Bento XVI descreve "capitalismo desregrado" como uma ameaça à paz

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Papa Bento XVI

Na mensagem de Ano Novo, o Papa enalteceu os "obreiros da paz" e denunciou desigualdades entre ricos e pobres

O Papa Bento XVI rezou ontem pela paz e disse esperar que a "vocação natural da humanidade" para o bem se sobreponha às ameaças que ela enfrenta, incluindo o "capitalismo financeiro desregrado".

"Cada ano novo traz consigo a expectativa de um mundo melhor. Com a luz e a graça de Deus, possa este ser o início de um novo caminho", exortou o Papa na mensagem de Ano Novo proferida da varanda sobranceira à Praça de São Pedro, repleta de fiéis para as celebrações do dia que a Igreja Católica assinala como Dia Mundial da Paz. Enquanto Bento XVI falava, participantes numa marcha pela paz que terminou no Vaticano libertaram balões azuis com a pomba branca.

Numa mensagem que disse ter sido inspirada pelo louvor de Cristo a quem trabalha pela paz - "Bem-aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus" -, o Papa enalteceu aqueles que se dedicam a promover a concórdia, muitas vezes longe dos olhares públicos, "apenas com as armas da oração e do perdão".

Mas 2013 começa com heranças pesadas, seja a recessão na Europa, sobretudo a do Sul, seja a guerra na Síria, conflito que abeira o país da ruína e ameaça a estabilidade do Médio Oriente. Ameaças que a par do fanatismo religioso, do terrorismo e da criminalidade, exigem um "renovado empenho na busca do bem comum", disse.

Entre todos os males que afligem o mundo, o Papa denunciou em especial os "focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio de uma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado".

Quando a Europa debate formas de ultrapassar a crise, o Sumo Pontífice denunciou "as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia" que insinuam "que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado, [...] bem como dos direitos e deveres sociais".

Considerando que "o direito ao trabalho é um dos mais ameaçados", Bento XVI pede "novas e ousadas políticas" que reconheçam o emprego "como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade" e não como "uma variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros".

Antes, na homília de Ano Novo, o Papa desafiara os crentes a procurar junto de Deus a "paz interior necessária a tempos da história que são por vezes tumultuosos e de confusão". Houve também tempo para reafirmar a oposição do Vaticano ao casamento entre pessoas do mesmo sexo - que disse desestabilizarem a "insubstituível função social" da união entre um homem e uma mulher - e à legalização do aborto, que considerou também uma ameaça à realização da paz.

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