A Síria está a morrer

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SAM TARLING/afp

A única ONG que tenta desde o início contar os mortos da repressão regista 46 mil. A ONU diz que já são 60 mil. A fome e as doenças começam a matar mais do que a guerra

A Síria revoltou-se, começou a sangrar e agora está a morrer. Passaram 21 meses, mais de 60 mil mortos. Se ninguém fizer nada, outros 100 mil sírios vão morrer este ano, avisou o enviado das Nações Unidas e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi.

Na quarta-feira, o Observatório dos Direitos Humanos registou a morte de 219 sírios. Na véspera, contou 138. No dia anterior, 143. Domingo, dia 29 de Dezembro, 399.

Esta ONG, que conta com uma rede de activistas e de médicos no país (e é a única que tenta desde o início contar os mortos da mais mortífera das primaveras), ainda só conseguiu identificar 46 mil mortos. A ONU decidiu cruzar dados de sete fontes e descobriu que já são mais de 60 mil. Ontem, o mundo acordou e percebeu que esta é a dimensão da tragédia. Em 2012, o ritmo da morte foi oito vezes superior ao de 2011.

O Observatório não consegue contar os milhares de desaparecidos e presos, nem a maioria dos que são chacinados às mãos dos milicianos das Shabbiha e dos combatentes estrangeiros oriundos de 20 países que entretanto combatem na Síria.

De massacre em massacre morre-se muito. Agora, em grande parte da Síria, já se morre tanto de fome e de doença e de frio como de guerra. Às vezes morre-se das duas coisas: debaixo de um míssil na fila para o pão quando volta a haver farinha; à espera de gasolina, quando se soube que uma bomba ia ser reabastecida.

Alepo, cidade de três milhões, não tem electricidade nem carne nem legumes a preços que a maioria possa pagar, mas tem em montanhas de lixo o que lhe falta em tudo o resto. As infra-estruturas foram desfeitas pelas bombas, o sistema sanitário ruiu e os sistemas imunitários dos habitantes também. Por isso, há bairros onde a tuberculose é galopante e há centenas de casos de leishmaniose, doença de pele transmitida pela mosca da areia que se multiplica no lixo por recolher, descreveu na semana passada ao Washington Post Saad Wafai, do comité de crise do Conselho Revolucionário Transitório de Alepo.

Não é só em Alepo. Os relatos de gente à procura de comida no lixo ou a destruir o interior de casas para conseguir lenha chegam de muitos pontos da Síria, das zonas mais rurais aos centros urbanos com restaurantes e hotéis em palacetes otomanos que os turistas e os sírios de classe alta enchiam até há pouco tempo.

Foi em Julho que os rebeldes se lançaram à cúpula do regime e entraram em Damasco e Alepo. Mal armados (pela Turquia, pelo Qatar, pelos sauditas), ficaram a meio. Visto de fora, Assad surge como um homem que percebeu que não podia vencer mas que não ia desistir. "Não sou pessoa de abandonar as minhas responsabilidades", é uma frase que o ouvimos dizer várias vezes em 2012.

Em Junho de 2011, a Human Rights Watch denunciou que "o recurso à tortura" se tinha tornado "desenfreado" desde o início da contestação, em Março, a pedir mais liberdade e menos corrupção.

Em Fevereiro de 2012, a comissão de inquérito para a Síria criada pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos concluiu que as ordens para matar, prender e torturar civis de todas as idades vinham do topo. Os investigadores fizeram centenas de entrevistas e analisaram milhares de imagens e perceberam que o Governo usava "as Shabbiha para, de forma estratégica, cometer crimes contra a humanidade".

"Agentes de segurança acorrentaram pacientes feridos com gravidade às suas camas, electrocutaram-nos, bateram em zonas dos seus corpos já feridas ou negaram-lhes atenção médica e água", escreveu em Março a mesma comissão a propósito de um hospital na cidade de Homs. "O Governo tem basicamente bombardeado civis. Em Homs e noutras áreas. E claro, morrem crianças, mulheres, jornalistas. Morre quem está em casa", disse ao PÚBLICO o diplomata brasileiro que chefia a comissão de inquérito, Paulo Pinheiro.

Sem uma intervenção externa rápida, "há risco de genocídio", afirmou em Junho o ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Giulio Terzi. Em Agosto, o International Crisis Group descreveu como o regime alauita se transformou numa "milícia brutal, empenhada numa luta desesperada pela sobrevivência". O regime, explicou então o think tank, já nem governava nem era um regime. Reduzido ao "núcleo", ao "aparato repressivo", estava "incapaz de derrotar os seus inimigos e de considerar uma alternativa" e era já "quase impossível de destruir sem derrubar o país como um todo".

Da política de repressão passou-se à da terra queimada.

"Assad é estúpido, mas não é louco. O problema foi que o mundo lhe deu luz verde para nos matar. Revoltámo-nos contra Assad. Mas afinal temos de derrotar o mundo todo", disse-nos em Abril Taman Esselum, professor de árabe que deixara a vida em Damasco para voltar a Hama, onde nasceu, e formar um dos Comités Locais que por todo o país começaram por organizar os protestos, depois a resistência e a seguir a guerra. "Seremos livres, nem que seja mortos", disse na fronteira com a Turquia, onde tinha ido pedir ajuda, antes de voltar a Hama sem nada.

Rami Jarrah, activista que esteve nas primeiras manifestações, tentou explicar-nos como por um momento breve os sírios acreditaram que não teriam de morrer assim nem de ver o seu país desaparecer. "Fomos surpreendidos, mas só porque nos convencemos de que podia ter sido de outra forma. Mas depois lembrámo-nos de como o regime é sangrento e percebemos que Bashar é uma marioneta, muito pior do que nós pensávamos e tão perigoso como o pai."

A primeira grande guerra

Há um ano, a maioria dos analistas apostava que 2012 seria o ano em que Assad deixaria o poder, vivo ou morto. Em vez disso, foi o ano em que se entrincheirou para destruir tudo à volta. Entretanto, a oposição radicalizou-se. Em Dezembro, a ONU descreveu "um quadro extremamente sombrio com violações da lei humanitária cometidas pelos dois lados". "Esta é uma guerra onde não é possível qualquer vitória militar", diz Paulo Pinheiro.

"A não ser que aconteça um aumento dramático na intervenção externa, Assad pode continuar lá em 2014", disse ontem o especialista em Síria Joshua Landis, citado pelo site da Time. "A situação está à beira de se transformar na primeira grande guerra do século XXI" e perante a inacção do mundo, disse ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas, a abrir o Seminário Diplomático anual.

Razan Ghazzawi é uma síria que nasceu na Florida mas vive em Damasco. É a única blogger que escreve em inglês a partir da Síria. Uma das últimas entradas do seu blogue é o poema Os Revolucionários Não Podem Falar: "Eu não posso ser a última síria viva/ Eu não posso ser a síria que partiu, e ainda está viva."

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