Einstein on the Beach Uma ópera mais discutida do que vista

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Philip Class e Robert Wilson fotografados em 1976, num intervalo dos ensaios da ópera; e Albert Einstein na praia, em 1945 Lucie Jansch

A estreia, em 1976, foi um fracasso. Mas, para Robert Wilson, Philip Glass e Lucinda Childs, tornou-se um momento de viragem nas suas vidas. A criação está agora de regresso aos palcos mundiais

Há uma fotografia, de 1976, que mostra o compositor Philip Glass em pé, com o polegar em modo afirmativo, curvado sobre o corpo, deitado, do encenador Robert Wilson. Foi feita durante uma das paragens entre os ensaios de Einstein on the Beach, a ópera em quatro actos que os dois demoraram três anos a fazer e que foi, na altura, um falhanço de tal ordem que forçou Glass a regressar ao volante do táxi que acreditava nunca mais ter de conduzir, e Wilson a vender o estúdio onde ensaiava. Todos os dias perdiam 10 mil dólares, e as duas noites de domingo que conseguiram no Metropolitan Opera, em Nova Iorque, foram tudo menos o que os seus criadores haviam imaginado.

Agora, 37 anos passados, Glass e Wilson são aplaudidos de pé por uma plateia entusiasmada com a oportunidade de - íamos dizer ver, mas a expressão de Wilson é mais correcta - "viver" uma ópera "mais ouvida do que vista, mais discutida do que sentida", como definiu Glass.

No sábado, em Amesterdão, no Muzik Theater, um dos vários teatros mundiais que, num processo longo de doze anos, se juntaram para remontar "a ópera que mudou a imagem da ópera", como a definia um documentário de 1985, tudo parecem ser já histórias pícaras sobre um espectáculo que, ainda hoje, nos deixa próximos do que foi, do que pode ter sido, o espírito criativo da Nova Iorque dos anos 1970.

Philip Glass conta que quando lhe perguntaram o que chamar "a isto", disse: "Pode chamar-lhe teatro, mas não é teatro. Podem dizer que é dança, mas não é só dança. Podem achar que é uma instalação visual, e também não é. Podem chamar-lhe concerto e ainda assim não chega. Podem não dizer que se trata de uma ópera, mas só pode ser apresentado num teatro de ópera."

Como falar, então, de Einstein on the Beach? A obra é maior do que os sentidos podem produzir, é mais intensa do que possamos digerir, é mais profunda do que as impressões que sobre ela possam ser descritas. Talvez a solução, como dizia Einstein, seja, afinal, a de imaginar: "A mais rica das experiências é a misteriosa". Um Einstein que não existe na peça, "são ideias, imagens, sugestões", explica Wilson; "coisas que nos rodeavam, referências que partilhávamos", acrescenta Glass, que se recorda do encenador "e dos seus jornais". "Wilson chegava aos ensaios sempre com notícias: "Já viram isto? Já leram isto?", e depois trabalhávamos". Três sessões diárias, ao longo de mais de dois anos, de manhã a coreografia, à tarde a música, à noite o texto. "Ninguém sabia o que podia dar, ninguém se importava com isso, tínhamos o que não temos hoje: tempo". E essas referências que não estavam no teatro musical nem na ópera, que nem Wilson nem Glass apreciavam, e também não estavam apenas nas artes visuais, "mesmo que Wilson desenhasse muito". "Estavam no nosso dia-a-dia", acrescenta o compositor.

Um mito do teatro musical

À música de Glass e à encenação e luz de Wilson, juntou-se a coreografia de Lucinda Childs, exemplo maior de um movimento coreográfico que vivia na Judson Memorial Church, à Washighton Square, o seu auge, "onde a abstracção era a ordem", disse a coreógrafa ao PÚBLICO. "Mas isto era diferente". "Isto" era uma ópera que se tornou num momento de definição para os dois artistas, mesmo que não o soubessem, do mesmo modo que se tornou num mito do próprio teatro musical, então a passar por uma profunda transformação, com a chegada das adaptações de filmes para o palco e, lembra Wilson, "o modelo televisivo a controlar o tempo e a interacção com o espectador". "Tudo tinha que ser percebido", acrescenta. No Festival de Avignon de 1976, que havia feito a encomenda e onde a obra tinha sido estreada antes de Nova Iorque, às perguntas dos jornalistas que procuravam perceber o que tinham visto, Wilson respondeu com sons imitando pássaros.

No New York Times, John Rockwell recordava agora o que significava a ópera na sua relação com o contexto onde desejava inserir-se. "Foi, provavelmente, o mais orgulhoso resultado da extraordinária cena artística de Lower Manhattan dos anos 1970", escreveu. "A sua beleza pictórica e onírica, as suas extensões místicas, a sua música hipnótica, as suas alusões à inteligência, e ao perigo inerente, do trabalho de Einstein, nunca deixando de contar uma história", diz o crítico, "falaram a uma geração que ainda hoje tem um lugar nas vanguardas americana e global".

O que a obra representava, continua John Rockwell, era "o surgimento de uma comunhão humana entre o espaço e o tempo", mesmo "com rivalidades e tensões". "Ainda me lembro das disputas sobre a quem pertencia o quê, mas, na sua essência, o elenco juntava um conjunto de artistas, experientes em algumas coisas e amadores noutras, com um espírito de aventura de Verão onde ninguém sabia o que dali resultaria, mas depressa perceberam que, o que quer que fosse, era enorme".

Hoje, contudo, a percepção de Wilson e Glass é outra. "Será, provavelmente, uma obra mais radical, hoje, do que foi na altura", diz o encenador. "Ainda é uma obra sobre contrastes: espaço e tempo, lentidão e velocidade, passividade e violência, interior e exterior, mas o que mudou foi a percepção destes contrários". Wilson dá um exemplo, para explicar melhor: "Imagine um candeeiro barroco numa mesa barroca. Significará uma coisa. Mas o mesmo candeeiro barroco em cima de uma rocha produzirá outros significados". "Dizem que é uma obra minimal", riu Wilson, "porque há notas musicais que se aguentam uma cena que dura meia hora", mas, depois, "são tantas as variações... Repare-se no que fazem os cantores quando cantam, e no que se passa em vários espaços do palco". Minimal? "Será, se tanto, uma ópera barroca". Confuso? "Não se preocupe. Não há muito que se possa explicar se não estiver a ver realmente".

Em 1976, Glass, Wilson e Childs juntaram-se para criarem uma obra que "não queria o virtuosismo treinado", como diz o encenador. "Acreditávamos no bailarino da rua, no artista que passava à nossa frente no metro". E, por isso, actores que tinham que saber cantar e bailarinos que tinham que saber estar num palco imóveis juntaram-se para uma obra que combinava o eco das discussões da época: a perigosidade da invenção da bomba atómica, o mediatismo do rapto da socialite Patty Hearst, tornada cúmplice dos raptores, os novos ídolos, como David Cassidy, a poética do amor livre ou a reformulação da dança, da música e do teatro através de uma justaposição de elementos que, "por vezes, eram uníssonos".

Digressão continua até 2014

"A estrutura da ópera é muito simples: A e B, B e C, C e D, A, B, C e D", nota Wilson, explicando que, para esta remontagem, "apenas algumas coisas foram adaptadas aos intérpretes, que são novos". Em 1985, quando a Brooklin Academy of Music quis remontar a peça, já coroada com um sucesso fruto das suas apresentações fora dos Estados Unidos, manteve os mesmos intérpretes em palco. Com Lucinda Childs à frente da sua recém-formada companhia (que volta a dançar agora); um Robert Wilson num momento de pantomina, em homenagem àquela que terá sido a primeira de todas as razões para trabalhar com Glass, uma ópera sobre Chaplin - "Chaplin e Buster Keaton, o que eles fazem é coreografia", nota Wilson; e Glass no fosso de orquestra.

Agora "tivemos que convencer a Lucinda a não participar, nem eu ia tocar, nem o Bob ia interpretar", conta Glass. O compositor diz mesmo que a primeira vez que pôde ver a peça na íntegra foi em 2012, quando começou a digressão que agora chegou a Amesterdão, e que continuará, este ano e em 2014, pela Ásia, Austrália e Brasil. E o que viu? "Uma experiência que ainda é difícil de descrever".

Einstein on the Beach é "uma obra de charneira no trabalho de Philip Glass", escreveu Tim Page, num texto que acompanha o programa. "É a primeira, a mais longa e a mais famosa ópera do compositor e, no entanto, é a menos representativa de todas elas. Einstein foi, por excelência, um glorioso "tiro certeiro" - uma obra que inventou o seu contexto, forma e linguagem, e depois as explorou de forma tão intensa que qualquer desenvolvimento posterior se tornaria redundante. Pela sua radicalidade, Einstein preparou o caminho - na verdade, deu autorização - a muito do que aconteceu ao teatro musical desde então".

Mas esta ideia não é, ainda hoje, unívoca. No fim do espectáculo, dois maestros discutiam a importância da obra no contexto do percurso de Glass. O primeiro, inglês, não se permitia outra definição que não fosse "diarreia". O segundo, holandês, considerava que "a plasticidade da obra era a sua maior força". Nenhum deles quis revelar os nomes ao PÚBLICO, o primeiro porque já recusou dirigir obras de Glass, o segundo porque estreou algumas na Holanda. É, aliás, o maestro inglês que diz que Einstein on the Beach foi ultrapassado, "na sua estrutura, complexidade, riqueza polifónica e força", por The White Raven (O Corvo Branco), a obra que Glass e Wilson estrearam em Lisboa, na Expo"98, com libretto de Luísa Costa Gomes. "É muito mais rica e faz deste Einstein uma obra provocadora per se, sem grande stamina". O segundo maestro rebate o argumento de que "ninguém escreve música assim", usando os exemplos de Mozart e Beethoven: "Deles também disseram que ninguém compunha assim. A Sagração da Primavera [de Stravinsky] foi um escândalo na altura, esta obra também". Para o maestro holandês, é aqui que percebemos "o que é a América: a sua ingenuidade, a sua inventividade, o prazer da descoberta. Foi por isto que Einstein foi para a América. A beach [praia] é a América".

Philip Glass concordará que, ainda hoje, já mais velhos - "mas talvez ainda a procurar as mesmas coisas", disse, cheio de sageza -, tanto ele como Wilson e Childs tentam encontrar o que, em 1976, havia de sobra: "tempo". Disse Bob Wilson: "Esta é uma ópera - se for uma ópera - sobre a descoberta".