Comediante egípcio investigado por "insultar" o Presidente

O “Jon Stewart egípcio” usa a liberdade de expressão do Egipto pós-Mubarak. Investigação aumenta medo de que a nova Constituição ofereça poucas salvaguardas a esta liberdade.

Bassem Youssef no seu programa de sátira política
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Bassem Youssef no seu programa de sátira política DR

Cada vez que falava no seu popular programa, a sua mãe tinha medo que fosse preso, contou um dia Bassem Youssef numa entrevista. Youssef sempre relativizou estes medos embora admitisse que fazia coisas em que a sua própria audiência mal acreditava. Agora, está a ser investigado por insultar o Presidente.

A investigação,  ordenada pelo Ministério Público depois de uma queixa formal de um advogado islamista, causa especial preocupação numa altura em que o Egipto tem uma nova Constituição, que os críticos dizem não proteger suficientemente a liberdade de expressão. Um outro jornal anunciou entretanto que está a ser acusado de “pôr a circular notícias falsas”.

Youssef é um cirurgião cardiotorácico que começou a colocar clips satíricos no YouTube após a queda do antigo Presidente, Hosni Mubarak. Teve tanto sucesso que acabou contratado por uma estação de televisão (vista como mais à esquerda e liberal), e mudou recentemente para outra (vista como mais próxima do poder). No programa, ironizou sobre a mudança, mostrando-se com sacos e sacos de dinheiro.

O comediante de 38 anos, que se inspira no norte-americano Jon Stewart (e já foi recebido por este no Daily Show), é o primeiro a dizer que por vezes nem os espectadores que assistem ao programa no estúdio (é dos poucos gravados com audiência na televisão egípcia) querem acreditar o que estão a ouvir.

Bassem Youssef já usou declarações feitas pelo Presidente, Mohamed Morsi, para mostrar contradições. Durante a campanha, Morsi garantia “O Presidente, se for eu, irá agir de acordo com a vontade do povo. E se não o fizer, eu serei o primeiro a sair e seguir a vontade do povo”. A garantia pré-eleitoral contrasta com a imagem de um Presidente entretanto sujeito a enorme contestação por ter reivindicado para si capacidade legislativa que não poderia ser desafiada pela lei ou insistido na aprovação da Constituição, com muita gente na rua a reivindicar a queda do regime.

Super-Morsi, o Presidente que pode tudo
A emissão de um episódio de Dezembro tinha sido atrasada. Era um episódio em que Youssef escolheu caricaturar a concentração de poder que Morsi protagonizou (e na qual o Presidente voltou, entretanto, atrás): ouviram-se as palavras “faraó”, "ditador”, e um comentador do programa explicava o alcance das medidas do Presidente: “Se Morsi quiser casar com a tua mulher, não podes fazer nada.”

O programa também apresentou o Presidente como um super-herói, pegando numa imagem sua, na tomada de posse na Praça Tahrir, a abrir o casaco com as duas mãos para mostrar que estava ali sem um colete à prova de bala. No programa, por baixo do casaco surge o seu fato de super-herói.

O adiamento irritou-o, escreveu no Twitter, e decidiu não abrandar. O programa seguinte abriu com um leilão: "Ouço sete milhões e meio. Alguém dá mais? Oito milhões, ouço oito milhões. Nove? Nove milhões. Tenho nove milhões, nove milhões, um, dois... vendido." Os números são os vários dados pela Irmandade Muçulmana para descrever a sua manifestação de apoio ao Presidente.

Youssef diz tratar os salafistas e os membros da Irmandade Muçulmana como políticos de direita. “Não lido com eles como grupos religiosos, mas sim como grupos políticos”.

No fundo, ele tem reclamado para si o estatuto de muçulmano e criticado os fundamentalistas que falam como se fossem donos da religião. Estes não têm gostado e têm retorquido. Youssef viu-se envolvido numa polémica com um apresentador islamista.

Numa entrevista à CNN, Youssef considerou que “esta é a melhor altura para sátira política no Egipto”: “Está tudo a acontecer, estamos numa espécie de telenovela política.”

Youssef disse que os políticos parecem estar a aceitá-lo bastante bem. Mas admitiu que por vezes "os espectadores [no estúdio] não querem acreditar" no que estão a ouvir - "riem-se, mas estão chocados". E a sua mãe, contou, fica sempre preocupada com cada programa seu. “Mas isso é típico das mães”, desvalorizou. 

Esta é a última, e mais grave, acção dos islamistas contra Youssef, mas a correspondente da BBC no Cairo sublinhava que está longe de ser claro que esta investigação vá resultar numa acusação.