Pessimistas para ter os pés na terra, optimistas para seguir em frente

Ao longo de cinco dias publicámos textos com entrevistas sobre temas que nos ocupam o pensamento nesta altura: consumismo e poupança, família e viver sozinho, religião e ateísmo, amor e violência. Esta quinta-feira, acabamos com optimismo e pessimismo.

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As passagens de ano são normalmente repositórios de expectativas para o futuro
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As passagens de ano são normalmente repositórios de expectativas para o futuro Reuters

Nos últimos anos, uma "overdose" de livros sobre optimismo inundou as livrarias. Há manuais que ensinam a levar o optimismo à prática, correntes que defendem que quanto mais visualizarmos um futuro brilhante, maior probabilidade existe de ele se concretizar.

Entre a psicologia positiva impulsionada pelo seu fundador, o americano Martin Seligman, e promessas de felicidade à vista, frases como "o optimismo ajuda a ser feliz", "sorria, seja optimista", "pensar de forma positiva" aparecem como receitas. 

Porquê esta "obsessão" com o optimismo? É mesmo condição essencial para viver bem? Deveríamos olhar para 2013 e ter expectativas altas?

Primeiro, afinal somos todos um pouco mais optimistas do que julgamos, segundo Tali Sharot, professora britânica no Departamento de Ciências Cerebrais da University College London, e directora do laboratório de estudo Affective Brain, que repegou numa teoria dos anos 1980 e escreveu o livro The Optimism Bias - Why are we wired to look at the bright side. A sua tese é a de que as nossas expectativas em relação ao futuro são, em geral, sempre melhores do que a realidade confirma. Definindo o preconceito optimista: "O optimismo é esperar acontecimentos positivos no futuro, o preconceito optimista é a diferença entre as expectativas e os resultados. O preconceito significa que se sobrevaloriza a ideia de acontecimentos positivos e subestima a probabilidade de acontecimentos negativos." 

Se alguém nos disser que somos muito espertos, a tendência é valorizarmos essa informação; se disser que não somos espertos, a tendência é achar que quem o disse também não o é, refere. "O mesmo se passa em relação ao futuro: se alguém disser que é provável termos um aumento de salário, ficamos com essa expectativa; se alguém disser que duvida de que vamos ter um aumento, ficamos a pensar que ainda é possível", explica. 

Embora estejam ligados, optimismo e felicidade e pensamento positivo não são a mesma coisa. "Podemos estar felizes num momento e não ter expectativas positivas quanto ao futuro ou não estarmos bem no momento, mas esperar o melhor. O pensamento positivo faz-nos pensar positivamente no momento, optimismo não força a pensar que as coisas estão a correr bem, está ligado à projecção."

Tali Sharot não descarta o lado negativo do optimismo, que pode levar a investir na bolsa e a perder tudo, por exemplo, ou a subestimarmos riscos e não tomarmos precauções como ir ao médico. Mas o psicólogo clínico americano Edward C. Chang, que dirige um laboratório na Universidade do Michigan dedicado ao optimismo-pessimismo, é mais crítico. 

Para ele, o pessimismo "ajuda-nos a estar alerta". Questiona se, ao contrário do que vários estudos apontam, o pessimismo pode ser positivo em alguns contextos e o optimismo negativo noutros. Entre as várias pesquisas que Chang fez, uma foi sobre o "preconceito optimista", que "não existe praticamente em culturas asiáticas - como na japonesa e entre os asiático-americanos". "Quando se pergunta às pessoas qual é a probabilidade de coisas boas ou más lhe acontecerem, o típico americano-europeu vai responder que a probabilidade de alguma coisa má lhe acontecer é mais baixa do que a média e a probabilidade de alguma coisa boa lhe acontecer é mais alta do que a média. Quando se pergunta a japoneses e a asiático-americanos é ao contrário." 

Chang defende que há uma "diferença normativa" entre culturas asiáticas e ocidentais, porque para muitos asiáticos as noções de obrigação, honra, respeito pelos pais são extremamente importantes. "As crianças asiáticas são ensinadas a não ofender os pais e aprendem a antecipar situações desafiantes de forma a garantir que o resultado é sempre positivo, não apenas para si, mas também para a família. Usam assim a estratégia do pessimismo: antecipam todas as coisas que podem correr mal, os obstáculos, conseguem ter uma noção dos recursos disponíveis e tomar as medidas necessárias - ou seja, muitos asiáticos podem usar essa estratégia pessimista porque ela simplesmente funciona." 

Expectativas e realismo
Tali Sharot começou a interessar-se por este tema quando estudava a memória numa pesquisa sobre o 11 de Setembro. Na altura, estava mais interessada nos acontecimentos negativos e neutros. "Queria ver se o mecanismo responsável pela forma como as emoções mudam a memória era o mesmo que o responsável pela forma como as emoções mudam a imaginação do futuro." Concluiu que sim. Quanto à memória, o que fica retido não é se uma coisa é positiva ou negativa, mas se provocou excitação, tenha ela sido agradável ou desagradável. Olhar para a frente implica criar expectativas - e estas não se mudam facilmente. "Há estudos que dizem que o preconceito optimista tem uma componente genética, mas há ainda o nosso ambiente, a forma como crescemos, e alguns estudos mostram que se pode aumentar o optimismo - fazer planos específicos, por exemplo, porque se consegue visualizar o resultado." 

O optimismo ou o pessimismo estão ligados às expectativas e a investigadora britânica cita um estudo em que se concluiu que pessoas com expectativas mais altas são as que se sentirão melhor, seja qual for o resultado - isto porque, se for negativo, interpretam o resultado como algo determinado por uma entidade externa, não como consequência das suas acções. O exemplo é o de um estudo com alunos que falharam num exame: os optimistas atribuíram o falhanço ao exame, os pessimistas a eles próprios. Autoconfiança e optimismo podem estar relacionados, diz Sharot, porque em ambos os casos se sobrestima o positivo e subestima o negativo. E nos dois casos activa-se o mecanismo da ilusão, responsável pela nossa tendência "em descartar informação negativa sobre como somos e sobre o nosso futuro". 

Uma das conclusões curiosas na pesquisa de Sharot é a de que as pessoas mais realistas são as que têm depressão moderada. Quem tem depressão severa não tem sequer um preconceito optimista - ou seja, há uma grande dose de ilusão no optimismo. "Somos todos um pouco iludidos em relação a nós e ao futuro", diz. "Somos iludidos sobre o controlo que temos sobre as nossas vidas e sobre o ambiente. Isto é bom, muito adaptável, mantém-nos saudáveis física e mentalmente e faz-nos andar para a frente. O preconceito optimista não é a única maneira de nos iludirmos: ver também implica ilusão, sabemos que não vemos o mundo exactamente como ele é, não vemos os pontos cegos que sabemos existirem. O cérebro cria as ilusões e, se víssemos tudo sem as ilusões, a vida ia ser muito difícil." Saber que temos um preconceito optimista é "como sabermos que não conseguimos ver os pontos cegos, como sabermos que temos ilusões visuais", ou seja, não altera em nada os nossos níveis de optimismo. "Só porque sabemos que existe não desaparece." 

A ausência de ilusão e o pessimismo funcionam, curiosamente, como antídoto em alguns casos. O psicólogo fez uma pesquisa para saber os efeitos de acontecimentos negativos em optimistas e pessimistas e o resultado foi que "os grandes optimistas experienciaram mais sintomas depressivos do que os pessimistas". "Ou seja, há uma vulnerabilidade em ser-se optimista cego. Os pessimistas antecipam: a vida é dura. O pessimismo pode ajudar-nos a sobreviver e, no longo prazo, a conquistar melhor as coisas, porque aprendemos a desenvolver estratégias e precauções de modo a termos planos B."

Chang insite que é preciso cuidado na associação entre pessimismo e depressão, que os dois não estão necessariamente ligados - "o pessimismo num asiático pode ser visto como uma doença mental, quando faz parte de uma norma cultural". E defende que, se há várias pesquisas que mostram que o optimismo é um bom catalisador da motivação, também há investigação que mostra que, quando se olha para a personalidade como algo maleável, o ser-se pessimista não influencia essa mesma motivação. Citando outro estudo: "Perguntou-se a americanos, antes do exame, qual era a nota que os estudantes esperavam. A maior parte respondeu de forma optimista. Duas semanas depois, perguntaram que nota achavam que tinham tido no exame e a maioria reviu as suas previsões para uma nota mais baixa. Porquê? Para manterem os seus níveis de felicidade - se tivessem uma nota intermédia, ficariam contentes, ou seja, o pessimismo pode ser útil para um resultado positivo." 

As passagens de ano são normalmente repositórios de expectativas para o futuro. Portanto, à beira de saltar para 2013, deveremos ser pessimistas ou optimistas? 

"As duas coisas!", responde Chang. Não se trata de ver o pessimismo e optimismo como "vício e virtude", mas de encontrar o "equilíbrio" de "um duo dinâmico", defende. "[Devemos assim] esperar que as coisas possam correr mal e portanto sermos conservadores nas previsões, investimentos, julgamentos, emoções, etc. Mas devemos continuar a ter esperança de que as coisas podem melhorar. Optimismo e pessimismo são como um fluxo que nos fazem andar - pessimismo para nos manter com os pés no chão, optimismo para acreditar que podemos mudar."