Hélia Correia e Janas

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Hélia Correia queria ter mais tempo, pelo menos mais 25%, porque no Verão não vive. Mas que mal há no Verão? "É tudo muito agressivo"

A olhar para a serra de Sintra, a escritora criou o seu refúgio em Janas, junto às Azenhas do Mar. Da casa, que foi adaptando à sua imagem, já não precisa de subir à árvore mais alta de Mafra, como fazia em criança, para ter de frente a paisagem que sente como o seu centro. Isabel Lucas (texto) e Enric Vives-Rubio (fotos)

A carrinha dos correios acaba de sair. Hélia ainda está à conversa com Bina, a vizinha, na paragem da camioneta, depois de ter mandado ir uma carta. Em Janas o carteiro não toca. É preciso esperar por ele em dia e hora marcados. Estamos perto de Lisboa, serra de Sintra em fundo, mas é como estar muito longe. Cheira a pão quente, a lenha de forno ou de lareira, o céu ameaça chuva e corre um vento que corta os ossos e fere os lábios. Este é o tempo de Hélia Correia. O que a faz sair à rua e também ficar horas perdida a escrever na sua sala forrada a papel countryside inglês, fundo amarelo claro ponteando a verde. Só escreve com chuva. No Verão, Hélia esconde-se, encolhe-se como o bicho-de-conta quando o sol lhe toca. Ali, em Janas, a uns dois quilómetros das Azenhas do Mar, ao lado da Praia das Maçãs, em dias de chuva ou céu negro, a escritora sente-se plena e não há no seu rosto nem um reflexo da monotonia que se possa achar no ambiente. "Este é o meu tempo". Ri-se.

Não se lembra de quando arrendou a casa onde passa grande parte dos dias quando não tem de estar em Lisboa. "Eu não conto o tempo", diz, enquanto parte um pedaço de pão no restaurante mesmo no centro da aldeia. E o aparte: "São eles que me alimentam", o casal que quando ela passa para a padaria, de manhã, lhe diz o que há para o almoço. Volta ao tempo que não conta para dizer quando encontrou Janas. "Foi durante a primeira guerra do Golfo. Estava tudo numa grande confusão." Uma casa "nada de especial", como vai avisando. A não ser estar virada para o universo mais privado de Hélia Correia. A serra de Sintra.

O nevoeiro tão denso não deixa ver nada do outro lado da estrada, a partir da casa de duas janelas com porta ao meio, um pequeno jardim em frente e um portão de ferro que não diz "cuidado com o cão". Já chove miudinho. Ali só há gatos, oito, e uma espécie de retiro que resume o mundo mágico da escritora que começou por querer ser poeta, foi professora no ensino secundário e se fixou na ficção. Romance, contos, teatro. Um sótão a replicar um conto de fadas, estrelas no tecto, uma entrada-mistério, duendes no passeio. Não estamos a invadir privacidade, a cair em detalhes íntimos. O mais íntimo da escritora não está ali, está lá na serra que vai ganhando silhueta com o avançar da tarde, um recorte cada vez mais nítido até talvez se ver o acender das luzes do Palácio da Pena e ser um cenário que não ilude apenas as crianças que vêem em Hélia Correia uma enviada das fadas à terra. Coisa feérica.

Do cimo da árvore

Ela partilha aquele espaço com os mais novos, filhos de amigos que ficam a tomar chá na sala enquanto ela sobe com eles ao sótão e brinca como gente pequena. Conta histórias? Não, "contar histórias é coisa de adultos e eles aborrecem-se". É isso, brincar como gente pequena, como quando, em Mafra, onde cresceu e subia ao galho mais alto de uma certa árvore para ver ao longe, na paisagem, a serra. A tal serra. Não sabe explicar o fascínio, apenas que o encantamento continua e é alimentado por Hélia em longos passeios a pé, aí sim, sozinha ou com o namorado, o escritor Jaime Rocha. Cede numa partilha: a do Convento dos Capuchos, onde gosta de levar os mais novos por achar que há ali algo de miniatura.

Nada de especial. Tudo muito simples. Qual o interesse? São frases curtas que Hélia Correia vai atirando com o olhar a tentar abarcar tudo o que se pode ver ou se adivinha perto, "sítios muito bonitos", o atalho que vai dar às Azenhas do Mar, as aldeias de Fontanelas, Gouveia, Ulgueira, a sua preferida, com o casario antigo impecável. "Muito bonito, mas eu não conseguiria viver ali", confessa. Como não era capaz de viver numa vila ou em qualquer outra aldeia. "Sou de Mafra, cresci em Mafra e todos me conheciam. Era muito olhada, fui olhada o suficiente para desejar não ser centro de olhares. Era filha de um comunista e nos anos cinquenta, início de sessenta, a divisão política ali era tremenda. E depois eu tinha umas peculiaridades, era considerada muito inteligente, aos seis anos tive um esgotamento porque lia muito e não fui para a escola." Pede queijo fresco e ao ouvi-la falar ninguém diria que não é dali. Não há um pico de arrogância na voz, altivez no olhar. Hélia fala como falam os da aldeia quando regride no tempo para parar nas expectativas do seu círculo familiar em relação a uma menina que parecia um prodígio. "Eles projectavam-se muito em mim."

Isso não era bom nem mau. Era diferente e ela nunca quis ser diferente. Às vezes assustava-a o peso, mas lembra a solidariedade dos professores para com ela, "mesmo os de direita", sublinha. Só que o foco estava sempre apontado a ela. Uma traquinice e lá vinha o "olha que eu sei de quem tu és filha", e o medo de o pai poder ser castigado. Sempre esse medo por quem não entende a extensão daquele "olha que eu sei de quem tu és filha", mas a presume imensa. E as congeminações do padre com a avó a tentar baptizá-la às escondidas do resto da família... Por isso tudo, não lhe falem de lugares pequenos, círculos fechados. Valiam-lhe as saídas para Lisboa, onde vivia a irmã mais velha. "Eu tinha umas febres que o médico nunca conseguiu perceber de onde vinham, mas que em Lisboa não apareciam. E nas férias ia sempre para casa da minha irmã e adorava porque sentia uma terra muito grande onde ninguém me conhecia, o anonimato, coisa maravilhosa."

A voz da mulher e o olhar de miúda fazem de Hélia Correia alguém sem idade, sem o tal tempo de que se distrai até para comer numa contagem que começou em 1949, como dizem os registos em relação ao ano em que nasceu. E sem que ela saiba convoca para a conversa a figura de Lillias Fraser, a menina escocesa de olhos luminosos, protagonista do romance com o mesmo nome - o grande livro de Hélia, publicado em 2001 - que desembarca em Lisboa no momento em que se dá o terramoto de 1755 e acompanha a massa de fugitivos da destruição num território que vai, precisamente, de Lisboa a Mafra. No romance, como nas palavras que lhe saem sem ensaio, há uma poética que fica bem com a paisagem. "Que nuvens tão bonitas!", aponta, e vem então o pragmatismo de quem anda a perder tempo. Tempo de chuva igual a tempo de criatividade, já se disse, mas sublinha-se. "Se a chuva pára, o que é que eu faço à minha vida?" Este tem sido um Outono chuvoso mas a escrita ainda não veio. "Tenho andado a viajar. Não tenho conseguido estabilidade, paragem."

A escrita acontece ali, às vezes na sala inglesa, perto do abecedário a ponto de cruz que imita o de Emily Bronté, "a minha Emily", como lhe chama, ou da fotografia de Virgina Woolf, da caligrafia de Maria Gabriela Llansol, a escritora com quem Hélia Correia partilhava a paixão por Sintra em longas conversas, caminhadas, e de quem herdou a gata, Melissa, ainda viva.

Ali, naquela sala, a viagem ganha distância. Vai até outro dos sítios de Hélia. Inglaterra, Escócia. Brumas e chuva e verde e a escrita de mulheres com nomes ingleses e pouco convencionais como ela também sabe que é, ou a olham. Mulheres como Lillias Fraser ou Elizabeth Siddal (Lizzie), a modelo de pintores do século XX, protagonista de Adoecer, o seu romance de 2010. Que tem isto a ver com Janas? Tanto. É o centro de uma geografia que se estende para outros lugares com brumas e a montanha verde, ao fundo, a sugerir mistérios. Mas Hélia gosta de Janas não só por a sua casa estar de frente para a serra, mas porque ali ninguém lhe faz perguntas. Acolhem-na como uma das suas. "As pessoas aqui são muito abertas. Não sou casada, não tenho crianças, não sou dona de casa, não sei cozinhar, mas elas rapidamente processam a diferença. Não são abertas por ideologia, mas por bondade." O sorriso é uma pausa antes de acrescentar: "Não significa que isto seja o paraíso. Há umas guerrinhas..."

As ruas estão mais ou menos desertas. Claro que há um cão meio adormecido à procura do lugar mais abrigado para uma sesta, alguém que passa e diz boa tarde, o acenar ao longe, a paragem na mercearia só para um olá. Entrar no café para cumprimentar o senhor Artur. "A mãe dele faz os melhores bolos do mundo", aviso para gulosos e nota para quem não pode passar sem jornais. É ali que se compram. Ela vai passando sem eles, nesse viver onde o real nunca entra por completo. Andam à espreita um do outro. Ela e ele. E só se contaminam no que tem de ser. Quando ela tem de saber o horário da camioneta que a leva a Sintra, por exemplo, onde no dia seguinte tem uma reunião às onze. Significa ir na camioneta das dez e meia. Assim será. Arranja-se a vida de modo a que tudo se conjugue e, da camioneta, olha-se a paisagem mais de cima, uma perspectiva que os olhos de quem viaja nos automóveis não tem. Vai ela, vão umas crianças para a escola, pessoas para consultas ao médico e uma ou outra freira do convento que está ali bem perto. Hélia tem carta de condução, mas nunca conduziu por consideração com o mundo. Ri-se.

Um templo no pinhal

E segue o passo, capa aos ombros, saia comprida, o cabelo apanhado com dois ganchos, como o das raparigas de um colégio. Ligeira, como nas caminhadas pelos pinhais, sem rotinas, perdendo-se em leituras noite fora e a dormir até os gatos deixarem. Queria ter mais tempo. Pelo menos mais 25%, porque no Verão não vive e são pelo menos três meses, agora acrescentados com as alterações climáticas, e na Primavera vêm as alergias... Era mais tempo. Resume-se a isso. Mas que mal há no Verão? "É tudo muito agressivo." Ponto e pronto. Hiberna, então. Melhor, chama "estiolar" a esse modo de espera que não tem dia para acabar. Quando não há verbo, inventa-se.

O caminho agora é o da capela de São Mamede. Uns minutos a pé, atravessada a aldeia. Dizem que só há duas capelas redondas na Península Ibérica. Aquela é uma e é um dos sítios de Hélia Correia. Na clareira do pinhal, ao lado, organiza todos os anos a festa do solstício de Verão. Avança para o sítio. "É aqui." As copas das árvores alinhadas quase cerram a luz, os troncos obedecem a uma geometria fantástica. Ninguém. Não há medo, que aquele não é lugar para isso. Mais uma vez a serra em frente, a suspeita de que por baixo daquela construção houve um templo romano dedicado a Diana e por isso se explica a romaria da bênção dos animais, uma festa anual. Tudo tem tanto de sagrado quanto de pagão. O cruzeiro aponta o céu e os pés evitam pisar os cogumelos. "Por ali ia-se para a casa onde vivia o Vergílio Ferreira", aponta para a esquerda.

"São lugares afectivos", o saco na mão, broas com nozes compradas na padaria famosa, que traz gente de fora. No Verão é vê-los chegar. Às segundas habitações, os lisboetas, ou neo-rústicos, como lhes chama, que romantizam a vida no campo com mar bem perto. Diz isto como quem fala de um mundo que não é o seu mas que não desdenha. Não estão lá agora. Só os locais, o frio e a humidade. "Não sinto necessidade nenhuma de sair daqui. Não sinto necessidades sociais. Nunca senti." E o conforto da capa pelos ombros, da salamandra que aquece a casa, de poder receber só quem quer, de nunca lhe baterem à porta sem avisar.

"Esta não é a hora das visitas", escreveu em Adoecer acerca de um lugar hostil. Não é o caso. Ali, o casario não é alinhado, a arquitectura não respeita nenhuma tradição, não é very typical, mas há a tal vista para o lado mais íntimo de Hélia - se tudo corresse bem, estaria agora a escrever, com a inspiração da chuva que cai, frases como as que usou para compor o universo de Lizzie e que não anda muito longe do dela. "Erguendo os olhos para a subida, vejo que a hostilidade do lugar levanta, exactamente como um nevoeiro. Precisa de repouso, a terra, e engana-se, supondo que fechou a sua entrada. No interior do círculo estou eu."