Hitler de joelhos no gueto de Varsóvia provoca polémica

Representantes da comunidade judaica manifestam repulsa pela presença da escultura de Maurizio Cattlelan no gueto de Varsóvia, na Polónia.

"Him" numa apresentação em Munique, Alemanha, em 2003
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"Him" numa apresentação em Munique, Alemanha, em 2003 Diether Endlicher/AP

Tem sido assim desde o início, em 2011: por onde passa, "Him", a peça em que o artista plástico italiano Maurizio Cattelan retrata Adolf Hitler de joelhos, parecendo orar, deixa um rasto de polémica. Mas talvez nunca antes esta pequena escultura tenha tocado cordas tão sensíveis como aquelas que agora se agitam.

 Tida como uma representação da presença e da natureza do mal entre nós, homens, Him está agora em exposição no antigo gueto de Varsóvia, que se pensa ter levado à morte de cerca de 300 mil judeus, quer de fome e doenças quer por dali terem sido enviados para campos de concentração e extermínio.

Desde a instalação, há um mês, a peça tem atraído cada vez mais visitantes. Talvez por isso a polémica tenha vindo a crescer, com a comunidade judaica a começar a manifestar o seu desconforto. Nos últimos dias, os responsáveis pelo Simon Wiesenthal Center consideraram a presença da peça no gueto como “uma provocação sem qualquer sentido e um insulto à memória dos judeus vítimas do nazismo”.

“No que diz respeito aos judeus, a única ‘oração’ de Hitler foi terem sido varridos da face da terra”, disse citado pelo jornal britânico The Guardian o director israelita do centro, Efraim Zuroff, referindo-se a uma leitura comum da obra em que esta é vista como um ajoelhar penitente do Fürhrer, em oração.

Fabio Cavallucci, director do Centro de Arte Contemporânea da cidade, responsável pela instalação da obra já fez saber que “não houve qualquer intenção pela parte do artista ou do centro de insultar a memória judaica”: “É uma obra de arte que tenta falar sobre o mal que se esconde em todo o lado.”

O mais importante rabi polaco, Michael Schudrich veio também a público explicar que foi consultado sobre a exposição da obra e que não se opôs por considerar que veicula um questionamento moral com o qual considera importante que as pessoas se confrontem.

Na opinião de Michael Schudrich, a obra mostra como o mal se pode apresentar até no corpo de “uma doce criança a orar”: “Achei que tem um valor pedagógico”, disse também citado pelo Guardian.

Parte de uma série de esculturas em que Cattelan retrata personalidades contemporâneas. Em Varsóvia, Him está exposta num pequeno beco, de joelhos sobre a calçada. O público pode vê-la de frente através de um gradeamento, ou apenas ao fundo, de costas, entrando no beco.

Em 2006, quando apresentou pela primeira vez esta peça, o Museu de Arte Contemporânea de Chicago publicou um texto que mantém online: “Este trabalho justapõe a vulnerabilidade do corpo aparentemente inocente de um rapaz com a cara adulta de Adolf Hitler, que é considerado a mais maléfica pessoa do século XX pela sua responsabilidade na morte de seis milhões de judeus no Holocausto e pela morte de milhões de outras pessoas na II Guerra Mundial.”

O texto diz também que Catellan sempre quis que o público se aproximasse desta pequena escultura de feições hiper-realistas pelas costas, apercebendo-se apenas depois de quem retrata. “A escala da figura, em relação com a estatura do público, inverte as relações de poder, talvez levantando respostas conflituosas, mas não diminuindo por isso a potência da imagem de Hitler nem a magnitude dos seus crimes. Him talvez sirva de lembrança de que o rosto do mal nem sempre é facilmente reconhecível.”

Him faz parte da mesma série de esculturas que a imagem de João Paulo II que causou também polémica em 1997 ao ser apresentada na grande exposição Sensation, da colecção de Charles Saatchi na Royal Accademy de Londres – essa peça mostra o papa caído por terra, abalroado por um meteorito. 
 
 

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