Em Marianna existiam duas salas do chicote mas só uma das violações

Foto
"A maior parte dos rapazes que morreram eram afro-americanos", disse Erin Kimmerle MICHAEL SPOONEYBARGER/REUTERS

Abriu em 1900 e três anos depois já se sabia que a Escola de Rapazes da Florida era uma casa de tortura, violações e assassínio de rapazes. A Universidade de Tampa estuda cem sepulturas e confirma as histórias

Na escola existiam duas salas do chicote. Uma nos edifícios para rapazes brancos. Outra no edifício para rapazes negros. O "chicote" era um cinto, comprido, de couro e metal, e as vergastadas eram tão fortes que bocados da roupa interior dos miúdos ficavam-lhes entranhados na carne.

Na escola existia uma sala de violações. Só uma. Para violar todos os meninos, os brancos e os negros; mais os negros.

Na escola existiam banheiras. Também não havia segregação nas banheiras. Qualquer uma servia para afogar crianças brancas e crianças negras; mais negras.

Na escola havia um cemitério. Quarenta e cinco menores foram lá enterrados. Mas nos registos há mais 31 mortos, com referência a corpos enviados para outros lugares. E sobre outros 22 não há informação sobre os corpos.

Podem ser ainda mais: o reformatório, rebaptizado com o nome de um director, Arthur G. Dozier, estava rodeado de mato - quantos corpos terão sido despejados ali?, perguntou a antropóloga Erin Kimmerle, da Universidade de Tampa, na Florida, ao divulgar este mês um primeiro relatório da investigação forense que está a ser feita no local.

A Escola de Rapazes de Marianna, na Florida, abriu no dia 1 de Janeiro de 1900. Três anos depois já se sabia que era um campo de tortura, de abuso sexual, de assassínio de menores - de meninos de cinco anos a rapazes de 18 -, porque são datados desse ano documentos que dizem que os rapazes eram mantidos acorrentados, agarrados às mesas ou às camas. Terá sido por isso que morreram seis de uma vez num incêndio num dormitório, em 1914.

Mas só encerrou em 2011. Um relatório de 2010 da polícia da Florida desenterrou histórias velhas - a maior parte dos crimes foram cometidos até ao final dos anos 1960, por funcionários -, confirmou relatos de terror, assumiu que o velho reformatório era uma casa de despejo de órfãos e indesejados. Miúdos brancos, mas sobretudo negros, presos, julgados (ou não) e condenados àquela espécie de prisão porque (está nos documentos oficiais) foram apanhados a fumar na escola, foram considerados incontroláveis, incapazes.

"A maior parte dos rapazes que morreram aqui eram afro-americanos", confirmou agora a antropóloga Erin Kimmerle. O documento foi citado em jornais e televisões americanos e europeus, por exemplo a BBC, a CNN, o Miami Herald e The Guardian. Diz, por exemplo, que não se devem esperar processos judiciais relativos a estes crimes. Ou já prescreveram ou não teriam base para provocar um julgamento. "Mesmo a documentação da época diverge e nos relatórios surgem várias causas de morte", disse Erin Kimmerle. A antropóloga explicou que, por agora, a sua equipa trabalha com a ideia de perto de cem vítimas (o dobro do esperado).

Disse Kimmerle que a equipa de antropólogos forenses vai continuar a procurar corpos. Identificá-los, será difícil. Muitos não tinham família. Pelo que o relatório forense foi sobretudo pretexto para relembrar uma história há muito conhecida e mesmo assim perpetuada durante quase 70 anos. E para recuperar testemunhos recolhidos em 2010, que foram usados para tentar indemnizar os sobreviventes, mas os tribunais estaduais rejeitaram o caso.

"Vi um morrer numa banheira, depois de ter sido espancado até desfalecer. Creio que [tentou fugir] e foi apanhado pelos cães. Nunca soube a verdade", disse uma testemunha. Muitos rapazes morreram depois de tentarem fugir ou nos primeiros três meses de "internamento". "Vi um rapaz morrer, puseram-no numa secadora de roupa."

Jerry Cooper, de 67 anos, citado pelo Miami Herald, disse que os colegas que teve nas décadas de 1950 e 1960 (estavam ali cerca de 550 rapazes entre os dez e os 16 anos) não eram criminosos, só eram tratados como se fossem. "Havia órfãos que não tinham para onde ir e que eram mandados para Marianna. Não éramos miúdos maus. Precisavamos de um pouco de respeito, mas não foi o que encontrámos." Cooper sobreviveu à "Casa Branca", a ala-prisão do reformatório, com 11 celas, construída em 1929 - era ali a sala das violações.