O arquitecto Miguel Figueira deu uma escada rolante às viúvas de Montemor

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O arquitecto na escada rolante que construiu até ao castelo para facilitar a locomoção da população envelhecidaO Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho fotos: Adriano Miranda

Quem chegar à vila do Baixo Mondego e perguntar pelo "arquitecto" acabará na câmara. Não que seja o único. Mas ele é "o arquitecto", o que desenha para a comunidade e, agora, o prémio AICA

Quanto foi necessário construir o muro de pedra junto à escada mecânica que vai ligar a vila de Montemor-o-Velho ao castelo, o arquitecto da câmara municipal, Miguel Figueira, pediu ao empreiteiro da obra que mandasse o pedreiro fazer um pedaço de muro. Uns dias depois o homem voltou: "Aquilo está feito, quer falar agora com o pedreiro?"

O arquitecto olhou para o muro e disse. "Com este não. Chame outro e que faça a mesma coisa." Foi assim até descobrir "o senhor Figueiredo", "um pedreiro que sabe falar com as pedras" e que há duas semanas foi uma das primeiras pessoas a telefonar a Miguel Figueira, quando soube que ele ganhara o prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), que são uma parceria da associação com a Secretaria de Estado da Cultura e a Fundação Millennium BCP.

"O senhor Figueiredo leu aquilo no rodapé de um noticiário qualquer da TV e ligou-me: "Ó arquitecto... Parabéns!"" É Miguel Figueira quem conta. Abre os braços, num gesto vigoroso, com as palmas das mãos viradas para a frente, como quem apresenta ao mundo uma evidência e pergunta: "Mas isto não é lindo?" A última frase troveja dentro das muralhas do castelo de Montemor-o-Velho.

O arquitecto já foi actor, numa emergência ditada pela escassez de recursos para Os Lisboetas, de Sérgio Tréfaut, e percebe-se por que é que o realizador se lembrou deste seu amigo para interpretar "o polícia bruto". O episódio do "senhor Figueiredo" é apenas um daqueles que Miguel Figueira adapta ao discurso dramático, citando ora o empreiteiro, ora o pedreiro e até o que ele próprio disse na altura, com alterações no tom de voz a enriquecerem a interpretação e uma gargalhada forte a pontuar as pausas.

A personagem que ele próprio interpreta nos campos do Baixo Mondego tem uma exuberância e um entusiasmo que ajudam a explicar como é que a AICA deu com ele "no meio das couves", que é como o arquitecto se refere ao lugar que habita, para disfarçar a emoção.

No gabinete da Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, não se limita a pensar o território, em parceria obediente com o poder político. Reescreve as perguntas e, para encontrar respostas, fala com a senhora da mercearia, com os pescadores, com os agricultores e com as "suas viúvas". "As minhas viúvas" - que é como se refere às mulheres que vivem a meio da encosta e que, em vez da estrada que desejavam, ganharam uma escada rolante "igual à dos shoppings".

Quando encontra a resposta, o arquitecto bate-se por ela com estardalhaço e urgência, haja ou não resistências e venham elas do poder político ou das suas "viúvas". Depois, suja as mãos com a massa de cimento e a cara com o pó dos campos e dorme no carro, a vigiar a subida das águas do rio, se preciso for.

Isto também se pode dizer de maneira formal: "O entusiasmo e a persistência, aliados ao rigor conceptual e construtivo que o conjunto das suas obras denota fazem de Miguel Figueira um caso singular", escreveu o júri da AICA, constituído por Raquel Henriques da Silva, Sérgio Mah, Jorge Figueira, Diogo Seixas Lopes e Delfim Sardo.

Por unanimidade, a AICA valorizou "um trabalho exemplar tanto na reabilitação do espaço público, como na criação de novos programas capazes de relançar" o pequeno aglomerado de Montemor-o-Velho. "Fora da grande encomenda e do estatuto autoral associado ao atelier privado, Miguel Figueira demonstra que a prática da arquitectura no quadro público pode melhorar as condições para a comunidade local, mas também lançar programas de impacto global como é o caso do Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho", justifica o júri.

""Ó arquitecto, mas então e a estrada?" Mas para que é que você quer uma estrada, mulher! Você tem carro!?" ""Não." Então para que é que quer a estrada!? Fica com uma escada rolante como a dos shoppings para ir com o seu saquito às compras, está bem?!" Miguel Figueira, outra vez. Afirma que desenha "com a comunidade e para a comunidade, mas não necessariamente como a comunidade quer". É arquitecto, desenha cidade, e trabalha na administração pública, ou seja, procura oportunidades para rentabilizar cada uma das opções.

Dimensões olímpicas

A escada em vez da estrada é um exemplo. Construída em três lances, não facilita apenas a locomoção de uma população envelhecida, também responde à necessidade de voltar o castelo para a vila, o que, diz, é importante em termos turísticos e de dinamização do escasso tecido comercial. Para além disso, a ideia cresceu com uma oportunidade que soube agarrar. "Não havia financiamento comunitário para abrir estradas, mas sim para fazer um projecto deste tipo. Pois foi o que fizemos", explica.

Já está na base da encosta, de onde se avista a linha branca de muro caiado que envolve as sacadas e cruza a malha horizontal de ruelas medievais. Olha para cima, satisfeito: "Um castelo tem se conquistar, não é? A entrada que hoje é a principal é fácil de mais, suave de mais, nunca se olha para cima. Daqui, sim, percebe-se o esforço. Não é?"

A história das couves é verdadeira. "Quando saí de Lisboa e vim para Montemor, os meus colegas diziam: "Ó pá, mas tu até fazias umas coisas porreiras e vais meter-te no meio das couves?"", conta Miguel Figueira.

Começou a carreira longe dos campos. Colaborou com o Atelier Bugio e Pedro Maurício Borges, em Lisboa, entre 1997 e 2002, e decidiu instalar-se em Montemor-o-Velho, terra dos avós maternos, antes de começar a coordenar o Gabinete Técnico Local de Montemor-o-Velho, porque queria estar perto do mar da Figueira da Foz, onde cresceu.

Voltou à privada, mas por pouco tempo. Descobriu que a liberdade é maior na administração pública, onde não está sujeito aos caprichos do cliente e consegue acompanhar a obra até à materialização. Acabou por descobrir que não lhe custa trabalhar com políticos "que querem o mesmo que os arquitectos da câmara - o bem público". Ainda assim, não perde um pretexto para usar uma ironia bem-disposta sempre que se fala de políticos.

"Não acham isto demasiado vazio?", pergunta, estacando, de repente, na praça do centro histórico, cuja recuperação lhe valeu o Prémio de Arquitectura Alexandre Herculano, em 2003. A pergunta é uma provocação, uma alusão aos protestos de políticos e não políticos que reclamam "uma coisa no meio da praça - um cavalo, ou assim". E lá tem ele de explicar que "a praça é para a comunidade e que o cavalo ia ser um estorvo, durante as festas". Orgulha-se da obra onde antes só havia carros ou valetas e recorda a resposta que dava a quem estranhava a mudança para a vila: "Olha lá, mas aquilo está tudo escalavrado, ali é que há oportunidades de trabalho!"

Mais a sério, explica que o problema de Montemor é que o centro histórico não é aquele, mas os campos, onde, antes da mecanização da agricultura, tudo acontecia. "Era ali que se pariam os filhos e até onde se faziam os filhos." Tentou colmatar "o imenso vazio" "substituindo a foice pela pagaia". Foi a fase de investimento de todas as energias na criação e construção do Centro Náutico, concluído em 2011 para o Campeonato Europeu de Canoagem.

No enorme hangar, onde não há lugar para paredes, para que os espaços se adaptem a mil ou a meia dúzia de atletas, Miguel Figueira explica como se faz uma obra low cost com dimensões olímpicas. "Pediram-me um restaurante e eu arranjei um espaço e na legenda escrevi: "restaurante". Como é óbvio, nunca tivemos de pôr aqui equipamentos de cozinha - nos grandes eventos isto funciona com catering."

Desenhou um projecto versátil e "à medida da Beatriz Gomes", que é, como quem diz, dos atletas olímpicos que o vão usar. Irrita-se quando fala dos arquitectos que "desenham condomínios fechados, pedaços segregados de cidade", e "acham que é uma chatice que as pessoas vão para lá sujar tudo". "Vejo as revistas de arquitectura e fico lixado. A sério! Ponho-me a folhear aquilo e digo: "Olha, que fixe! Quero ir passar férias neste país!" Porque aquilo não é meu país! Eles andam a desenhar a Suíça, a Finlândia! E eu fico lixado, porque o meu país continua todo escalavrado!"

Diz que fala alto porque tem o sentido "da urgência". Está convencido de que foi graças a ele que ganhou o Prémio MovimentoMilénio pelo projecto CidadeSurf, sobre o potencial urbano da orla costeira da Figueira da Foz, em 2011. "O júri deu-nos o prémio porque eu precisava dele, estão a ver? Era aquilo ou morria! Morria!" A voz troveja, outra vez. Miguel Figueira não se refere ao dinheiro do prémio, mas à necessidade de lançar no país a discussão sobre a renaturalização da praia da Figueira.

Já lhe chamaram arquitecto surfista. Não se ofende. É as duas coisas, arquitecto e surfista e também "louco pela onda do Cabedelo". A ponto de, há uns anos, se ter apresentado a um concurso com outros arquitectos, na Câmara da Figueira, para questionar a legitimidade do concurso a que se apresentava: "Que legitimidade tem a cidade para propor um concurso para o aproveitamento da areia, quando a areia pertence ao mar e não à cidade?" Insiste neste tema. Diz que tem de aproveitar este prémio da AICA para não deixar morrer a discussão: "É uma urgência, percebes?"