Manuela de Melo entre o Porto e Álvora

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Nas primeiras páginas, Manuela de Melo no Palácio de Cristal, no PortoEm baixo, a ruína que transformou em casa e os gatos que a apaixonam

Foi rosto da RTP-Porto, vereadora da Cultura, programadora geral da Porto 2001 e deputada. Perto da reforma, Manuela de Melo comprou uma ruína numa aldeia de Arcos de Valdevez e transformou-a numa casa com assinatura. Mas a sua cidade continua a ser o Porto. Sérgio C. Andrade (texto) e Fernando Veludo/N Factos (fotos)

Manuela de Melo fez questão de nos esperar em Arcos de Valdevez e daí conduzir-nos, primeiro pela EN 101 que liga a Monção, depois pelas estreitas e sinuosas estradas municipais até ao lugar de S. Martinho Casaldoufes, na freguesia de Álvora, cerca de 12 quilómetros a norte daquela vila. Não é fácil chegar, sem guia ou GPS, a esta aldeia do Minho interior. Mas quando se entra nesse emaranhado de caminhos no vale verde do rio Vez, emoldurado entre a serra da Peneda e os montes de Ponte de Lima e de Paredes de Coura, percebe-se por que é que alguém quer aí habitar.

É isso que agora acontece com a ex-jornalista que foi rosto da RTP-Porto nas décadas de 1970/80, vereadora da Cultura e Turismo da Câmara Municipal do Porto nos anos 1990, programadora geral da Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura e depois deputada independente, pelo PS, na Assembleia da República. Foi nessa aldeia no vale do Vez que Manuela de Melo escolheu fixar-se, mesmo antes de ter decidido reformar-se no final de 2010, sem concluir o terceiro mandato no Parlamento.

Chegamos à sua casa nova em Casaldoufes e ela mal se vê, bem integrada que está na encosta da aldeia. "Quando aqui cheguei, havia apenas uma ruína em pedra, queimada e destelhada, por entre um matagal de acácias e mimosas", explica Manuela de Melo, em jeito de recepção a uma visita que iria demorar o tempo suficiente para percebermos que a nova moradora encontrou o lugar certo para este período da sua vida.

A ex-vereadora e ex-deputada chegou a Álvora por via da irmã, que aí se encontra fixada, com a família, desde há mais de uma década, habitando a casa vizinha, também reconstruída a partir de ruínas, sob um projecto do arquitecto Manuel Correia Fernandes. Ambas partilhavam, desde há muito tempo, o sonho de viver no campo. "No meu caso, demorou muitos anos; normalmente isto faz-se quando uma pessoa é mais nova", diz Manuela de Melo, nascida em Viseu em 1945, mas que viveu "uma meninice e uma infância extraordinárias" em Vale de Cambra, antes de se fixar no Porto no início da década de 1960, para acabar o liceu e fazer a Universidade. Assumindo a máxima "nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes", as duas irmãs não equacionaram o regresso à terra da infância. Mas viver numa aldeia no Norte esteve sempre no seu horizonte. "Como viajámos sempre muito, e conhecemos bem esta região entre Castro Laboreiro, Ponte de Lima, o Gerês e parte de Trás-os-Montes..., calhou ser aqui; primeiro chegou a minha irmã, que sempre teve a ideia de arranjar uma ruína e reconstruí-la".

A Manuela de Melo, contudo, não chegava ir morar para a aldeia; queria mesmo era viver a experiência de reconstruir uma casa num sítio rural. "O que, para mim, foi mais interessante foi viver todo o processo: escolher o terreno, pensar o projecto, ver como aproveitar as árvores, a exposição solar; escolher os materiais e perceber para que servem, ver o pedreiro trabalhar; decidir a melhor forma de colocar na casa os móveis de família, que eu tinha encaixotado porque não cabiam no meu apartamento do Porto...".

Ao contrário do que poderia imaginar quem conhece a relação afectiva que Manuela de Melo mantém, desde há anos, com Nuno Portas - a quem chama o seu "companheiro intermitente" -, não foi este arquitecto quem se ocupou do desenho da nova casa. "O Nuno não gosta nada disto, ele é verdadeiramente um urbanista, não um arquitecto", justifica Manuela de Melo, acrescentando que a sua contribuição se limitou à defesa da utilização da telha portuguesa tradicional para os telhados. "Eu também quis evitar aquela arquitectura moderna ao "estilo micro-ondas", de que fala o Álvaro Domingues", acrescenta a moradora.

Para projectar a sua casa no campo, recorreu, em 2007, a Tiago Vidal - que, com a arquitecta Isabel Carvalho, venceu o concurso público para a recuperação do Estaleiro do Ouro, no Porto, uma obra que não sairia do papel (mas que representou Portugal na Bienal de Arquitectura de São Paulo em 2011). "Por causa disso, e da crise, o Tiago Vidal teve de emigrar para o Brasil", lamenta Manuela de Melo.

Móveis de família e IKEA

A casa em Casaldoufes é a expressão duma arquitectura simples, agradável, prática e cómoda: à reconstrução da ruína pré-existente, o arquitecto e a proprietária acrescentaram dois módulos novos, de dois pisos, reservando o primeiro para os quartos e o segundo para a zona de estar e de serviço, com ligações abertas (sem portas) e funcionais. No interior, Manuela de Melo casou de forma prática a sua herança mobiliária - a cama do avô, a cómoda da mãe, o antigo beliche do filho... - com os artigos da linha IKEA.

O sentido pragmático e a procura do conforto marcaram a construção e decoração do edifício, em cujas paredes podemos revisitar a biografia profissional e afectiva da moradora: uma pintura naïf de A.J. Moreira (também conhecido como "Albino Barbeiro") representando a Feira do Pão na Praça de Santa Teresa (actual Praça de Guilherme Gomes Fernandes), no Porto; um quadro têxtil de Dalila Antelo, professora de Artes Visuais ("é o meu Rothko", diz Manuela de Melo, numa referência ao parentesco estético do quadro com a obra do grande pintor expressionista); um quadro de Ângelo de Sousa; uma serigrafia de Nuno Teotónio Pereira representando o quarto do arquitecto lisboeta que foi mestre de Nuno Portas, quando se encontrava no Porto a cumprir serviço militar; uma reprodução de um pessoalíssimo mapa do Porto ilustrado por Manuela Bacelar ("toda a gente da minha geração tem uma cópia dele"); o belo cartaz com Claudia Cardinale (em Vaghe stelle dell"Orsa...) do ciclo dedicado a Luchino Visconti pela Porto 2001. Além da acumulação de livros, pastas, dossiers de documentos de toda uma vida profissional ("é para, um dia, eu... deitar fora", admite, resignada).

O Porto surge, sem surpresa, como denominador comum na iconografia da casa na aldeia, como o é da vida de Manuela de Melo. "Ao contrário do que possa parecer, eu gosto muito da vida urbana, e o Porto continua a ser a minha cidade", diz, explicando que divide actualmente o seu quotidiano entre o seu apartamento portuense junto à Quinta do Covelo e a casa em Arcos de Valdevez - mas com o tempo a tender "mais para a aldeia".

Manuela de Melo regressa ao Porto sempre que quer assistir a um concerto, ir ao teatro ou ver uma exposição. E também por causa de afazeres que mantêm a sua ligação à vida profissional urbana, como a presidência do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Porto, ou, em Lisboa, o conselho consultivo do programa da Fundação Gulbenkian para a Educação e Ciência, Descobrir, a convite de Artur Santos Silva. "Foi um convite que aceitei com muito entusiasmo, até porque se trata de um programa idêntico ao que eu tinha na Câmara [do Porto], de ligação com as escolas", diz a ex-vereadora.

Num bairro na cidade

Para falar da sua relação com o Porto - e para tirar novas fotografias -, Manuela de Melo escolheu o Palácio de Cristal. "Gosto muito do lugar em que habito, o Covelo, perto de Costa Cabral. Há ali um bairro: a gente pode ir à loja sem dinheiro, que não há problema, depois passa por lá para pagar. Conhecem-nos na padaria, no café... Gosto disso. E tem o parque [do Covelo], que é uma mais-valia muito grande, um pulmão da cidade - é das raras obras de Rui Rio -, faz-se lá o circuito de manutenção", diz Manuela de Melo, explicando que quando esteve em Lisboa, no Parlamento, também morou num bairro idêntico entre o Príncipe Real e a Praça da Alegria. "É muito simpático viver numa cidade grande e podermos sentir-nos como numa aldeia", justifica, sem negar, no entanto, a diferença que Lisboa (e o Porto, à sua medida) tem, com a sua agenda cultural e de lazer. "Há sempre muita oferta e coisas novas para fazer..."

De regresso ao Porto, e ao Palácio de Cristal: "Este é um lugar muito ligado ao meu trabalho sobre a cidade", diz, referindo-se à sua acção como vereadora da Câmara, que tinha este equipamento na dependência do seu pelouro, "à excepção do Pavilhão Rosa Mota". "Ainda tentei ficar com ele, achei que era um lugar extraordinário para montar um Centro de Ciência Viva, mas o [pelouro do] Desporto foi mais forte e ficou com ele", explica Manuela de Melo, manifestando a sua preocupação perante o que conhece sobre o projecto actual de readaptação e ampliação do Rosa Mota para a criação de um novo centro de congressos. "O Palácio está no limite da capacidade de se construir aqui, e receio o impacto que o projecto venha a ter sobre os jardins", nota. A ex-vereadora reivindica, de resto, a sua responsabilidade na saída da Feira Popular e na recuperação dos jardins do Palácio, e também na construção da Galeria e da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, equipamentos inaugurados aquando da Porto 2001. E Manuela de Melo encaminha-nos para a entrada da biblioteca para nos mostrar onde fora instalado o "Jardim de Roterdão" (cidade que foi igualmente, nesse ano, Capital Europeia da Cultura). "Tinha uma placa e túlipas, que eles mandaram de lá; e nós mandámos-lhes camélias, creio". O referido lugar está agora identificado como "Jardim das Nações", mas o tempo não é de flores...

Falando já como cidadã, Manuela de Melo diz que o Palácio de Cristal é um sítio onde continua a gostar de visitar e de passear sempre que está no Porto. Acha que ele exemplifica bem o que é a cidade: dali vê-se simultaneamente o rio e o mar; está-se em pleno circuito dos caminhos do romântico, e a caminho do centro histórico. "É um lugar que tem ainda muito carácter; gosto muito destes socalcos, desta diversidade, da relação com o rio e com o mar, e também com Gaia".

É inevitável questionar a ex-vereadora da Cultura portuense com o destino que a cidade teve nos mandatos de Rui Rio, em que esta área foi ostensivamente desvalorizada. Sente que o seu trabalho foi perdido, injustiçado? "Não diria injustiçado. As coisas são o que são. Mas eu acreditei que as pessoas, sobretudo aquelas a quem foram dirigidos os múltiplos programas de iniciação, de apoio ao desenvolvimento de projectos artísticos, culturais e até simplesmente conviviais, tendo a cultura como base, acreditei que os munícipes passassem a querer isso mais do que posteriormente se veio a verificar que queriam", responde. "Mas é responsabilidade minha; devia tê-los convencido melhor", assume.

Manuela de Melo lamenta que o actual presidente nunca tenha "esclarecido claramente qual era a sua ideia para a cidade". Acha que "a solidariedade, só, não chega". "A cidade do Porto, pequenina como é em território, e não tendo agricultura, nem pescas, nem indústria, vive muito numa esfera que tem a ver com o conhecimento, a universidade, a investigação científica, as indústrias criativas... E não se consegue ter uma boa universidade numa cidade que é um deserto cultural", defende a ex-vereadora, que, no entanto, recusaria a hipótese de voltar à vida política autárquica.

Lembrando ter já recusado, em ocasiões anteriores, convites para se candidatar à presidência das câmaras de Valongo e de Gaia, Manuela de Melo reafirma que essa foi "uma fase que ficou para trás", e defende que três mandatos são tempo suficiente para se cumprir programas autárquicos ou parlamentares. De resto, inscreveu-se, no ano passado, como eleitora na sua nova freguesia de Arcos de Valdevez. E a única participação que admite vir a ter é mesmo na vida comunitária local. "Ainda não fui à romaria da freguesia, mas já vêm cantar as Janeiras a minha casa, e já contribuí para algumas festinhas e já participei numa colecta para substituir uma vaca que tinha morrido a um agricultor."

Por este tempo, essa vertente comunitária chega para o dia-a-dia de Manuela de Melo, que continua a ocupar-se do jardim e da horta da sua casa, a ler e a ouvir música, na companhia dos seus dois gatos amarelos residentes (o Misha e o Picki) e os outros quatro, mais os três cães, "hóspedes", que vão entrando e saindo da casa à medida que as portas se vão abrindo e fechando - e elas estão quase sempre abertas. "Como diz o Nuno [Portas], os gatos são bons para a preguiça", diz Manuela de Melo.

O Misha confirma que sim, e salta para o colo da sua dona, no sofá da sala de estar.