Um edifício da arquitecta Zaha Hadid pirateado? É possível

Na China, um edifício que está a ser erigido em Chongqing apresenta grandes semelhanças com uma obra de Zaha Hadid para Pequim. Inspiração? Ou plágio?

Já conhecíamos o fenómeno da música, dos filmes, dos livros, até da moda, mas parece que a pirataria assume agora outra frente e logo na arquitectura. Tudo porque uma empresa chinesa está a ser acusada de plagiar em Chongqing um edifício projectado pela arquitecta Zaha Hadid para Pequim. E agora falta ver quem é que termina primeiro.

Em questão está o complexo comercial e de escritórios Wangjing Soho, projecto divulgado em 2011, com conclusão prevista para 2014, concebido pelo gabinete de Zaha Hadid para ser um "farol" entre a cidade e o aeroporto, um cartão de visita (ou de despedida) de Pequim.

Entretanto, a quase 1500 quilómetros, em Chingqong, está a ser construído o Meiquan 22nd Century que apresenta umas quantas semelhanças com o edifício da Pritzker 2004. Hadid pode ser, assim, uma vítima do seu próprio sucesso: tem onze projectos em andamento no país e a grande culpada parece ser a Guangzhou Opera House, inaugurada há dois anos, que deslumbrou meio mundo e tornou a arquitecta numa musa... inspiradora.

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Modelo do Meiquan 22nd Century AFP

China, o "macaco de imitação"

De acordo com o Spiegel Online, Hadid, a própria, terá dito numa entrevista que se vê agora obrigada a competir com os "piratas" para completar o seu projecto primeiro. O risco de não o conseguir é grande, visto que o edifício de Chongqing está em velocidade de cruzeiro, apesar de esta construção ter começado depois. Os lamentos são partilhados por Zhang Xin, a bilionária que encomendou o projecto à arquitecta britânica de origem iraquiana: "Toda a gente diz que a China é um óptimo 'macaco de imitação' ("copycat" no original) e que consegue copiar tudo."

Satohi Ohashi, director de projecto do complexo em questão, põe a hipótese de os "piratas de Chongqing" se terem apoderado de alguns ficheiros digitais ou "renders" do projecto. E, tendo em conta o sucesso de Hadid, o avanço tecnológico (Internet, a eterna amiga/inimiga) e, dizemos nós, a pequena predilecção do país por estas mimetizações, Ohasi vai mais longe: "Tenho a certeza que algum arquitecto já está a trabalhar noutra versão da Guangzhou Opera House." Já Yao Tumao, director-geral da sociedade por detrás do Meiquan 22nd Century, defende-se, dizendo que as acusações "não são verdadeiras" e "têm um impacto negativo" na sociedade", cita a AFP, de acordo com declarações do responsável publicadas na Internet.

O periódico alemão recorda que este não é o primeiro caso do género no país, conhecido pela irreprensível indústria das imitações e pelo vazio (ou antes, prática) legal que a envolve. No ano passado, descobriu-se que arquitectos chineses estavam a preparar o "doppelgänger" de Hallstatt, aldeia austríaca classificada pela Unesco como Património da Humanidade. E até o Porto já entrou nesta lista de desejos. Por outro lado, a eterna questão influências versus cópia é um tema recorrente, também na arquitectura. O DesignBoom lembra uns quantos caso.

A verdade é que esta novela tem feito correr muita tinta do outro lado do mundo, e já chegou aos tribunais — ainda sem conclusão à vista, apesar do optimismo de Xin, Hadid e companhia. Num artigo sobre os aspectos legais do caso, a revista "China Intellectual Property" traça a cronologia. Um aparte: a 16 de Maio, o Meiquan 22nd Century lançou um novo slogan na rede de microblogging Sina Weibo: "Never meant to copy, only want to surpass." ("Nunca quisemos copiar, apenas ultrapassar")