Atenção aos sinais

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Fuga sem Fim, de Victor Hugo Pontes. A partir de uma ideia de João Paulo Serafim, dias 11 e 12 Janeiro, 21h30, Culturgest, Lisboa Susana Neves

Podemos agora olhar para Fuga sem Fim e perceber que foi aqui que as coisas começaram a mudar. Por coisas entendam-se corpos, movimento, acções transitórias ou em trânsito, desenhadas a régua e esquadro por Victor Hugo Pontes, coreógrafo, encenador, formado em artes visuais e, com o tempo, uma das mais perturbadoras vozes da criação contemporânea nacional.

O espectáculo que apresenta na Culturgest é imediatamente anterior a A Ballet Story, que criou em estreia para Guimarães Capital Europeia da Cultura e que foi, para os críticos do PÚBLICO, a melhor coreografia de 2012. Visto agora percebe-se melhor porque é que, com o tempo, os corpos que vai manipulando em palco começam a perder a gravidade dos grandes gestos e encontram, na falência do detalhe, a força que os estrutura.

Será preciso dar um passo atrás, recuar até 2007, para entendermos este Fuga sem Fim. Será preciso recuar a Ensaio (integrado no conjunto de eventos na Gulbenkian, O Estado do Mundo). Victor Hugo Pontes, então já com João Paulo Serafim, deixava que o discurso da ensaísta Susan Sontag contaminasse as relações entre a falência do corpo que é fixado pela imagem e a abstracção que a partir dessa fixação fica subentendida.

Habitam na coreografia as convulsões provocadas por essa relação de contrastes, de contraditórios, de complementos.

Fuga sem Fim foi uma encomenda da Companhia Instável e gere com estimulante sagacidade um corpo de bailarinos (entre eles, uma das surpresas de 2012, Marco da Silva Ferreira) empurrados para esse duelo entre acção e projecção. Concebida a partir do filme Chantagem, de Alfred Hitchcok, a coreografia sugere uma reacção à dormência da imagem, implicando os bailarinos em decisões-limite, muitas vezes sujeitando-os à interrupção da organicidade, ou intuição, dos próprios movimentos. O que veio, depois, a explorar em A Ballet Story tem aqui, nesta fuga, a sua génese. A coreografia existe enquanto cruzamento, ou encruzilhada, entre a dança contemporânea e a fotografia, entre o corpo em potência e a ausência física do movimento. E no modo como Victor Hugo Pontes gere uma expectativa narrativa, no modo como dribla as nossas próprias expectativas, encontra-se uma hipnótica e sedutora máquina de construção de significados que têm no corpo o seu ponto-limite.

As rupturas sugeridas pelo movimento dos bailarinos são, afinal, reconversões das rupturas sugeridas pelas imagens, sejam elas projectadas- e portanto em movimento - ou fixas - e, afinal, finitas. Entre uma camada de leitura e outra, o movimento, aracnídeo, vai-se tornando cada vez mais sufocante e relevando que, afinal, a saída estava a ser dada desde o início.