." Lá dentro, estariam também Dona Eufrásia, que Manuel tomou por companheira de Pereirita, e os seus dois filhos.

Era demasiado pequeno para perceber que 13 refugiados foram levados para um campo de prisioneiros. Com a cabeça cheia de intrigas, Pires recomendara que não ficassem em Bob"s Farm. De "heróicos" antifascistas, que não se vergaram aos japoneses, tinham passado a "perigosos" comunistas.

Manuel gostava de ouvir soar a sineta para cada refeição, de andar na carrinha da lenha e na das limpezas. Ia esperar o carro da fruta à entrada do acampamento. "Brincávamos muito às escondidas. Também brincávamos à guerra. Atirávamos tiros uns aos outros com os dedos esticados."

Passou o Natal no acampamento. Uma equipa da Cruz Vermelha distribuiu brinquedos pelas muitas crianças que lá estavam. "Ofereceram-me um coelho. Ao meu irmão ofereceram um carro. Era um caixote com rodas e tinha um pau para puxar. Eu fiz uma birra. Eu queria o carro."

Nomeado um cônsul de Portugal em Nova Gales do Sul, com a cooperação dos australianos, os refugiados mudaram-se para casas. Os miúdos e Pereirita instalaram-se numa casa de dois pisos em Narrabri. Além de Eufrásia e seus filhos, com eles viviam o metalúrgico Manuel Tavares da Silva, a companheira e o filho.

Pereirita arranjou trabalho, como outros refugiados em idade activa. "Nunca passámos fome", garante Manuel. "Dava-nos algum dinheiro para comprar limonada e gelado. Às vezes, íamos ao cinema. Chamavam àquilo cinema ao ar livre. Tinha quatro paredes, mas não tinha telhado."

Como Simões de Miranda, Pereirita não era de comprar brinquedos. Em Narrabri, Manuel ia a uma lixeira procurá-los. "Um dia, encontrei um carrito verde. Fiquei todo contente. O meu sonho era ter um carro com pedais." Deixou de o procurar quando, no entulho, se deparou com uma perna de gesso. "Fiquei com medo."

Não muito longe, a guerra prosseguia. Portugal tentava recuperar Timor, concedendo facilidades aos aliados nos Açores. Em Novembro de 1944, assinou um acordo com os Estados Unidos que lhes permitia usar a base de Santa Maria. Em Agosto de 1943, acordara com os ingleses o uso da Base das Lajes.

Tudo ficou decidido a 6 de Agosto de 1945 com a bomba atómica a cair em Hiroxima. A grande preocupação de Salazar era então impedir que os australianos se apoderassem da metade portuguesa de Timor.

Manuel e o irmão não constam na lista do SS Angola, que saiu e Newcastle a 27 de Novembro de 1945 para Díli e de lá para Lisboa com 552 refugiados, incluindo Pereirita e Carraquico. Viajaram no início do ano, antes mesmo de a guerra terminar e do Governo português retomar a administração de Timor.

Pereirita comprou-lhes uma mala e algumas roupas. "Um sobretudo para mim, outro para o meu irmão; calções, casaco, meias, sapatos, tudo o que era preciso para a viagem para Portugal", conta Manuel. E foi levá-los ao porto. Embarcaram num "navio grande, muito bonito, de nome inglês".

Não sabe se o barco era de guerra. A memória traz-lhe imagens de armas e exercícios: "Tocava o alarme e nós vestíamos os coletes salva-vidas e corríamos até às baleeiras." Continuava a transpor actos de adultos para as suas brincadeiras. "Com lenços, eu fazia pára-quedas que caíam nas águas."

É muito improvável que tivessem viajado num navio da marinha, observa o militar Ernie Chamberlain, desde que se reformou dedicado à investigação. Não há registo nos ficheiros militares australianos. Na época, os navios mercantes estavam equipados com armas. É possível que tenham sido levados num deles para a África do Sul e de lá seguido de comboio para Moçambique.

Manuel e o irmão esperaram três meses numa pensão de Lourenço Marques, actual Maputo. "Havia uns bichinhos que faziam buracos na terra. Formavam-se montinhos de terra. Eu agarrava em caixas de fósforos. Usava-as como camionetas para transportar terra. O meu irmão não brincava. Andava por lá. Uma vez ia sendo atropelado ao atravessar a rua para comprar umas cervejas."

Viajaram até Portugal no Lourenço Marques. Nesse paquete de fabrico alemão, que fazia parte da Companhia Nacional de Navegação, seguia o pai de Laura Sequeira Ximenes - Mário de Almeida Miranda, um funcionário judicial que fora resgatado pelos australianos a 10 de Janeiro de 1943 e já em Bob"s Farm referenciado como fascista. Estava encarregado de olhar pelos miúdos na viagem, mas manteve tanta distância que a sua presença se esfumou nas memórias de Manuel.

Ninguém os esperava em Lisboa em Maio de 1945. Há anos que ninguém, na família paterna, sabia deles. Apesar da sua qualidade de avô materno, Mário de Almeida Miranda saiu sem olhar para trás. Os rapazes ficaram no convés, encolhidos, chorosos. O capitão do navio alertou as autoridades.

Recolheu-os a Casa Pia de Lisboa, dona de diversos colégios para rapazes. "A primeira coisa que fizeram foi rapar-nos o cabelo", revive Manuel. Tinham aulas de segunda a sexta na secção de Nuno Álvares Pereira. Aos sábados, instrução militar. Aos domingos, marchavam para a missa.

Num instante, fizeram amigos. "Também lá brincávamos à guerra. Uns faziam de cavalo, outros de cavaleiro. Quem ficasse montado mais tempo ganhava." Manuel não perdia uma oportunidade de jogar futebol. "Todos me queriam ver à baliza. Jogávamos com bolas de trapos. Alguns rasgavam os lençóis às escondidas para fazermos bolas. Quem era apanhado levava uma surra."

Por coincidência, volvido pouco tempo, um homem de Aveiro, de sobrenome Miranda, foi à Casa Pia. Perguntaram-lhe se aqueles miúdos, por acaso, não pertenciam à sua família. Ao ouvir a sua história, ele lembrou-se de um vizinho cujo filho fora deportado para Timor. Levou-lhe o recado. O velho alegrou-se. Pediu logo ao filho que morava em Lisboa que lá fosse verificar.

O tio João reconheceu-os, emocionado. Eram os rapazes das fotografias que o irmão mandara à família. Não os tirou da Casa Pia - um haveria de sair de lá barbeiro, outro fundidor. Todos os domingos, recebia-os em casa. Eles iam vê-lo depois da missa. "Muitas vezes, íamos a pé [de Belém a Campo de Ourique]", conta Manuel. "Quando tínhamos dez tostões, íamos de eléctrico."

Era com o tio João que passavam as férias do Natal e da Páscoa. Nas férias grandes, iam para Aveiro. Dormiam em casa da tia Emília, que vivia perto dos avós paternos. Manuel adorava o avô. Lembra-se de o encontrar a fazer tamancos, com a sua perna de pau pendurada na parede, e de o ouvir dizer: "Xi-coração, da caixa do pão, da pipa do vinho, dá-me um abraço que eu dou-te um beijinho."

Na Casa Pia podia aprender uma profissão, mas o que mais desejava era morar com a família. Nem se atrevia a dizê-lo. Os avós estavam velhos e cansados. Já tinham criado dois netos que o filho lhes enviara de Timor muito pequenos - José e Alice. Não estavam capazes de acolher outros dois.

José está agora sentado na sala da casa que construiu na aldeia de Sarrazola, na freguesia de Cacia, na terra onde cresceu. Recorda-se do primeiro encontro com os irmãos: "Não havia amizade. Tentei brincar com o João e ele não gostou. Com o tempo, a amizade veio. Acarinhava muito o Manel. Ele tinha um feitio diferente. Eu ia às vezes visitá-lo à Casa Pia. Ele não me largava."

Não esteve na guerra, mas também teve os seus dramas. "Teu pai era bombista, andava armado", chegaram a dizer-lhe. José ficava ofendido. Os avós não discutiam política, não o esclareciam sobre as opções do pai. Quanto daquilo era verdade? Quanto daquilo era mentira? Uma vez, perguntou a um vizinho: "Por que foi o meu pai preso?" Ele respondeu-lhe: "Foi por ir à missa."

Não havia Natal sem choro lá em casa. "Dava tudo para ver o meu filho, nem que hoje visse o meu filho e amanhã a espuma da hora", recorda-se José de ouvir desabafar o avô. "O meu pai era uma pessoa boa. Quantos foram para o Ultramar e não quiseram saber dos filhos? Ele não nos faltava com nada."

A II Guerra Mundial forçou José e a irmã a abandonarem a escola cedo - o pai deixou de enviar dinheiro para os avós os criarem. José começou a trabalhar aos 13 anos, fez-se marceneiro, já adulto é que regressou à escola, o que lhe permitiria evoluir até técnico auxiliar altamente qualificado na fábrica.

Aproximou-se do Partido Comunista. Tinha forte sensação de injustiça pelo que acontecera ao pai e pelo que via: "Isto era uma miséria tremenda. As crianças iam para as pedreiras. Havia escola mas não era para todos. Crianças de sete anos iam a cantar para o trabalho. Tudo isso revolta uma pessoa, não é?"

A 1 de Fevereiro de 1963, José foi detido pela PIDE/DGS. Apareceram-lhe na Celulose, ali mesmo, em Cacia, acusando-o de fazer parte do "organismo" da fábrica. Nessa altura, houve perto de duas dezenas de detidos. "Bastava ser dois ou três que não se aguentassem, começavam a dizer o que se passava."

A polícia levou-o para Coimbra e de lá para Lisboa. Nem tem noção da duração do interrogatório. Impediram-no de dormir para o fazer falar. "Quando saí, via borboletas." Ainda esteve 21 dias sem se comunicar com o exterior. Temeu o pior. E se lhe acontecia o que havia 36 anos acontecera ao pai?

Deolinda, a mulher, estava aflita. Ele fora levado "em mangas de camisa". Escreveu ao director da PIDE/DGS a pedir-lhe que lhe revelasse o paradeiro do marido e que a deixasse vê-lo: "Encontro-me numa situação crítica com três filhas, a mais velha de 12 anos, com bastante doença, reumatismo e coração, outra com quatro anos e outra com dois anos." E ele lá a deixou visitá-lo.

O operário admitiu ter recebido imprensa clandestina - o jornal Avante! e o boletim O Militante. Não confessou dar guarida a um membro do partido ou ceder a casa para fazer reuniões e cópias. "Tinha um rectangulozito com uma barra fininha. Chamava-se copiógrafo. Eu tive sorte porque as pessoas que foram presas não sabiam que eu tinha isso. Se soubessem, podia ter apanhado seis anos de prisão." Libertado em Maio de 1963, nunca mais ele quis ter actividade política.

Nessa altura, os irmãos que viveram a guerra mantinham-se afastados da política. Só depois do 25 de Abril de 1974, João e a mulher, Emília, prima, filha do tio João, se filiaram no Partido Comunista. "Fomos em Maio de 74 à sede", relata Emília. "O meu pai também foi. Ele identificou-se como membro do partido. O pseudónimo dele era "Flores". Do meu sogro não havia registo, mas ele era comunista. O meu pai contava que ele divergia muito de um primo anarco-sindicalista."

Emília está viúva desde 1994. O marido pouco falava na infância, menos ainda na guerra. Morreu dois anos antes da irmã, Alice, "com o desgosto de não ter regressado a Timor". Manuel não tem essa vontade. José ainda agora a tem. E verbaliza-a: "Há uns anos, eu não podia ir. Depois, havia guerra. Quando tinha meios financeiros e aquilo estava sossegado, já não podia ir sozinho. É preciso andar de avião, não é? Aquilo é muito longe. Já tenho uma idade."

Só um membro da família conheceu Timor como país independente. Adriano Miranda, o único filho de João e de Emília, aterrou na ilha em 2000, como fotojornalista ao serviço do PÚBLICO. Foi a grande viagem da sua vida. Fotografou a antiga padaria do avô, que havia pouco fora incendiada por uma espécie e réplica das "colunas negras", as chamadas milícias, os grupos armados pela Indonésia dois anos antes. Na véspera da partida, descobriu que uma tia-avó ainda estava viva. Já não teve tempo para a conhecer.

Morreu muita gente durante a II Guerra Mundial. Os censos de 1940 desapareceram na invasão nipónica, mas tal não impede uma comparação: Timor-Leste tinha 472 mil habitantes em 1930 e 403 mil em 1946.

Adriano cresceu com o mito do "herói antifascista". José até mandou fazer um busto para pôr na sala e outro para pôr no pátio. A poucos metros da sua casa, em Cacia, está a rua estreita que recebeu o nome de Manuel Simões de Miranda. "O meu avô sempre foi tema de conversa na família, mas o meu pai não abria a boca e os meus tios vieram muito pequenos de Timor", diz Adriano. Ouvira os tios e a mãe a contar episódios soltos, por vezes em segunda ou terceira mão, com falhas impressas pelo tempo. Nem sabia quando o avô fora preso nem porquê, quando morrera, em que zona ou como, mas parecia-lhe que havia ali uma história que merecia ser contada. A partir do cruzamento de depoimentos, cartas, registos policiais, ficheiros militares, jornais, livros, eis a história de um avô, que é uma história de família, que é uma história de resistência.