Paulo Rocha é um território de reencontro de gerações

O Cinema Novo em geral, Verdes Anos e Mudar de Vida, em especial, são um estado de graça para várias gerações de cineastas. Joaquim Sapinho, Manuel Mozos, João Pedro Rodrigues, Raquel Freire e João Salaviza falam desse reencontro nas suas vidas.

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Rodrigues, Sapinho, Salaviza e Freire: "A maneira de pensar, o amor pelas coisas, é o que fica” DR

Esse projecto, explica, “entroncava numa linhagem mizoguchiana que existe em Mudar de Vida [1966] e na paixão do Paulo pelo Japão – ligado à paixão por uma rapariga japonesa que conheceu quando estudava no IDHEC [Institut des Hautes Études Cinématographiques, Paris] – e que o levou a filmar A Ilha dos Amores [1982]. Seria o culminar da sua paixão pelo Oriente e de uma ligação ao Japão pessoal e artística, porque no caso do Paulo o cinema e a vida estavam ligados”.

Sapinho, 47 anos, reconhece que a forma como Rocha falou “da realidade portuguesa sem estar cansado”, como se a olhasse de fora e sempre com possibilidade de regeneração – porque “era um estrangeirado, o pai foi para o Brasil, ele estudou no IDHEC”...–, o facto de ter feito “uma actualização permanente de como se estava a viver em Portugal”, coloca esse período do Cinema Novo numa espécie de estado de graça para várias gerações de cineastas. Ainda dura. “As pessoas falam do Verdes Anos [1963] por causa do amor e da adolescência, e de facto ele fez a primeira história de amor moderna do cinema português. Mas para mim o mais misterioso é Mudar de Vida, por causa dessa coisa muito mizoguchiana de estar tudo ligado na vida.”

Um “mizoguchiano” com pena de não ser “renoiriano”, como explica Sapinho. “O Paulo foi assistente de realização no último filme do Renoir [O Cabo de Guerra, 1962]. Durante anos na escola trabalhou connosco a Regra do Jogo [1939] e o amor à vida do Renoir, essa coisa de nenhuma teoria dever fechar aquilo que se sente. Mas havia uma tensão no Paulo: o amor à vida era sempre assombrado pelo lado trágico. Penso que ele queria ser mais renoiriano do que na realidade conseguia, porque no fundo era um mizoguchiano.”

Sobre aprendizagem fala também a realizadora Raquel Freire, 39 anos. “Se há coisa que ele me ensinou, foi a dar importância à forma como vivemos uns com os outros, porque o cinema é isso, é trabalharmos com todos. Foi ele que me convidou para assistente em O Rio do Ouro (1998). Eu não vinha do cinema, mas ele ensinou-me que o cinema se aprendia a fazer. Ele próprio estava sempre a aprender. Queria experimentar sempre coisas novas, tentava explorar novos caminhos e não se deixava ficar pelas fórmulas do sucesso”, conta a realizadora de Rasganço (2001). Filme para o qual convidou Rocha, para um pequeno papel. “Quando ele viu o que tinha de fazer, era uma cena com um nu e sangue, completamente oposta ao seu lirismo extremo, porque ele era muito poético e tinha pudor... mas eu sabia que o tinha de provocar. Ele sempre me puxou até aos limites. Era assim ele...”

Raquel também prefere Mudar de Vida a Verdes Anos. Mais extremada ainda: “Mudar de Vida é o melhor filme português, é uma lição de cinema. Ele junta pessoas da sua família e do Furadouro com actores e consegue a partir daí criar um filme. Isto foi o que sempre o vi fazer. Era destemido, generoso e muito talentoso.” Raquel é destemida, também: “Todos os filmes pós-Paulo Rocha são uma repetição d' Os Verdes Anos. Os filmes do Sapinho, da Teresa Villaverde... São sempre sobre um jovem cheio de sonhos confrontado pelo sistema. São sempre um retrato social e político do país a partir das personagens, das suas histórias.” Manuel Mozos, 52 anos, aluno de Rocha, assume que a sua longa-metragem Xavier (1992-2002), que Paulo Rocha ajudou a acabar, é uma homenagem declarada a Verdes Anos. “Mas o que mais me marcou foi algo já fora da escola - a minha experiência de montador no Máscara de Aço contra Abismo Azul (1989), que fica como uma das coisas que me deu mais prazer. Julgo que é quase incontornável para quem privou com ele que ele seja uma das nossas grandes referências.”

Estado de graça. Veja-se o que diz João Salaviza, 28 anos, o realizador já premiado com uma Palma de Ouro de Cannes e um Urso de Ouro de Berlim: “Há uma único momento do cinema português em relação ao qual sinto uma filiação: Mudar de Vida, Os Verdes Anos [Paulo Rocha], Belarmino [1964] e Uma Abelha na Chuva [ambos de Fernando Lopes, este de 1972]. Deles retirei a ideia de que o cinema é um veículo de observação da realidade, apaixonado e comprometido. É algo a que o cinema português nunca mais conseguiu na atenção e comprometimento com a realidade, um lado sensorial e na forma como as coisas são vistas.”

O que se vê em Arena (2009) ou Rafa (2012), curtas de Salaviza, está então tintado por uma certa nostalgia: de uma vida nos bairros de Lisboa que já despareceram, de um cinema sobre essa vida que está ameaçado. “[Aqueles filmes de Paulo Rocha] são uma espécie de influência directa no meu trabalho: a ideia do cinema como máquina de registo da cidade de Lisboa e suas mudanças. Há um reencontro entre gerações e filmes sobre lugares fantasmagóricos, como os bairros que eram campo, Chelas, por exemplo, porque estão sempre a mudar e é aí que eu e outros cineastas estamos a filmar agora.”

Sobre o cinema e os lugares: “Ele vivia no prédio do [café] Vá-Vá [Lisboa] e filmou a entrada da sua própria casa, que era aquela em que a personagem da Isabel Ruth trabalhava [em Os Verdes Anos]”, lembra João Pedro Rodrigues, 46 anos. “O cinema de Paulo Rocha fala de coisas que estão perto e eu sinto isso no meu trabalho. Filmou aqueles lugares entre o campo e a cidade. Quando começou, fez cinema moderno, os filmes falam de nós, de estar perto do que nos é próximo, das nossas emoções – e isso foi o que o Paulo Rocha me deixou. E depois virei-me para o Oriente [a curta China China, de 2007, a recente longa A Última Vez Que Vi Macau, co-realizada em 2012 com João Rui Guerra da Mata] e ele obviamente tinha-o feito. Deu-me a conhecer o Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Shohei Imamura. Sinto como se as histórias que eu tinha para contar em Lisboa se tivessem esgotado e a abertura ao Oriente permitiu-me continuar e acho que o Paulo Rocha também sentiu isso. A maneira de pensar, o amor pelas coisas é o que fica.”