Ainda há clubes no mundo que só aceitam jogadores do "seu" país

De Bilbau a Guadalajara, algumas histórias de protecção e nacionalismo no futebol, um fenómeno cada vez mais raro mas que ainda se mantém vivo nalguns emblemas.

Fernando Llorente, avançado nascido em Pamplona (País Basco) e "estrela" do Athletic
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Fernando Llorente, avançado nascido em Pamplona (Navarra) e "estrela" do Athletic Wolfgang Rattay/Reuters

A 29 de Agosto de 1979, fez-se história no Estádio da Luz. Não marcou a conquista de nenhum troféu. Aliás, era um jogo de início de campeonato, em que o Benfica recebia o Vitória de Setúbal, uma vitória sem grande história dos "encarnados" por 5-1, com três golos de Nené. A parte histórica chega ao minuto 72. O técnico Mário Wilson mexe na equipa, tira Fernando Chalana e faz entrar o carioca Jorge Gomes da Silva Filho, o primeiro jogador estrangeiro a alinhar pelo Benfica. Poucos dias depois, em Vila do Conde, nova data histórica. Jorge Gomes tornava-se no primeiro estrangeiro a marcar pelo Benfica no triunfo por 3-0 sobre o Rio Ave.

Era o fim de uma era no Benfica. Acabava-se a tradição dos "encarnados" em ter apenas jogadores portugueses (metrópole e colónias), algo que estava na matriz do clube e que até estava definido nos estatutos. Essa regra mudara a 1 de Julho de 1979, numa famosa assembleia geral em que os sócios votaram esmagadoramente a favor (472 contra 62), após oito horas de discussão. Depois disto, contrataram-se nessa época Gomes ao Boavista e César ao América do Rio de Janeiro, que até valeu o triunfo na Taça desse ano com um golo na final frente ao FC Porto. Trinta e três anos depois, são raras as vezes em que o Benfica joga com um português no "onze" inicial e é raro ter um jogador convocado para a selecção nacional.

Estes comportamentos "proteccionistas" são cada vez mais difíceis de encontrar no futebol, mas a filosofia ainda é praticada nalguns clubes, de todo o mundo, de Guadalajara, no México, a Bilbau, no País Basco, passando por Quito, no Equador.

O maior exemplo será o do Athletic Bilbao, cuja política de utilizar apenas jogadores bascos, não necessariamente nascidos na região, funciona como uma forma de afirmação de uma identidade e de um nacionalismo.

Athletic Bilbao

A exclusividade basca não dura desde a fundação do clube, em 1889. Chama-se Athletic Club porque os seus fundadores eram operários e mineiros britânicos de Bilbau que se juntaram a bascos que haviam estudado e aprendido as regras do futebol em Inglaterra - Franco tentou limpar as origens britânicas do clube obrigando-o a mudar o nome para Atlético, mas a medida foi anulada quando o franquismo caiu. No início, havia jogadores ingleses e a exclusividade só entrou em prática a partir de 1912.

O conceito, que não está escrito nos estatutos do clube, tem evoluído de modo a manter um campo de recrutamento o mais abrangente possível sem trair a filosofia da coisa. Não é obrigatório que os jogadores tenham nascido nos territórios do País Basco espanhol (Biscaia, Guipúzcoa e Álava), Navarra e o País Basco francês (que teve apenas um representante no Athletic, Bixente Lizarazu, que seria campeão mundial com a selecção francesa).

Também são elegíveis jogadores que cresceram em Euskadi. Por exemplo, o defesa Fernando Amorebieta nasceu na Venezuela e é internacional venezuelano, mas pode jogar no Athletic porque os seus pais são bascos e ele cresceu na região. Há também o caso de Victor Monteiro Oliveira, que nasceu em Guimarães e que foi para o País Basco acompanhando os pais, imigrantes. Representa o clube desde 2008 e está nos juniores.

Apesar do conceito mais lato de nacionalidade basca, a verdade é que o clube depende muito da sua formação e do recrutamento noutros clubes da região, como o Osasuna, o Alavés e até a Real Sociedad, o grande rival regional - Etxeberria, por exemplo, foi contratado com 17 anos ao clube de San Sebastián. E a verdade é que, mesmo estando longe do topo do futebol espanhol, o Athletic é um dos três clubes que nunca desceram da I Divisão (os outros são Barcelona e Real Madrid), o quarto clube com mais títulos de campeão (oito) e o segundo que mais vezes ganhou a Taça do Rei (23, menos três do que o Barcelona e mais cinco que o Real).

Chivas Guadalajara

Como muitos clubes da América Latina, o mexicano Club Deportivo Guadalajara surgiu em 1906 por iniciativa de um imigrante europeu, neste caso belga, e adoptou as cores do clube preferido do seu fundador, o Club Brugge. As primeiras equipas tinham belgas, franceses, espanhóis e mexicanos, mas, dois anos depois, tomou-se a decisão de fazer alinhar apenas jogadores do país. Em mais de cem anos de história, o Chivas, apenas com mexicanos, tornou-se no clube mais popular do país e aquele que tem mais títulos de campeão no currículo (11).

O Chivas é mais purista do que o Bilbao nas suas medidas proteccionistas. Não admite jogadores naturalizados, nem mexicanos que joguem por outras selecções - como acontece com o internacional venezuelano Amorebieta. "Os jogadores mexicanos que, por nascimento, tenham a possibilidade de jogar pela selecção de outro país não entram nesta instituição", lia-se num comunicado recente do clube, depois de se ter falado que Johan Cruyff, na altura director desportivo do clube (foi despedido no início de Dezembro), queria utilizar jogadores naturalizados.

No mesmo comunicado, o Chivas, que, tal como o Bilbao, não aplica esta regra aos treinadores (o holandês John van"t Schip é quem ocupa o cargo), acrescenta que são elegíveis aqueles que a Constituição do país define como mexicanos: os que nasçam no território, seja qual for a nacionalidade dos pais; os que nasçam no estrangeiro filhos de pais mexicanos; os que nasçam a bordo de aviões ou embarcações mexicanas. Nestes parâmetros, o Chivas pode ter, por exemplo, jogadores nascidos a norte da fronteira, nos EUA, como Miguel Ponce, nascido na Califórnia. Jorge Vergara, dono do Chivas Guadalajara, quis instituir uma política de usar jogadores com herança mexicana no Chivas USA, clube baseado em Los Angeles que alinha na Major League Soccer.

El Nacional, de Quito

O Club Deportivo El Nacional, de Quito, é o segundo clube com mais títulos de campeão no Equador (13) e também aposta, exclusivamente, em jogadores nacionais, e isto acontece desde a sua fundação, em 1960. A política proteccionista do clube ficou definida por um dos seus fundadores, Hugo Enderica Torres, um general na reserva, e as origens militares continuam vivas até hoje, com a direcção do clube a ser composta apenas por membros das Forças Armadas do país. Em 2011, foi proposto em assembleia geral a integração de jogadores estrangeiros no Nacional, mas os sócios votaram contra. "Temos de fortalecer os nossos escalões de formação e é essa a razão de ser do nosso clube", dizia, na altura um dirigente do Nacional.