International Club of Portugal admite apresentar queixa contra Artur Baptista da Silva

Entidade que organizou conferência com alegado consultor da ONU foi palco de uma conferência com ele em Outubro.

O presidente do International Club de Portugal, Manuel Ramalho, admitiu nesta segunda-feira a possibilidade de agir judicialmente contra Artur Baptista da Silva, o alegado especialista da ONU que participou como orador num jantar-debate organizado por esta associação.

 Nos últimos meses, Artur Baptista da Silva deu entrevistas e participou em conferências, apresentando-se como coordenador do Observatório Económico e Social da ONU, professor de uma universidade norte-americana e consultor do Banco Mundial, cargos que agora suscitam dúvidas. As suspeitas de que Baptista da Silva não faz o que dizia fazer levaram até agora o Expresso, a TSF e a SIC retractarem-se publicamente.

Também o presidente do International Club de Portugal desconfia que foi enganado e admite recorrer aos tribunais.

“É um assunto que iremos estudar e agir em conformidade. Não podemos deixar de proceder judicialmente, talvez até criminalmente” contra Artur Baptista da Silva, disse Manuel Ramalho à Lusa.

“Se andámos aqui a dar informação errada é porque acreditámos nas mentiras que nos foram [ditas], vamos tentar responsabilizar a fonte”, acrescentou.

Manuel Ramalho contou à Lusa que conheceu Artur Baptista da Silva, em Abril, num jantar em que foi apresentado como consultor do Banco Mundial e responsável por um departamento das Nações Unidas, ex-governante e ex-deputado do PS.

Seguiu-se uma troca de cartões e um almoço no Grémio Literário, em Lisboa, onde foi pela primeira vez abordada a possibilidade de participar num dos debates promovido pelo International Club.

“Disse-me que conhecia bem a actividade do International Club, que sabia que o clube estava a fazer um trabalho extraordinário e que se queria tornar membro, e que, inclusivamente, gostaria de ser nosso orador, que já várias instituições o tinham convidado mas não as achava suficientemente credíveis para aquilo que ele queria transmitir aos portugueses relativamente à situação da nossa economia”.

Como “estava de partida para as Nações Unidas”, Manuel Ramalho só voltou a encontrar-se com Artur Baptista da Silva em Setembro, altura em que o “especialista” reafirmou essa mesma disponibilidade.

Nessa altura, os responsáveis do International Club já tinham pesquisado a Internet e constatado que Artur Baptista da Silva “era um fantasma”.

Manuel Ramalho achou “estranho”, mas o facto de ter falado com várias pessoas que conheciam Artur Baptista da Silva e nada terem dito em seu “desabono” tranquilizou-o: “Todos nós sabemos que há portugueses com muita notoriedade no estrangeiro e que estão a fazer coisa extraordinárias e cá em Portugal não se fala dessas pessoas. Nunca quis acreditar que uma pessoa com tão bom aspecto, tão eloquente, estivesse na disposição de se fazer passar por aquilo que não era, ainda por cima num acto que iria ter tanta visibilidade pública. Obviamente não seria uma situação sustentável por muito tempo”, comentou.

O evento foi finalmente organizado e Artur Baptista da Silva foi o orador convidado num jantar sobre a crise europeia que aconteceu em Outubro, em Lisboa.

“Não lhe pagámos absolutamente nada como não pagamos nunca a nenhum orador”, garantiu Manuel Ramalho.

Para os membros do clube, o jantar custou 30 euros, enquanto os não-membros pagaram 40.

Manuel Ramalho recorda que o Club teve poucos associados presentes: “eram sobretudo pessoas das relações dele [Artur Baptista da Silva], que se inscreveram por intermédio dele”.

Só mais tarde surgiram as primeiras suspeitas.

“Algumas coisas fizeram-nos acreditar que o currículo dele não era exactamente aquilo que ele nos tinha enviado”, disse o responsável do International Club, adiantando que “alguns números não batiam certo” e não havia registos sobre a sua passagem pela secretaria de Estado do Comércio.

Mesmo assim, Manuel Ramalho ainda não está 100% certo de ter sido enganado

“A certeza ainda não tenho, já quis falar com ele e com a mulher, tenho os contactos todos e não consigo falar com ninguém”, salientou, afirmando que ainda não o ouviu “a fazer o contraditório disto”.

O International Club de Portugal promove regularmente debates com os seus associados pretende ser um espaço de análise.

Segundo a SIC, Artur Baptista da Silva foi responsável por uma burla nos anos 80 e o Diário de Notícias avança que foi libertado da prisão em Dezembro do ano passado.

A Lusa contactou a Procuradoria-Geral da República para confirmar se houve queixas contra o suposto burlão, sem resposta até ao momento.