"O meu marxismo foi o rock"

Os Faíscas (Pedro Ayres de Magalhães em primeiro plano), na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, em 1978João de Menezes-Ferreira na sua casa em Lisboa
José Paulo ferro
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Os Faíscas (Pedro Ayres de Magalhães em primeiro plano), na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa, em 1978João de Menezes-Ferreira na sua casa em Lisboa José Paulo ferro

Estro in Watts - A Poesia da Idade do Rock, antologia de 563 letras do universo pop/rock entre 1955 e 1980, é um manifesto de juventude preparado durante 30 anos por João de Menezes-Ferreira. Chega às lojas em Janeiro, com selo da Documenta

Começa com os Blue suede shoes, de Carl Perkins, 1955. Termina passadas duas décadas e meia, em 1980, com uma letra de Rui Reininho que havia de figurar no primeiro álbum dos GNR, Independança, com a transição de Laurie Anderson das artes plásticas para a música, com as maquetas deixadas por António Variações numa caixa de sapatos, com Bob Marley, Teardrop Explodes, The Cure ou Joy Division. Outra hipótese: acaba com a morte de Ian Curtis, ao som de The Idiot, de Iggy Pop, a rodar interminavelmente no gira-discos. Outra mais real ainda: uma torrente de poesia pop/rock estancada quando o programa radiofónico A Idade do Rock chega ao fim, precisamente, em 1980.

Mais dia menos dia, foi nesse em que A Idade do Rock deixou as ondas hertzianas da RDP FM Estéreo que João de Menezes-Ferreira percebeu ter nos textos escritos para o programa, em que se propunha estabelecer pontes entre as palavras das canções (traduzidas às centenas), as vidas dos seus autores e os contextos sociais em que surgiam, material que urgia reunir sob o guarda-chuva de uma antologia de letras do mundo pop/rock. Mas o escopo era ainda demasiado largo quando, em 1981, Menezes-Ferreira acertou a ideia com Manuel Hermínio Monteiro, então director da Assírio & Alvim. Na altura, acordaram inclusivamente que deveria ser um dos títulos inaugurais da colecção Rei Lagarto.

Depois, a vida intrometeu-se. Os afazeres enquanto deputado ou chefe da delegação portuguesa na redacção do tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia só permitiram a Estro in Watts que fosse lentamente afinando o conceito. Tornou-se então clara a decisão mais definidora das escolhas do material e que acaba por ser uma tese que Menezes-Ferreira faz correr pouco silenciosamente por debaixo dos textos. "Sempre me interessei pelos movimentos de juventude", explica. "E o rock não está desligado de uma determinada afirmação dos adolescentes. É uma espécie de carta de alforria progressiva dos adolescentes, desde a eclosão do rock"n"roll até ao momento em que deixei de ser crítico e acabou o programa. Curiosamente, acho que foi quando a juventude adquiriu um estatuto de autonomia. Daí para a frente, até hoje, estamos numa idade madura e essa autodeterminação está adquirida."

Portanto, a regra mais importante a ser observada (ainda que com cirúrgicas excepções) na selecção dos poemas foi fixada na barreira dos 30 anos como idade máxima dos músicos à data da escrita de cada letra. Como forma de poder acompanhar o "manifesto de juventude" durante várias gerações e também como garante de uma relação privilegiada com a utopia e a crença pré-cinismo de que o mundo - qualquer espaço, na verdade, do planeta à rua - pode ser transformável pela acção da música. "É uma fase de enchimento, de utopia, de idealismo e também de assimilação de coisas muito díspares. É muito sincrética", resume Menezes-Ferreira.

Aos autores depois dos 30, afirma, impõem "uma expulsão administrativa da antologia". Ao abrigo de um regime de excepção surgem apenas Leonard Cohen, Patti Smith, José Afonso ou Laurie Anderson, gente chegada ao rock (ou à sua periferia) já depois dos 30 mas de importância incontestável para a história da palavra cantada. A adolescência é igualmente o lugar certo para tomar o pulso às mudanças de discurso - da mera exaltação dos bailes e dos namoros à contestação de guerras e ditaduras, ao enamoramento com as drogas e ao niilismo - e acompanhar "a música dos inovadores", entre os quais aqui se contam Bob Dylan, Beatles, Lou Reed, Jacques Brel, Curtis Mayfield ou Chico Buarque. A diferença, diz, reconhecendo inovações textuais no trip-hop ou no hip-hop, é que depois de 1980 a tal autodeterminação estava consumada em definitivo. Nalguns casos, no entanto, lutou com a elasticidade das suas próprias regras para incluir Laurie Anderson, por entender que O Superman "é o começo de outra forma de contar histórias", recorrendo ao subterfúgio de o tema ter, talvez, sido composto um ano antes da sua estreia em 1981 no circuito das artes plásticas. Assim como se valeu das entrelinhas para telefonar a Rui Reininho pedindo-lhe uma letra que fosse anterior ao primeiro álbum dos GNR, Independança, de 82, tendo Reininho proposto um tema desse mesmo disco, Bar da morgue, rascunhado originalmente em 1980.

A hegemonia anglo-saxónica

O histórico papel de contrapoder desempenhado por gerações sucessivas de intérpretes do rock, entretanto esbatido, não é verdadeiramente importante para que a antologia se feche em 1980. Esse lado de institucionalização e absorção de um discurso musical e textual, puxando-o das margens para o centro, anulando-lhe o carácter subversivo, é uma discussão de há muito, defende o autor. "Isso existe já no período a que a antologia respeita. Houve sempre essa discussão, que tem também que ver com a aculturação. Isto é uma música de predomínio - se não de hegemonia completa - anglo-saxónico. Pode até dizer-se que é um imperialismo anglo-saxónico a partir da música. É um negócio enorme e, portanto, do ponto de vista cultural é também perigoso. Mas essa discussão já existe quando os Beatles e os Stones começam a ser máquinas de concertos e de vendas. A história do capitalismo via rock e da pureza do rock é logo colocada quando, bastante cedo, se começa a vender milhões. Não é coisa que me faça confusão."

Estro in Watts reflecte, naturalmente, essa hegemonia anglo-saxónica, visitando menos demoradamente a música francesa, a brasileira ou portuguesa (José Afonso, Sérgio Godinho, Rui Veloso/Carlos Tê, Rui Reininho...), sempre consciente de "o inglês se ter tornado o esperanto dos séculos XX e XXI". E espelha a forma notável como a cultura norte-americana soube encenar a rebeldia e romantizar a adolescência. Não é por acaso que Menezes-Ferreira cita na sua introdução Fúria de Viver, de Nicholas Ray. Não é por acaso que não ignora a glorificação de um género musical que nasce do casamento entre as culturas afro-americana dos blues e a "cowboyesca" da country, juntando ambas numa ideia de celebração do regresso da poesia oral, ligando-a à referência primordial: "Se lermos a fantástica versão do Frederico Lourenço da Ilíada, é poesia oral descarada, com repetições, com gritos, parece que foi dita. E é o começo da nossa poesia."

Para o autor, de resto, muita desta história vive-se na profunda intimidade com a beat generation e com uma linhagem em que os melhores poetas não só se ligam aos beatniks como prolongam ainda uma linha de heróis - "são sempre os mesmos: William Blake, Mallarmé, Rimbaud, Baudelaire, Walt Whitman, García Lorca, Yeats" - vinda desde o século XVIII. É precisamente neste enfiamento que reside um dos mais robustos argumentos de Estro in Watts: o de que esta poesia não deve ser menorizada perante aqueloutra publicada em livro apenas porque "tem repetições, acompanha o ritmo de elocução verbal e tem uma métrica que é a da respiração". "Estes grandes poetas seriam sempre grandes poetas de livros, mas escolheram a música porque acharam que era esse o veículo."

Uma cultura nossa

Durante muitos anos, num trabalho solitário madrugadas dentro, Menezes-Ferreira foi engrossando a selecção de poemas até atingir o ponto em que acredita que o retrato é completo, traduzindo laboriosamente - "mantendo a rima, a disciplina, o sentido e dando uns toques para poder, eventualmente, ser cantado" - e dando corpo a uma antologia de "uma música que, sendo estrangeira, é nossa". "Esta cultura foi, para mim, uma escola. Há uma geração pós-25 de Abril que se reclama marxista. O meu marxismo foi a música, foi o rock. Aprendi a ser adolescente não tanto lendo livros teóricos mas a viver isto." Por isso, sustenta que Estro in Watts é um livro vivido: "Sendo uma espécie de manifesto das várias gerações de adolescentes, é também a minha história contada por interpostas pessoas, interpostas poesias." E é, naturalmente, um livro que nas suas escolhas desvenda preferências pessoais. Laura Nyro, por exemplo, a mais brilhante cantora negra acidentalmente branca deste período (para quem conseguiu olhar para lá de Janis Joplin), é merecedora de um destaque que não esconde o amor absoluto que o autor confessa ter pela sua obra.

A Idade do Rock durou dois anos e meio na RDP Estéreo FM. O seu lastro estendeu-se por três décadas de difíceis recolhas das poesias - recorde-se que não havia auto-estradas da informação mas sim "caminhos de terra batida" por todo o mundo onde Menezes-Ferreira caçava livros piratas com a transcrição das letras que queria coligir - e de uma profunda investigação de dados biográficos. Agora, com este conjunto de 563 poesias de 170 autores, talvez muitos dos que privaram com estas canções no devido tempo possam prestar uma outra atenção aos textos. O rock, já o sabemos, celebra-se estrepitosamente em concertos, com as palavras a lutar por se manterem à tona de um mar de electricidade, debitada por poderosos sistemas de som. Estro in Watts - A Poesia da Idade do Rock livra-as momentaneamente dessa luta desigual. Com um peso na consciência - porque estas letras foram feitas para existir na companhia da música -, mas cumprindo um testemunho que lhes era devido.

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